Estelionatário inventa história comovente para divulgar rifa em sites de notícias; golpista diz estar em Bertioga, no litoral de SP

Imagens de uma criança acamada, com câncer, em um leito de hospital, laudos médicos e um pai solo desesperado por ajuda financeira, para arcar com o tratamento. É assim que um estelionatário se apresenta a portais de notícias de todo o Brasil e pede que a história, acompanhada de dados bancários, seja divulgada.
O objetivo é arrecadar dinheiro, por meio da comoção dos leitores. No litoral paulista, em pouco mais de um ano, o golpista entrou em contato com o portal Costa Norte por duas vezes, com o mesmo modelo de história, mas residência, laudos médicos, crianças e pais diferentes; são ao menos três famílias. O que se mantém é o nome do suposto pai, Pedro Henrique Silva Castro, e os dados bancários para transferência.
Com a mentira quase convincente e os mesmos dados bancários, o golpista já enganou vários sites de notícias. Em breve pesquisa na internet, é possível ver que o caso foi publicado em, ao menos, dez portais em diferentes estados, entre agosto de 2023 e agosto de 2024. Em alguns, a reportagem foi retirada do ar. Mas, na maioria permanece publicada; em um site de Santa Catarina, o conteúdo foi publicado na manhã de sexta-feira (6), e o golpista se apresentou como morador de Jaraguá do Sul. O conteúdo foi removido horas depois.

Em abril deste ano, um site de Minas Gerais informou que “caiu na lábia” de Pedro e publicou o pedido de ajuda, mas descobriu que tudo não passava de um golpe e excluiu a notícia. Mas, a publicação está em outros sites, a exemplo do g1, um dos maiores sites de notícias do país. Na publicação, Pedro Henrique Silva Castro, aparece como morador no interior de São Paulo (Sorocaba). A reportagem segue no ar com a história, mas não há dados bancários para doação.
Em Bertioga
Dia 5 deste mês, o golpista entrou em contato com a nossa redação e se apresentou como Pedro Henrique, morador do bairro Vista Linda, em Bertioga. Na mensagem, pediu que a história do filho Gabriel, com uma doença grave, fosse publicada. Como o caso é recorrente, pois já houve um mesmo modelo de contato, no ano passado, a equipe iniciou o diálogo, para obter mais informações.

Em mensagens via WhatsApp, ele contou que estava arrecadando dinheiro para tratamento do suposto filho que, segundo ele, foi diagnosticado com tumor meningioma, um câncer no cérebro, e precisa de um medicamento que custa cerca de R$ 18 mil. O sujeito, contudo, já aplicou golpe semelhante até fora do estado de São Paulo, como Minas Gerais, Bahia e Santa Catarina, e, em cada portal, dizia que era de uma cidade diferente.
Para convencer as vítimas, o estelionatário conta que é pai solo, que a sua mulher teria abandonado a família após descobrir o diagnóstico de Gabriel, e que ele precisou largar o emprego para se dedicar à criança. Além disso, o golpista mostra um laudo médico do Hospital de Amor, antigo Hospital de Câncer de Barretos, e uma ressonância da cabeça da criança, atestando a gravidade da doença.
“Hoje venho aqui compartilhar uma situação muito difícil que estou enfrentando como pai. Sou o Pedro, pai do Gabriel, um príncipe lindo que foi diagnosticado com Tumor Meningioma) câncer no cérebro, e está precisando de ajuda. Infelizmente, a mãe do Gabriel abandonou ele quando descobriu do câncer dele, e agora somos apenas nós 2”, dizia o início do texto.
No entanto, ao verificar a autenticidade dos documentos com o hospital, a reportagem constatou que os papéis eram falsificados. Em nota oficial, o hospital referência em tratamento de câncer informou: “Após checar com a equipe do Hospital de Amor Amazônia as imagens enviadas, a equipe não reconhece a autenticidade do documento nos termos que foi apresentado”.
Em 2023, o mesmo homem entrou em contato com a redação, naquela ocasião contou uma história semelhante, mas, disse que morava no bairro Indaiá, usou imagens de outro pai com uma menina com câncer, e a narrativa da vez era de que a suposta mãe tinha perdido a vida para a covid-19 e precisava de dinheiro para o tratamento da suposta filha.

Naquela ocasião, a história chegou a ser publicada pelo portal, mas foi rapidamente removida, após denúncias de seguidores que identificaram a fraude. Embora os personagens tenham mudado de um ano para cá, o golpista usa a mesma chave pix que é atribuída a Pedro Henrique Silva Castro, CPF: 076.552.951-31.
Procurada pela reportagem, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) informou que até o momento, não há registros de boletim de ocorrência em nome do estelionatário, dos CPFs que recebem as transferências bancárias, nem das vítimas cujas imagens foram utilizadas nos documentos falsificados.
A pasta reforça a importância de se registrar o boletim de ocorrência, especialmente em crimes como o estelionato, que se tornaram comuns no ambiente virtual e destacou, ainda, que o estado de São Paulo conta com a Divisão de Crimes Cibernéticos (Dcciber), criada para investigar e combater crimes patrimoniais praticados por meios eletrônicos.
Para evitar golpes semelhantes, a Polícia Civil orienta a população a estar sempre atenta e desconfiar de histórias comoventes divulgadas na internet, especialmente aquelas que envolvem doações financeiras. É recomendável verificar a autenticidade das campanhas diretamente com as instituições envolvidas e nunca realizar transferências sem garantir a veracidade dos pedidos.
Além disso, foi divulgada uma cartilha de prevenção contra golpes, com dicas que incluem o fortalecimento de senhas, o cuidado ao compartilhar informações pessoais nas redes sociais, e a verificação de links e e-mails suspeitos. Essas medidas são essenciais para evitar fraudes no ambiente virtual.