Para burlar a lei, que proíbe som em qualquer volume dentro de carros, jovens usam caixas de som na areia das praias

Os “pancadões”, que chegaram às areias do litoral norte em 2015, continuam tirando o sossego de banhistas nas praias da região. Antes restritos a postos de combustíveis, praças e avenidas movimentadas, onde potentes alto-falantes instalados em carros davam o tom da festa, os hits do funk dominam as praias em caixas de som portáteis.
A estratégia burla o Código de Trânsito Brasileiro, que multa proprietários de carros com som alto quando é possível ouvi-lo do lado externo, independentemente do volume. Em caso de flagrante, o motorista é autuado por infração grave. Além da multa de R$ 195,23, o motorista também somará cinco pontos na CNH (carteira nacional de habilitação).
A reportagem percorreu trechos de areia com alta concentração de turistas em Caraguatatuba, Ilhabela e São Sebastião e observou que a prática é bastante comum para evitar a multa e até apreensão de veículos.
Na praia Martim de Sá, a mais badalada de Caraguatatuba, os banhistas curtiam músicas na areia. Uma das caixas de som funcionava conectada à bateria de um carro estacionado na rua. As músicas tocadas ali concorriam com outras que eram executadas em um quiosque a menos de 20 metros de distância.
A cabeleireira Ana Julia Martins, de 28 anos, que mora na cidade, não gostou dos vizinhos de areia bagunceiros. “Estava deitada na areia, dormindo, e acordei quando chegaram esses turistas com som alto, tocando funk. Ninguém é obrigado a ficar ouvindo músicas que a gente não gosta, ainda mais com essas letras apelativas de sexo”, disse Ana Julia. Incomodada com a algazarra, retirou seus pertences e foi para outro ponto da praia com sua filha de dois anos.
Em Maresias, praia de São Sebastião, a reportagem contou nove grupos com os equipamentos em toda sua extensão. A comissária de bordo Beatriz Guajardo, de 30 anos, que estava com um grupo de amigos de Botucatu, no interior paulista, admitiu que a manobra tinha o objetivo de driblar a lei.
“Fiquei sabendo que não pode som alto no carro e a multa é pesada, então, peguei uma caixa de som emprestada do meu primo e trouxe para animar a galera”. Segundo ela, porém, não houve reclamação dos banhistas. “Na verdade, até chegaram junto da gente para curtir as músicas”, afirmou.
A menos de 150 metros dali, outro grupo tinha uma caixa de som. Embalados por uma música de Bob Marley, três dos quatro rapazes também fumavam maconha. “Aqui é terra de ninguém. Nada é feito. Somos obrigados a ficar ouvindo músicas de péssimo gosto e ainda sentir esse cheiro horrível”, disse o aposentado João Carlos Abdizel, de 71 anos, que caminhava com o neto de 11 pela areia, na frente dos jovens.
Para escapar da lei, há quem deixe o carro dentro da garagem e só aumenta o volume. Foi o que fez um estagiário de advocacia, que pediu para não ser identificado. “Meu carro não está na rua, portanto, não fere a lei”, disse. O imóvel fica na frente da praia de Massaguaçu, em Caraguatatuba.
O futuro profissional da área de advocacia, no entanto, cometeu outra infração, prevista na Lei de Contravenções Penais, já que não existe a “lei de perturbação do sossego”. Neste caso, o infrator pode pegar prisão de três meses e, em muitos casos, multa. Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, a perturbação do sossego pode ser denunciada a qualquer hora do dia ou da noite e não somente após as 22 horas.
A moda de ouvir som em caixas portáteis ganhou adeptos a partir do verão de 2015, após o então governador Geraldo Alckmin sancionar a lei que veta o pancadão em todo o estado. Mas nem todo mundo abusa. O empresário Paulo Caputti, de 51 anos, por exemplo, disse ter o bom senso de deixar o som em baixo volume, para não incomodar os banhistas que estão nas proximidades.
Morador da capital, ele costuma ir à praia munido de um notebook e, por meio de um programa de DJ, escolhe as músicas que são executadas na caixa portátil. “Tem música aqui para o dia inteiro”, disse Caputti. “Praia sem música não é praia”, justificou sua mulher Sarita Caputti, de 55 anos, que trabalha como secretária.
“Outros turistas que estavam ao nosso lado, da cidade de Paulínia, e tinham um violão, acabaram se juntando a nós e fizemos um som, com direito a cantoria com microfone”, contou ela. Para o funcionamento do notebook, o casal usa duas extensões, de 20 e 30 metros, conectadas à energia elétrica de sua casa, na frente da praia.
Desde 2021, o uso de equipamentos sonoros em alto volume está proibido em praias de São Sebastião. Após editar decreto a respeito, a prefeitura treinou agentes de posturas e fiscais ambientais para atuar na fiscalização. Os valores das multas variam de R$ 5.490,00 a R$ 10.980,00.
Em Caraguatatuba, a multa para os infratores é de R$ 2.075,00 para qualquer objeto gerador e propagador de som excessivo e perturbador do sossego alheio e do bem-estar público. Além disso, uma legislação municipal, assinada em 2022, prevê a apreensão e remoção do equipamento sonoro.
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Em Ubatuba uma lei municipal de 2020 proíbe ruídos, vibrações, sons excessivos e incômodos de qualquer natureza, tanto na faixa de areia quanto em veículos. Além da apreensão dos equipamentos, a lei prevê multa de R$ 5 mil.
Já em Ilhabela, além da proibição de som alto, a lei municipal pune até mesmo algazarras que perturbem a vizinhança. Quem desrespeitar a norma está sujeito a multa no valor de R$ 3.072,96, além da apreensão e remoção do veículo, caixas de som ou qualquer outro equipamento sonoro.