Animal inofensivo, que se locomove tanto para frente quanto para trás, guia pesquisa para a criação de robôs e avanços na medicina

A cobra-de-duas-cabeças passa a maior parte da vida debaixo da terra e utiliza o próprio crânio como ferramenta para construir galerias. Esse comportamento incomum chamou a atenção da ciência e transformou o animal no foco de um estudo inédito, que une o Brasil a pesquisadores do Reino Unido, Bélgica e Dinamarca.
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O réptil, que pertence ao grupo das anfisbenas, recebe o apelido popular porque a ponta de sua cauda se assemelha à forma da cabeça.Essa característica permite que o bicho se desloque tanto para frente quanto para trás nos túneis subterrâneos. Apesar de inofensivos, muitos morrem atropelados ou abatidos por pessoas que os confundem com serpentes perigosas.
A equipe brasileira da USP de Ribeirão Preto testa a força de mordida e de enterramento em espécimes vivos, além de mapear o DNA do animal. O pesquisador Vinicius Anelli explicou ao Jornal da USP que o corpo alongado e sem membros facilita a vida debaixo da terra. Durante a locomoção, a musculatura se projeta e as escamas se movimentam em seguida, em um efeito de serpentina.
Acompanhar a rotina debaixo do solo impõe dificuldades extremas para os biólogos, mas as técnicas atuais de imagem permitem observar as fibras e a arquitetura dos ossos em nanoescala. Portanto, o consórcio internacional consegue entender exatamente como a cabeça resiste à pressão de perfurar solos rígidos.
Os dados extraídos da anatomia da cobra de duas cabeças servem para a biologia e inspiram inovações tecnológicas. O projeto fornece base para a criação de robôs escavadores úteis na engenharia civil e em resgates, além de revelar padrões genéticos importantes para o desenvolvimento de tecidos na área médica.
* Conteúdo escrito com base na matéria de Rose Talamone, no Jornal da USP, que aborda o estudo 'Sistema musculoesquelético de animais escavadores que começam pela cabeça: uma abordagem interdisciplinar'.