TRAGÉDIA

Queda de avião que matou piloto e deixou dois desaparecidos foi causada por falta de combustível

É o que aponta relatório do Cenipa. Aeronave caiu em Ubatuba, em 2021, e piloto não tinha experiência em voos noturnos, segundo o órgão


Reginaldo Pupo
Publicado em 31/12/2025, às 11h27

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mapa de buscas, Operação Trindade
Buscas foram concentradas entre Ubatuba e Ilhabela, onde foram encontrados objetos pessoais e partes da aeronave - Foto: Divulgação/Corpo de Bombeiros


A aeronave Piper PA-34-220T, modelo Sêneca III, que caiu em Ubatuba, litoral norte de São Paulo, em 24 de novembro de 2021, e que provocou a morte do piloto Gustavo Carneiro e desaparecimento de dois passageiros, sofreu queda por causa de pane seca.

Falta de combustível foi apontada pelo Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) por meio de relatório divulgado na terça-feira (30), como provável causa do acidente.

Segundo o documento, o esgotamento de combustível teria ocorrido por causa de falhas no planejamento do voo e na operação da aeronave.



Avião havia decolado do aeroporto dos Amarais, em Campinas, com destino ao aeroporto de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. O piloto relatou que estava enfrentando problemas nos dois motores. Pouco tempo depois, caiu no mar em uma região de Ubatuba, próxima a Paraty (RJ).

Outros fatores       

Além da pane seca, segundo o Cenipa, a queda também teria sido motivada por outros fatores. Um deles, a mistura inadequada de combustível, conhecida no meio da aviação civil como “rica”. Trata-se da mistura de ar-combustível em motores a pistão, crucial para o funcionamento adequado, controlada pelo piloto por meio de um manete vermelho, no painel.

A mistura “rica” é intencionalmente utilizada em fases específicas do voo, por razões de performance e segurança. Ela pode esvaziar combustível, ou ar, em excesso.



Relatório indicou que o piloto manteve o manete de mistura na posição "rica" em todas as fases do voo. O Cenipa calculou que, com isso, a autonomia do avião caiu para cerca de 2 horas e 35 minutos, tempo quase idêntico ao total voado naquela noite, somando as duas etapas da viagem, o que teria levado à pane seca.

Outro fator apontado pelo relatório do Cenipa indica que Gustavo Carneiro havia declarado autonomia de 3h30, mas não fez o reabastecimento em Campinas. O serviço teria sido oferecido ao piloto, que teria recusado. O planejamento, segundo o órgão, não teria considerado a reserva mínima de 45 minutos exigida por regulamento.

Inexperiência

Um terceiro fator teria contribuído para a queda da aeronave. Segundo o relatório, o piloto não tinha experiência recente em voos noturnos, apesar de possuir todas as licenças necessárias.



Para que ele pudesse pilotar o avião à noite, ele teria, segundo o Cenipa, que ter feito no mínimo três decolagens e pousos nos 90 dias anteriores à viagem, nessas condições.

No relatório consta que Carneiro possuía poucas horas de voo no modelo Sêneca. Além disso, ele nunca teria realizado a rota Campinas-Rio de Janeiro, que exige mais experiência, pois precisa romper a Serra do Mar e voar sobre o litoral.

Mais problemas

Segundo o Cenipa, assim que os motores falharam, o avião perdeu o sistema de vácuo, o que resultou na inutilização de instrumentos essenciais, entre eles, o horizonte artificial fixado no painel.



O relatório sugere que Gustavo Carneiro enfrentou desorientação espacial na escuridão, colidindo contra o mar em alta velocidade e altitude anormal.

A investigação encontrou, na asa resgatada do mar, uma mangueira e uma braçadeira instaladas no sistema de ventilação do tanque de combustível. Segundo o Cenipa, as peças são comuns, ou sejam, não eram originais e voltadas para a aviação.

Como foi a queda

O bimotor Sêneca III, fabricado havia 40 anos, tinha saído às 20h30 do Aeroporto dos Amarais, em Campinas, levando três pessoas. A torre do aeroporto do Rio de Janeiro perdeu o contato com o bimotor por volta das 21h40.



Segundo os bombeiros divulgaram à época, o avião teria caído por volta de 1h40 da madrugada. Viajavam o proprietário do bimotor, José Porfírio Júnior, que durante o voo era o copiloto; Gustavo Carneiro, piloto, e o empresário Sérgio Dias, todos moradores do Rio de Janeiro.

Apenas o corpo de Carneiro foi localizado na tarde do dia seguinte ao acidente. As outras duas vítimas nunca foram encontradas.

Familiares e amigos das vítimas também realizaram buscas por mar e terra, por conta própria, para auxiliar as equipes de resgate. Além de alugar um barco para ajudar nas buscas, a mãe de copiloto desaparecido, Ana Regina Agostinho, chegou a fazer aulas de mergulho para encontrar o filho, de 19 anos.



Buscas após dois anos

No final de 2023, dois anos após o acidente, o CBMERJ (Corpo de Bombeiros Marítimos do Estado do Rio de Janeiro) realizou novas buscas à aeronave para testar dois sonares de última geração, o SSS (Side Scan Sonar), um sonar de varredura lateral, o mais moderno no país em termos de escaneamento subaquático.

Após a conclusão das instruções teóricas, a equipe especializada do CBMERJ realizou planejamento estratégico para treinamento de busca subaquática, em local em que tivesse ocorrido evento real de desaparecimento de vítimas, como foi o caso do Seneca.

Segundo o CBMERJ, os sonares foram utilizados durante duas semanas na Região da Costa Verde, entre Paraty e Ubatuba (SP). Os militares realizaram treinamento prático, por meio de  nova varredura na região, revisitando pontos plotados na busca anterior e analisando novas informações.



Ainda de acordo com a corporação, as buscas se concentraram no litoral do município de Paraty, numa área de cerca de 10 mil quilômetros quadrados, e contaram com quatro embarcações de resgate e uma aeronave.

Cerca de 30 militares atuaram por dia no treinamento, incluindo mergulhadores de busca e resgate, operadores de embarcações de resgate, além dos operadores dos sonares. Mas nada foi encontrado.

A região onde o avião bimotor caiu é marcada por histórico de acidentes envolvendo aeronaves. A faixa que se estende de Ubatuba até Angra dos Reis, passando por Paraty, teve ao menos sete quedas de aeronaves nos últimos 12 anos. Os dados são do Cenipa. Em seis dessas ocorrências, houve 15 mortes.



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