Paulistas que pediam a saída de Getúlio Vargas do poder, tiveram aeroporto construído a mando do próprio presidente em terra 'inimiga'

Um dos destinos turísticos mais conhecidos do Brasil, Ilhabela, no litoral norte paulista, já abrigou um pequeno aeroporto, no século passado, de chão batido, quando a cidade ainda se chamava Villa Bella, durante a ditadura de Getúlio Vargas. O aeródromo foi usado como base secreta da Marinha, durante a Revolução Constitucionalista de 1932, movimento que exigia a saída de Vargas do poder.
Ilhabela foi escolhida pelo governo federal devido à sua posição geográfica, com vista privilegiada do continente. Os aviões de pequeno porte realizavam reconhecimento das áreas tomadas pelos paulistas, como aconteceu com a entrada do porto de Santos.
O Campo de Aviação, como era chamado o aeródromo à época, não estava nos planos da Marinha. Justamente por causa da falta de um aeroporto na então Villa Bella, a corporação havia enviado três hidroaviões, a pedido de Vargas, que ficavam “estacionados” em flutuantes, sobre o mar, em frente à praia do Pequeá, voltados para o canal de São Sebastião e para o continente. As aeronaves eram utilizadas para patrulhar toda a extensão do litoral norte.
No entanto, a Marinha decidiu enviar aeronaves mais modernas, mas elas eram muito pesadas e os flutuantes não suportavam o peso. Além disso, diferentemente dos hidroaviões (que podem pousar e decolar da água), os modernos aviões eram equipados com trem de pouso, o que inviabilizaria seu uso no mar.
Para poder abrigar os aviões que haviam sido incorporados à esquadrilha, o governo Getúlio Vargas decidiu alargar uma área localizada em frente à praia do Pequeá, em terra “inimiga”, criando uma pista de terra para que eles pudessem pousar. Esse aeródromo foi batizado de Campo de Aviação.
O aeródromo recebia vários modelos da Marinha, como o Havilland DH.60 Moth (Mariposa) e os hidroaviões Savoia-Marchetti S.55, que saíam em missões de bombardeios durante a Revolução. De acordo com registros da época, algumas dessas aeronaves acabaram afundando no canal de São Sebastião. Não se sabe se por falhas técnicas, humanas ou se foram abatidas.
Com o fim da Revolução, a pista de pouso ficou esquecida e encoberta pelo matagal, com o passar do tempo. Apesar de ser abandonada pela Marinha, um empresário a utilizava para pousar seu avião quando chegava à ilha para visitar suas fazendas.
A área da praia do Pequeá ganhou nova vida, 16 anos depois, em 1948, quando o então prefeito da agora Ilhabela, Benedito Carlos de Oliveira, iniciou um projeto de urbanização do local.
Com o passar do tempo, a prefeitura promoveu diversos eventos como shows, Carnaval, aniversário da cidade, Festival do Camarão, entre outras atividades. A praia se transformou em bairro e o Pequeá, atualmente, é uma vila residencial, com casas de padrão elevado, com complexo esportivo, praça, parquinhos infantis, ciclovias e um píer de atracação para barcos.
Todos os eventos que eram realizados por ali foram transferidos para outros lugares, devido a uma ação judicial movida pelos moradores, que se queixavam do barulho gerado pelos shows e festas.
A Revolução Constitucionalista de 1932 foi um levante armado liderado pelo estado de São Paulo, contra o governo ditatorial de Getúlio Vargas, buscando a convocação de uma Assembleia Constituinte e o fim da centralização do poder.
O conflito armado, que durou 85 dias, começou em 9 de julho de 1932 e terminou com a derrota dos paulistas, mas uma nova Constituição foi promulgada em 1934, atendendo a algumas exigências do movimento, considerado um marco na memória paulista, e que simboliza a busca pela consolidação da democracia.
As elites paulistas, que haviam apoiado Vargas, na Revolução de 1930, sentiram-se prejudicadas com a perda de sua influência política e com a não realização das reformas prometidas. Os constitucionalistas exigiam a elaboração de uma nova Constituição e o fim do governo provisório de Vargas.
O estopim para o movimento foi a repressão policial a um ato político, em 23 de maio de 1932, que resultou na morte dos estudantes Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo (M.M.D.C.), tornando-se um símbolo da revolta.
O levante começou em 9 de julho de 1932, com a formação de um governo provisório em São Paulo, chefiado por Pedro de Toledo. O movimento contou com a participação de fazendeiros, estudantes, comerciantes, profissionais liberais e voluntários de São Paulo.
Apesar da grande mobilização e resistência, as forças paulistas foram derrotadas pelas tropas do governo central. Embora derrotada militarmente, a Revolução de 1932 foi fundamental para o processo que levou à promulgação da Constituição brasileira de 1934.
O movimento é um forte símbolo da identidade e da luta paulista, sendo lembrado com desfiles e homenagens anuais. O dia 9 de julho é um feriado oficial no estado de São Paulo em memória à Revolução.