Estudos revelam que diversas praias do litoral paulista têm alta concentração de lágrimas de sereia; humanos e seres marinhos estão em risco

Elas são pequenas, de várias cores, parecem inofensivas e, na maioria das vezes, nem são notadas. Transportadas por milhares de quilômetros em navios cargueiros têm gerado imensa preocupação entre pesquisadores e ambientalistas. Estamos falando dos “nibs” ou “pellets”, também conhecidos como "lágrimas de sereia", presentes em inúmeras praias ao redor do mundo.
Confundidas como parte da areia da praia, as lágrimas são pequenas esferas de resina sintética, em geral de polipropileno ou polietileno, utilizadas como matéria-prima de produtos plásticos.
Quando chegam às fábricas, as lágrimas são transformadas em copos, garrafas, baldes, mamadeiras, canetas, e diversos outros produtos que estão no nosso cotidiano. O problema começa justamente quando elas não chegam ao destino, e acabam caindo no mar, na maioria das vezes por falhas na armazenagem.
O Costa Norte traz informações explicadas por pesquisadores referência no assunto; um deles traz um dado alarmante: as lágrimas de sereia estão presentes em todos os oceanos do mundo. No Brasil, não há comparação: a maior concentração está no litoral de São Paulo.
As lágrimas de sereia representam sérios riscos à saúde humana e dos animais marinhos, que as confundem com alimento, comem, e podem até morrer. O ser humano entra nesta cadeia no momento em que come estes seres marinhos.

Para explicar melhor, a reportagem entrou em contato com Alexander Turra, do Instituto Oceanográfico da USP (IO-USP). Ele é claro: “A ingestão de microplásticos pode levar esses organismos [marinhos] a óbito ou a um processo crônico de inanição, comprometendo o crescimento, a sobrevivência e a reprodução. Os microplásticos podem ser assimilados e se instalar em tecidos, como músculos de peixes, os quais ingerimos. Os microplásticos podem causar reações inflamatórias nos organismos marinhos e em nós”.
Um relatório da agência ambiental norte-americana revelou que os pellets já estão presentes nas areias das praias de todos os oceanos, sem exceção, segundo o oceanógrafo Frederico Pereira Brandini, da IO-USP.
As pesquisas também revelaram que a contaminação se dá ao longo do processo industrial de peletização, armazenagem, transporte e processamento do material. O oceanógrafo explica: “Vamos supor que haja uma perda mínima, irrisória, de 0,001% dessa matéria durante o transporte terrestre e marítimo. Isso representa 10 bilhões de nibs, que podem chegar à zona costeira. Mesmo que minhas estimativas sejam exageradas, e que o número seja muito menor, os nibs duram de 1 a mais de 10 anos no mar. E é aí que vem o pior”.
No mar, essas bolinhas podem ser quase imperceptíveis ao olho humano, mas são facilmente detectadas pelos animais, como tartarugas, peixes e aves, que as confundem com comida boiando.

Brandini dá detalhes ainda mais trágicos sobre o impacto das lágrimas de sereia: “Pesquisas indicam que pelo menos 80 espécies de aves marinhas ingerem nibs, principalmente o grupo que inclui o albatroz e o petrel. Os nibs podem permanecer no trato digestivo das aves entre 10 a 15 meses, ocupando espaço, diminuindo a eficiência alimentar e a absorção de nutrientes, causando enfraquecimento e morte dos animais”.
Mas e na sua praia, tem lágrimas de sereia?
Uma das maiores pesquisas do mundo sobre as pellets é feita pelo International Pellet Watch (IPW), uma campanha da Universidade de Agricultura e Tecnologia de Tóquio, no Japão. Em seu site, a IPW disponibiliza um mapa atualizado em maio de 2025, que mostra os locais com maior presença das lágrimas de sereia. Confira:

Um dos dados mais interessantes observados na pesquisa é que, quanto mais perto do Porto de Santos, maior é a concentração de pellets. Um estudo da USP, publicado em 2020 e coordenado por Alexander Turra, já confirmava que o porto é uma grande fonte das nibs. “Em geral, as menores densidades de pellets de plástico foram observadas durante a estação seca, enquanto as estimativas mais altas foram observadas durante a estação chuvosa. Houve também uma tendência geral de diminuição de entradas com o aumento da distância do Porto de Santos”, diz parte do estudo.
No mapa da IPW também é possível observar uma escala mundial. Veja:

A gravidade da poluição está representada nos tons azul (não poluído); verde (levemente poluído); amarelo (moderadamente poluído); laranja (altamente poluído); e vermelho (extremamente poluído).
Na Nova Zelândia, por exemplo, existem depósitos com mais de 100 mil pellets por metro linear de praia. No litoral da Bahia, um monitoramento indicou a presença de embalagens plásticas oriundas de mais de 60 países, principalmente dos Estados Unidos, Itália e África do Sul.
Não são apenas os pellets que infestam os oceanos e praias do planeta. Segundo o Programa Ambiental das Nações Unidas, existem 46 mil fragmentos de plástico em cada 2,5 quilômetros quadrados da superfície dos oceanos. Isso significa que esses resíduos já respondem por 70% da poluição marinha.
Estima-se que 267 espécies, principalmente pássaros e mamíferos marinhos, engulam resíduos plásticos ou os levem para seus filhotes julgando tratar-se de alimento. Há seis anos, uma baleia Minke foi encontrada morta na Normandia, no norte da França, com 800 quilos de sacolas plásticas no estômago.
Uma das pesquisas mais assustadoras relacionadas ao assunto foi divulgada em 2016 pelo Fórum Econômico Mundial de Davos: em 2050 haverá mais plástico do que peixe nos oceanos.
Mais do que nunca, é tempo de conscientização e apoio; e você pode fazer parte disso. A campanha IPW recebe amostras de pellets de todo o mundo. Confira um passo-a-passo de como enviar amostras para pesquisa.
Quatro amostras de Santos foram recebidas pela IPW em maio. Segundo o pesquisador Gabriel Izar, da Universidade Estadual Paulista de São Vicente, os pellets são da universidade. “[Trata-se de] um projeto de parceria de longo prazo que temos com eles, para monitorar os poluentes químicos adsorvidos nos pellets de praia em um recorte de 15 anos (desde 2010)”, explica.
Para mais informações, tanto sobre a campanha, quanto sobre os pellets, acesse o site da International Pellet Watch (IPW): http://pelletwatch.org/.