Relatos coloniais apontam avanço destrutivo do mar na primeira vila do Brasil; climatologista analisa três explicações e propõe investigar um meteotsunami

Um maremoto teria atingido São Vicente, no litoral de São Paulo, no final de 1541, quando o Brasil ainda vivia o período colonial. Relatos históricos descrevem um avanço anormal do mar, com destruição de edificações na primeira vila do país. Mais de quatro séculos depois, a origem do fenômeno permanece sem comprovação científica, mas três hipóteses ajudam a explicar o que pode ter ocorrido.
O episódio voltou ao debate após um vídeo publicado nas redes sociais pelo climatologista e divulgador científico Rodolfo Bonafim. No material, ele analisa a possibilidade de um terremoto submarino, de um deslizamento de sedimentos no fundo do oceano ou de um tsunami meteorológico, também conhecido como meteotsunami.
A discussão parte de registros históricos atribuídos ao frei Gaspar da Madre de Deus, que descrevem a transformação da paisagem costeira de São Vicente. Entretanto, a ausência de medições científicas da época impede determinar a intensidade das ondas e a causa exata da destruição.
A primeira hipótese envolve um tsunami causado por terremoto no fundo do oceano. Bonafim cita o artigo Tsunamis no Brasil, publicado pelo geofísico José Alberto Veloso na Revista USP, em 2011, que considera essa possibilidade para o episódio colonial.
O climatologista ressalta, porém, que não há relatos conhecidos de tremores associados ao avanço do mar em São Vicente. Também faltam evidências que permitam identificar a localização e a magnitude de um possível terremoto ocorrido naquela época.
Como exemplo da atividade sísmica na margem continental brasileira, Bonafim menciona o terremoto de magnitude 5,2 registrado em 23 de abril de 2008, a aproximadamente 125km ao sul de São Vicente.
Segundo o especialista, estudos geofísicos identificaram o foco desse tremor a cerca de 17km de profundidade. O registro demonstra que terremotos podem ocorrer na região, mas não comprova que um fenômeno semelhante tenha causado a destruição descrita no século XVI.
Outra possibilidade envolve um deslizamento submarino no talude continental, região onde o fundo do oceano apresenta aumento acentuado de profundidade após a plataforma continental.
Nesse cenário, uma grande quantidade de sedimentos poderia se deslocar pelo fundo do mar e movimentar a coluna de água, com potencial para gerar ondas em direção ao litoral.
Bonafim explica que a Bacia de Santos possui registros geológicos de antigos movimentos de massa submarinos. Entretanto, não há comprovação de que um deslizamento desse tipo tenha ocorrido entre 1541 e 1542 ou provocado o avanço do mar em São Vicente.
A terceira hipótese apresentada pelo climatologista é a ocorrência de um meteotsunami, fenômeno provocado por perturbações atmosféricas capazes de gerar oscilações anormais no nível do mar.
Diferentemente de um tsunami de origem sísmica, o meteotsunami não depende de terremoto. Ele pode surgir da interação entre variações rápidas da pressão atmosférica, ventos, profundidade da água e características da costa.
Bonafim destaca o chamado efeito Proudman, mecanismo de ressonância que pode ocorrer quando uma perturbação atmosférica se desloca em velocidade próxima à de uma onda no oceano, favorecendo a transferência de energia.
O especialista compara as condições da plataforma continental de São Paulo às de Santa Catarina, onde também existem áreas relativamente rasas. Segundo ele, diferenças na configuração do litoral podem influenciar a formação e a amplificação dessas ondas.
Para Bonafim, o meteotsunami merece investigação como possível explicação para o episódio colonial. Ele ressalta, contudo, que a hipótese não representa uma conclusão científica.
A possibilidade física de ocorrência de um meteotsunami no litoral paulista não significa que exista previsão de um evento desse tipo.
Bonafim observa que as características da plataforma continental e da costa influenciam o comportamento das ondas. No entanto, os registros históricos disponíveis não permitem calcular a frequência com que fenômenos semelhantes poderiam atingir São Vicente ou outras cidades da Baixada Santista.
O climatologista também reconhece que não existem dados meteorológicos suficientes para reconstruir as condições atmosféricas do episódio de 1541.
Assim, embora terremotos submarinos, deslizamentos e perturbações atmosféricas sejam mecanismos capazes de provocar alterações significativas no nível do mar, ainda não é possível determinar qual deles explica o relato histórico de São Vicente.