Mais do que hospedagem convencional, o sítio é um ecolodge familiar que combina turismo sustentável e práticas de bem-estar

Imagina ficar hospedado por alguns dias desconectado do mundo digital, das poluições sonora, visual e atmosférica, em um sítio em meio à Mata Atlântica e a apenas 3km da praia. O sítio Bacarirá, em São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, oferece essas e muitas outras experiências de hospedagem, diferentes de um hotel tradicional. Com foco em sustentabilidade e conscientização ambiental, o espaço proporciona aos hóspedes desconexão do mundo digital e reconexão com a natureza.
A experiência, de imediato, já se mostra positiva, pois, ao deixar a movimentada rodovia Rio-Santos, o trecho até o local, de pouco mais de 2km, substitui a vida agitada do bairro Camburi pelo sossego da mata. O nome 'Bacarirá' homenageia o riacho que atravessa o sítio, e que, em tupi, significa 'rio do peixe pequeno'; sua nascente fica nas dependências da propriedade. A história do local remonta à década de 1970, quando o alemão Friedrich Widmer, agrônomo e ecólogo, adquiriu o terreno junto com Regina Helena Valentim, produtora cultural e ambientalista.
Regina conta que, nos anos 1990, o casal fundou o Espaço Cultural Bacarirá, um galpão que mesclava arquitetura industrial e caiçara, para oferecer cursos gratuitos de capoeira, reciclagem, culinária e artesanato, além eventos culturais e artísticos com a participação de músicos, fotógrafos e atores renomados. Por mais de uma década, o endereço desempenhou papel crucial na comunidade local, até encerrar suas atividades por falta de apoio.
Em 2000, Regina e Frederico construíram o Albergue da Juventude Camburi, opção econômica de hospedagem para turistas que desejavam estar em contato direto com a Mata Atlântica. O albergue funcionou por 10 anos sob a administração dos filhos do casal e, em 2015, foi rebatizado como Casa Bacarirá, com novo conceito voltado a práticas de autoconhecimento e bem-estar.

A casa mantém a ideia original de Regina e Frederico, ao mesmo tempo que introduz benefícios para atender às novas demandas de um turismo mais consciente e voltado à preservação ambiental. A proposta é promover o bem-estar de dentro para fora, incentivar uma reconexão profunda com a natureza e com a essência humana. A estrutura se assemelha ao icônico museu do Masp, localizado na capital paulista; cores, móveis, quadros e a cozinha de época fazem com que a experiência ganhe vida em meio à mata.
Hoje, o sítio é um ecolodge (tipo de acomodação projetada em harmonia com a natureza e desenvolvida para ser sustentável e gerar o mínimo de impacto ao meio ambiente) voltado para o bem-estar; oferece retiros que integram práticas como ioga, meditação e banho de floresta. A arquitetura da casa ‘moderna à moda antiga’, tem nove quartos e áreas coletivas, e proporciona experiência imersiva que favorece a interação entre os hóspedes e a natureza. A preservação ambiental é prioridade, com coleta seletiva de lixo, compostagem e uso de energia solar.
A filha mais velha do casal, Sofia Widmer, formada em gestão ambiental, assumiu a responsabilidade de manter o legado dos pais. "Nossa proposta é promover a conscientização ambiental de dentro, promovendo uma hospedagem holística e ecológica, com retiros terapêuticos, cozinha vegana, atividades culturais e artísticas e visitas guiadas às trilhas e riachos da propriedade”, afirma.
A anfitriã conta que oferece atividades terapêuticas, como programas de alimentação consciente, banho de floresta, que são meditações e trilhas silenciosas, além de retiros holísticos voltados ao bem-estar e à ecologia. De acordo com Sofia, o sítio Bacarirá também planeja ampliar parcerias com escolas e universidades da região, com foco de transformar o local em centro de pesquisa e divulgação da Mata Atlântica. "Queremos expandir essas práticas não só para os hóspedes, mas também para os munícipes de São Sebastião e cidades vizinhas, visitantes de escolas e universidades", enfatizou.

Além de ser espaço ecológico preservado, a Casa Bacarirá abriga uma imponente Sapopemba de aproximadamente 400 anos, considerada símbolo de resistência da Mata Atlântica. Com cerca de 40 metros de altura e raízes robustas, a árvore é um verdadeiro monumento natural. Ela é admirada por sua beleza e importância ecológica, pois fornece água e nutrientes para a vegetação do entorno.
A visão ecológica dos proprietários da casa envolveu preservar a sucessão natural da floresta, em vez de desmatar o terreno para transformá-lo em áreas ajardinadas. Regina contou que, ao longo dos anos, ela e o marido selecionaram cuidadosamente árvores nativas da Mata Atlântica para plantar. “Nós criamos um bosque atrás da casa que reflete uma ocupação serena e harmônica com a natureza. A manutenção mínima, como a remoção de folhas secas, garante que a floresta respire e se mantenha saudável em nosso sítio”, disse.
No encerramento das comemorações do Dia da Árvore, em 21 de setembro, mais de 20 crianças da escola municipal Sebastiana Costa Bittencourt, que participam de atividades ambientais do Coletivo ReUNA, realizaram abraço coletivo simbólico em torno da sapopemba, para destacar a importância das árvores na preservação da atmosfera. Foram necessárias 23 pessoas para cercar a árvore gigante da Mata Atlântica.
O sítio também promove o Projeto Cozinha Política, que propõe reflexão sobre a alimentação consciente e amplia o entendimento da relação entre comida e meio ambiente. Regina, criadora do projeto, e seus colaboradores ensinam o preparo de pratos com ingredientes naturais, como a biomassa de banana verde e as pancs (plantas alimentícias não convencionais).
Ainda durante as atividades do Dia da Árvore, as crianças participaram de oficina culinária da Cozinha Política, onde aprenderam a fazer nhoque de batata-doce e foram apresentadas a flores comestíveis. "É uma experiência educativa que desperta nas crianças o respeito pela natureza e pelo que consumimos", explica Regina.
A artista visual Jéssica Fertonani Cooke, cofundadora ao lado de Regina do Projeto Cozinha Política, contribui com sua visão artística e contou sobre a aproximação com o sítio Bacarirá. "Eu estava em busca de liberdade e natureza, e me encontrei aqui", relembrou. Ela ressaltou que a Cozinha Política é um espaço de desconexão do mundo virtual, um lugar no qual as pessoas podem se reconectar com os alimentos e o meio ambiente.
A ideia de manter a sustentabilidade como pilar central é evidente em cada aspecto do sítio Bacarirá. Fertonani ressalta que a produção de bananas, usada no café da manhã vegano, é um exemplo prático dessa filosofia, assim como o sistema de compostagem que transforma resíduos orgânicos em adubo para a horta. “Estamos sempre buscando maneiras de reduzir nosso impacto e contribuir para a preservação da mata”, disse.
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Com trilhas ecológicas, retiros de bem-estar e compromisso sólido com a sustentabilidade, o sítio Bacarirá se estabelece como modelo de turismo responsável. Para quem deseja se desconectar do mundo digital e mergulhar em uma experiência de reconexão com a natureza, na próxima temporada de verão, o ecolodge é uma oportunidade de viver o que a Mata Atlântica tem de mais precioso. Regina enfatiza: "Aqui, promovemos a conscientização ambiental em todas as nossas ações. Cada detalhe da nossa casa é pensado para integrar o homem à natureza de forma harmoniosa e sustentável".