DESASTRE CLIMÁTICOS

Meteotsunami que atingiu SC pode ocorrer no litoral de SP? Climatologista explica

Fenômeno fez mar avançar de forma repentina em cidades catarinenses; especialista compara episódio com ventania que atingiu Baixada Santista em julho

Imagem mostra os estragos causados por um tsunami meteorológico (meteotsunami) que atingiu a Praia do Cardoso, na região do Farol de Santa Marta, em Laguna (SC), em setembro de 2026
Fenômeno atingiu três cidades, invadiu áreas costeiras e arrastou equipamentos e embarcações - Divulgação/Prefeitura de Laguna (SC)


Um meteotsunami, também chamado de tsunami meteorológico, provocou avanço repentino do mar e deixou estragos no litoral de Santa Catarina, no dia 21 de setembro. O fenômeno atingiu Laguna, Jaguaruna e Imbituba, invadiu áreas costeiras e estabelecimentos, além de arrastar equipamentos e deslocar embarcações. Apesar dos danos materiais, não houve registro de feridos.

A força e a velocidade da água levantaram uma dúvida em quem vive ou frequenta outras regiões costeiras: algo semelhante poderia ocorrer no litoral de São Paulo? Segundo o climatologista Rodolfo Bonafim, a resposta é sim.

Apesar de raro e depender da combinação de diferentes condições atmosféricas e oceânicas, o fenômeno não é exclusivo de Santa Catarina.

"Não foi um tsunami, porque o tsunami real é de origem sísmica", explica Bonafim ao diferenciar os fenômenos. A observação se refere aos tsunamis mais comuns, provocados pelo deslocamento de grande volume de água após terremotos submarinos.

No caso catarinense, a origem foi meteorológica, associada a tempestades, ventos fortes e oscilações rápidas da pressão atmosférica.

O que é um meteotsunami?

O meteotsunami ocorre quando perturbações atmosféricas provocam oscilações na superfície do oceano. Em determinadas condições, essas oscilações podem ser amplificadas e resultar em aumento abrupto do nível do mar quando alcançam áreas costeiras.



Estudo da Epagri sobre episódio ocorrido na mesma Praia do Cardoso, em Laguna, em 2023, explica que linhas de instabilidade podem produzir pulsos de pressão e rajadas de vento. Quando as ondulações geradas no oceano avançam com velocidade e direção próximas às da perturbação atmosférica, ocorre um mecanismo de ressonância capaz de amplificar as ondas.

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Foi justamente uma combinação desse tipo que favoreceu o episódio de setembro. Segundo informações divulgadas após o evento, uma linha de instabilidade atravessou o litoral sul catarinense, acompanhada por alterações de pressão e ventos que chegaram a variar entre 60km e 90km/h.

E o que ocorreu no litoral de SP em julho?

Bonafim chama atenção para uma semelhança com a forte ventania registrada no litoral paulista em 29 de julho de 2026. Naquele dia, uma frente fria encontrou uma massa de ar quente e seco e provocou uma mudança brusca nas condições meteorológicas.



As rajadas chegaram a 111km/h em Itanhaém e a 83,7km/h em medição divulgada pela Defesa Civil para Santos. A ventania derrubou árvores e estruturas, interrompeu travessias de balsas, fechou temporariamente o canal do porto de Santos e provocou uma morte em Santos após a queda de uma árvore.

Apesar da intensidade, o litoral paulista não registrou naquele episódio avanço do mar comparável ao observado em Santa Catarina. Na avaliação de Bonafim, a diferença estaria justamente nas condições necessárias para amplificar a perturbação no oceano.

Em Santa Catarina, segundo o climatologista, a velocidade e a trajetória da linha de instabilidade sobre a plataforma continental favoreceram o acoplamento entre atmosfera e oceano.



O mesmo vento que rolou em Santa Catarina poderia ter levantado um vagalhão na Baixada. Só não levantou porque a perturbação da linha de instabilidade não teve a velocidade sobre a água exatamente igual à velocidade de propagação das ondas rasas no oceano”, explica.

Estudos sobre a Plataforma Continental de São Paulo mostram que a resposta do oceano aos sistemas atmosféricos pode, de fato, sofrer amplificação conforme a velocidade de propagação das frentes.

Pesquisa da Universidade de São Paulo (USP), baseada em simulações numéricas, identificou respostas de ressonância das correntes superficiais da plataforma paulista diante de determinadas velocidades de sistemas frontais.

Litoral de SP está livre de meteotsunami?

Para Bonafim, não é possível considerar o litoral paulista livre desse tipo de fenômeno. Isso não significa, porém, que exista previsão de meteotsunami para a região ou que qualquer episódio de vento forte possa produzir uma onda dessa magnitude.



O meteotsunami é considerado raro e de difícil previsão porque depende de uma combinação específica entre pressão atmosférica, vento, velocidade e direção do sistema meteorológico, profundidade do mar e características da costa. Em Santa Catarina, por exemplo, a Praia do Cardoso já havia registrado outro episódio em novembro de 2023.

Portanto, o litoral de São Paulo e o litoral fluminense, em geral, não estão livres de ocorrer um tsunami meteorológico”, afirma Bonafim.

A comparação com julho serve, segundo o climatologista, para mostrar que condições atmosféricas intensas também podem atingir a costa paulista. A diferença é que, para transformar uma perturbação no oceano em meteotsunami, outros fatores precisam coincidir.

Bonafim conclui que a ocorrência em Santa Catarina não representa alerta de que fenômeno semelhante esteja prestes a atingir São Paulo. Ela demonstra, no entanto, que alterações atmosféricas rápidas podem produzir efeitos incomuns no oceano e reforça a importância do acompanhamento de alertas meteorológicos e marítimos, especialmente durante a passagem de tempestades e frentes frias.



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