Fenômeno aumenta chuvas na primavera, eleva risco de deslizamentos e exige reforço em planos de contingência na Baixada Santista e litoral norte

O chamado Super El Niño já desperta atenção de meteorologistas e autoridades por causa dos possíveis impactos climáticos no litoral de São Paulo nos próximos meses. Embora o fenômeno ainda esteja em fase de fortalecimento na atmosfera, especialistas apontam que os primeiros efeitos mais significativos na Baixada Santista e no litoral norte surgem a partir da segunda quinzena de agosto, com aumento da umidade e da frequência de chuva, principalmente durante a primavera.
O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do oceano Pacífico Equatorial. Esse aquecimento altera a circulação da atmosfera e modifica os padrões de chuva e temperatura em diversas regiões do planeta.
Segundo o primeiro boletim do Painel El Niño 2026/2027, elaborado por órgãos como Cemaden, Inmet e Inpe, há mais de 90% de probabilidade de o fenômeno persistir até o início de 2027, com possibilidade de atingir intensidade muito forte entre a primavera e o verão.
Em entrevista ao Costa Norte, o climatologista Rodolfo Bonafim, da ONG Amigos da Água e do canal Geoastrodicas, explica que os efeitos não surgem imediatamente porque existe um período necessário para que o calor acumulado no Pacífico seja transferido para a atmosfera.
Segundo ele, esse processo, conhecido como acoplamento oceano-atmosfera, ocorre de forma gradual. "Não é como apertar um interruptor. O oceano demora um certo tempo para transferir esse calor para a atmosfera", compara.
Bonafim afirma que alguns sinais do fenômeno já aparecem na Região Sul, onde Santa Catarina e Paraná registram volumes elevados de chuva mesmo durante o inverno. No litoral paulista, entretanto, os impactos mais evidentes devem surgir apenas a partir da segunda metade de agosto.
De acordo com o climatologista, ao contrário do que muitas pessoas imaginam, o primeiro efeito no litoral paulista não será uma onda de calor, mas sim o aumento da umidade e das chuvas durante a primavera. Isso ocorre porque, nesta época do ano, o mar ainda permanece frio e dificulta a chegada do ar quente do interior do estado até a faixa costeira.
O litoral de São Paulo deve registrar chuva acima da média já no final de agosto e durante setembro. O calor do El Niño ficará mais concentrado inicialmente no interior paulista e no Centro-Oeste. Aqui na costa ele chega mais tarde", explica Bonafim.
Somente entre o fim de outubro e novembro, quando a temperatura do oceano Atlântico aumenta, o litoral deve sentir de forma mais intensa o aquecimento provocado pelo fenômeno. A expectativa é de temperaturas acima da média e possibilidade de recordes de calor durante a primavera.
Diante da previsão de um El Niño forte a muito forte, órgãos federais intensificaram as ações preventivas. O Painel El Niño 2026/2027, elaborado por Inpe, Inmet, Cemaden, ANA, SGB e Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, recomenda que estados e municípios revisem planos de contingência, reforcem o monitoramento meteorológico, ampliem os sistemas de alerta e identifiquem previamente áreas mais vulneráveis a enchentes e deslizamentos.
Na Baixada Santista, o Ministério Público de São Paulo, por meio do Grupo de Atuação Especial de Defesa do Meio Ambiente (Gaema), instaurou procedimento para verificar se os nove municípios possuem planos de prevenção e mitigação dos impactos do El Niño.
Entre os questionamentos encaminhados às prefeituras estão a existência de obras de drenagem, contenção de encostas, sistemas de alerta da Defesa Civil e ações integradas com os governos estadual e federal.
No litoral norte, os municípios já contam com estruturas permanentes de monitoramento para eventos climáticos, especialmente durante períodos chuvosos, por meio das Defesas Civis municipais e do acompanhamento dos alertas emitidos pelo estado e pelo Cemaden. Até o momento, porém, não houve anúncio conjunto de um plano específico voltado exclusivamente aos impactos do Super El Niño.