Pesquisa conduzida por biólogos e monitores ambientais acompanha a restinga e alerta para a vulnerabilidade frente ao aquecimento global

Um trabalho minucioso de monitoramento ambiental tem revelado a riqueza oculta da fauna de Bertioga. Iniciado há dois anos, levantamento inédito já identificou cerca de 40 espécies de anfíbios (sapos, rãs e pererecas) na cidade, com foco nas áreas de floresta de restinga.
A pesquisa concentra-se inicialmente na região de Guaratuba, abrangendo áreas do Parque Estadual da Restinga de Bertioga (Perb) e do Parque Estadual Serra do Mar (Pesm).
O trabalho envolve equipe multidisciplinar, com a condução dos biólogos Marcelo Bokermann e Celina Keiko Yoshihara, dos monitores ambientais Miguel Oliveira de Souza e Carlos Eduardo Cabral Clementi, além da colaboração do ornitólogo Fábio Schunk e do herpetólogo Léo Malagoli, do Sesc Pantanal.
O projeto ganhou ainda mais força após curso de capacitação que envolveu a comunidade e monitores locais, criando uma rede de "ciência cidadã", elaborada pelos biólogos e agentes de educação ambiental Sarah Pinheiro (Sesc Piracicaba) e Luis Felipe Natalio (Sesc Bertioga).
Atualmente, cerca de 25 pessoas auxiliam no monitoramento participativo, enviando fotos, vídeos e áudios dos anuros encontrados nas trilhas para identificação e mapeamento.
"Com o conhecimento das espécies na cidade, a distribuição também dessas espécies, a gente consegue ajudar na conservação de tais espécies na região, assim como a biodiversidade geral da cidade de Bertioga", destaca Bokermann.
Sarah Pinheiro avalia: "O envolvimento da população caiçara e de monitores ambientais na região é essencial para promovermos e fortalecermos a ciência cidadã, que é extremamente importante na coleta de dados e acompanhamento da qualidade ambiental".
O levantamento ocorre em um momento crítico. Estudos recentes indicam que os anfíbios são o grupo de vertebrados mais ameaçado pelas mudanças climáticas.
Pesquisa publicada na revista Nature Climate Change, com participação de cientistas da USP e da Unesp, revela que o aumento da aridez e dos períodos de seca pode fazer com que esses animais percam água até duas vezes mais rápido.
"As mudanças climáticas alteram a dinâmica fisiológica das espécies, já que são animais que respiram pela pele e podem desidratar rapidamente frente a ondas de calor intensas e prolongadas", alerta Sarah. Ela explica que, em períodos de estiagem prolongada, muitas espécies ficam "entocadas" no solo, mas se a seca persistir, a umidade desses refúgios pode não ser suficiente para garantir a sobrevivência.
Os dados coletados em Bertioga serão transformados em artigos científicos e material didático. Além disso, o grupo já estrutura os próximos passos para envolver a sociedade.
O grupo de pesquisa e colaboradores pretendem promover uma série de atividades educativas no mês de março de 2026, celebrando o dia 20 de março, considerado o Dia Internacional dos Anfíbios.
"Conhecendo o que existe, a gente consegue traçar metas e planos para melhorar as condições de vida desses seres no nosso município", conclui Bokermann.