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Turismo de um dia domina litoral paulista e gera queixa de moradores

Visitantes de menor poder aquisitivo reclamam dos preços elevados, que os impossibilitam pernoitar na região


Reginaldo Pupo
Publicado em 23/01/2026, às 16h18

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Praia Martim de Sá, em Caraguatatuba, lotada
Praia Martim de Sá, em Caraguatatuba, está entre as praias que atraem grande massa de turistas - Reginaldo Pupo


Relação entre moradores do litoral paulista e turistas de um dia nem sempre foi harmoniosa. Relatos de moradores e comerciantes apontam que visitantes que permanecem poucas horas nas cidades costumam gerar impactos.

Entre as queixas, aumento do volume de lixo nas praias e pressão sobre a infraestrutura urbana, sem que isso resulte em consumo proporcional no comércio local.

No início de dezembro, as prefeituras de Caraguatatuba, Ilhabela, São Sebastião e Ubatuba anunciaram estimativas que preveem 7,9 milhões de turistas na região até o Carnaval. 



Expectativa para a Baixada Santista e litoral sul é de 18 milhões, para o mesmo período. Parte deste montante, no entanto, passa apenas um dia em uma ou mais cidades e retorna aos municípios de origem.

O que impede a permanência deste grupo de turistas de menor poder aquisitivo por mais tempo na região, segundo alguns entrevistados, são os preços que, de acordo com eles, são elevados.

Por outro lado, moradores do litoral reclamam que o turismo de um dia deixa como herança muito trânsito, lixo e sobrecarga dos serviços públicos, sem oferecer contrapartida econômica para a região.



O turismo de um dia é fomentado, em parte, por diversas agências de viagens clandestinas, que atuam na capital e interior, e que lotam ônibus, muitas vezes em péssimas condições de uso, com destino ao litoral paulista.

Em rápida pesquisa com grupos de excursão no Facebook, é possível observar grande número de excursões de um dia para destinos localizados, principalmente, no litoral sul, como Praia Grande, Mongaguá e Itanhaém. No litoral norte, o destino mais procurado é Ubatuba.

Os primeiros ônibus começam a chegar já a partir das 4h da madrugada, especialmente aos domingos, quando a maior parte dos turistas não trabalha. Ideia é aproveitar ao máximo o dia, pois o retorno geralmente ocorre às 16h ou 17 horas.



No bagageiro, trazem lanches já prontos, refrigerantes e até marmitas, que são aquecidas em pequenos fogões a gás, semelhantes aos utilizados em barracas de camping.

Pesquisa de hotéis

Fernanda Alves de Alencar, 39, viajou para Ubatuba no  domingo (18) com a família, para levar um sobrinho de oito anos que não conhecia o mar. Ela disse ter optado por contratar excursão de um dia porque saiu mais barato. Segundo Fernanda, a viagem só foi possível ser feita em janeiro, pois é o mês que seus familiares estão em férias.

“Antes da viagem pesquisei preços dos hotéis. Até as pousadinhas que seriam mais baratas, estavam com preços bem elevados. Como somos uma família grande, teríamos que nos hospedar em três quartos, mas não temos condições para isso”, explicou a pedagoga, que havia partido de São Paulo com outros cinco familiares.



Fernanda, então, resolveu ir até Ubatuba em ônibus de excursão, e levou lanches para a família. “Gastamos R$ 180 de supermercado em São Paulo. Se almoçássemos em restaurante de Ubatuba, com certeza a conta seria dez vezes mais”, calculou. “Não tivemos outra alternativa a não ser passar apenas um dia. Mas foi muito proveitoso, todos gostaram e meu sobrinho saiu radiante após conhecer o mar”.

Dormindo no carro

Outro turista que aproveitou as praias de Ubatuba por um dia foi o mecânico Douglas Tavolaro, 51, que levou a família, de carro, para a praia da Sununga. “Se os hotéis não cobrassem tão caro, seria possível a gente ficar mais tempo na cidade. Mas pagar quase R$ 800 só para dormir, aí não dá. Fora os restaurantes, que também cobram muito caro para (oferecer) pouca comida”, reclamou.

O casal de namorados Lucas Figueiredo Júnior, 29, e Victória Santini, 23, resolveu partir de Atibaia, no interior, para passar um dia em Itanhaém, no litoral sul. “A gente namora há cinco anos e, desde então, nunca tínhamos vindo à praia. Resolvemos passar um dia, mas gostamos tanto, que resolvemos dormir no carro para aproveitarmos mais um dia”, relatou Júnior.



Victória conta que ao cair da tarde viu uma moradora lavando o quintal com uma mangueira. “Pedimos a ela que deixasse a gente jogar água doce no corpo, já que estávamos com roupa de banho, para colocarmos uma roupa leve para passear à noite. Pesquisamos alguns hotéis, mas achamos muito caro. Resolvemos dormir no carro mesmo”, disse.

Moradores x turistas de um dia

A relação entre moradores e turistas de um dia nem sempre foi amistosa. Os locais se queixam que os visitantes não gastam na cidade, sobrecarregam o trânsito e, em alguns casos, deixam muito lixo nas praias e nas ruas.

Empresários que vivem do turismo também não veem com bons olhos os visitantes que permanecem poucas horas nas cidades.



Zenaide Uchôa Lazzari, 62, síndica de um prédio em Caraguatatuba, disse ter presenciado um casal trocando fraldas de um bebê na praia Martin de Sá, uma das mais movimentadas. “Eu pensei: ‘eles não vão fazer isso’, mas, fizeram. Deixaram a fralda suja na areia da praia. Eu disse a eles que aquilo não era correto, que tinham que jogar a fralda no lixo. O homem, com cara de poucos amigos e contrariado, voltou, pegou a fralda de volta e colocou em uma lata de lixo que estava a menos de 20 metros dele”.

“O problema desses turistas é que eles deixam muito lixo nas praias. Se eles fazem isso em lugar público, na frente de todo mundo, sem nenhuma educação, imagino a sujeira que deve ser a casa deles. Certamente não devem dar exemplo para seus filhos”, dispara Zenaide.

Donos de pousadas e hotéis também reclamam dos turistas, mas devido à falta de consumo. Em dias de praias lotadas, a taxa de ocupação nem sempre reflete o número de pessoas na cidade. “A praia fica cheia, mas os quartos, vazios. Muita gente vem só passar o dia. E nossa conta no fim do mês não fecha”, relata um empresário do setor hoteleiro, que preferiu não se identificar.

No comércio, o efeito também é desigual. Quiosques e ambulantes concentram boa parte das vendas, enquanto restaurantes e estabelecimentos mais estruturados enfrentam queda no faturamento fora do horário de pico. “O movimento é rápido. A pessoa chega, consome algo básico e vai embora”, afirma um comerciante que possui um quiosque na praia Martim de Sá, em Caraguatatuba.

Trânsito e lixo sobrecarregados

Se o retorno financeiro é limitado, os impactos na infraestrutura são imediatos. O trânsito se torna um dos principais gargalos, especialmente nos acessos às cidades e nos bairros próximos às praias mais movimentadas.

Moradores reclamam de dificuldades para circular e até para realizar atividades básicas nos dias de maior fluxo.



Outro reflexo visível está no aumento do volume de lixo recolhido após os finais de semana da alta temporada. Equipes de limpeza das prefeituras trabalham em ritmo extra para dar conta da demanda, o que eleva os custos operacionais dos municípios.

Serviços de saúde também enfrentam sobrecarga, com aumento no número de atendimentos de emergência durante os períodos de pico, especialmente ligados a acidentes de carros, atropelamentos e afogamentos. 

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