Nova pesquisa do Instituto Butantan revela hábitos alimentares inéditos e reforça o papel ecológico desta serpente ágil que atinge 2,5 metros
Mayumi Kitamura
Publicado em 24/03/2026, às 12h00
A cobra caninana (Spilotes pullatus) ostenta uma das reputações mais injustas da fauna brasileira. Frequentemente confundida com espécies perigosas devido ao seu tamanho imponente e agilidade no bote, ela carrega uma dúvida persistente entre moradores de áreas rurais e urbanas: afinal, a caninana é peçonhenta?
A resposta técnica é direta: não, a caninana não é peçonhenta. Esta serpente pertence à família Colubridae e não possui presas inoculadoras de toxinas. A estratégia de sobrevivência desta espécie baseia-se na força física e na velocidade, utilizando a constrição para imobilizar presas.
O medo humano em relação à caninana surge da tática de intimidação. Ao se sentir acuada, ela infla o pescoço para parecer maior e vibra a ponta da cauda contra o solo ou folhagem, uma artimanha evolutiva que afasta predadores e humanos desavisados. Embora possa desferir botes se for manipulada, sua mordida causa apenas ferimento, sem risco de envenenamento.
As caninanas são predadoras generalistas e extremamente habilidosas tanto no solo quanto no topo das árvores (hábito arborícola). Elas se alimentam de:
Um levantamento internacional publicado em 9 de janeiro de 2026, pelo Instituto Butantan e instituições parceiras da Colômbia e Honduras, trouxe luz sobre a preferência alimentar do gênero Spilotes. A pesquisa, veiculada na revista North-Western Journal of Zoology, documentou pela primeira vez a caninana se alimentando de filhotes de gavião-bombachinha (Harpagus diodon) e de bem-te-vi-do-bico-largo (Megarynchus pitangua).
A pesquisadora Silvia Regina Travaglia Cardoso, do Museu Biológico do Butantan, destaca que os ataques ocorrem diretamente nos ninhos. Mesmo com a resistência dos pais das aves, que atacam a serpente repetidamente para defender a prole, a força da caninana permite que ela mantenha a presa até o consumo. Esse comportamento reforça a importância da espécie no controle biológico em ecossistemas como a Mata Atlântica e a Amazônia.
Um dado alarmante trazido pelos pesquisadores é o desconhecimento populacional sobre o manejo desses animais. Registros de Recepção de Animais do Instituto Butantan indicam a entrega de serpentes em caixas contendo frutas, verduras, macarrão e até ração de cachorro.
Mesmo que não sejam peçonhentas, o Butantan destaca que todas as serpentes são carnívoras e se alimentam de outros animais, como anfíbios, roedores, lagartos, aves e aranhas.
A preservação da caninana é essencial para evitar o desequilíbrio ambiental e a proliferação de pragas, como ratos, em áreas próximas a fragmentos florestais.
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