Trabalhar em meio à natureza e com vista para o mar virou realidade para muitos jovens. Mercado percebe novo segmento e investe em espaços como coworking
Reginaldo Pupo
Publicado em 14/11/2025, às 09h51
Por volta das 16h do domingo (9), o empresário paulistano Pablo Vidigal Torrens, 52, estava sentado em uma cadeira de praia, de frente para o mar, em Ilhabela.
Enquanto a maioria dos turistas que visitava a ilha se preparava para encarar a fila da balsa e retornar às suas cidades de origem, Torrens permanecia na praia, apesar do tempo fechado.
Ao lado da cadeira de praia havia uma caixa térmica, com água, refrigerantes e cervejas. No colo, um notebook. Na tela, vários de seus funcionários faziam uma reunião on-line com ele para definirem as metas da semana. “Agora esse é meu escritório. Consigo resolver tudo em pouco tempo e depois estou livre no restante do dia para curtir tudo isso aqui com minha família, que chegará daqui a pouquinho”, disse ele, orgulhoso, apontando para o mar da praia do Pequeá.
O cenário onde Pablo Torrens estava inserido faz parte de um novo segmento que vem surgindo nas cidades do litoral norte de São Paulo.
Com praias paradisíacas, internet de alta velocidade e uma crescente rede de hospedagens voltadas ao trabalho remoto, a região vem se consolidando como o novo refúgio dos nômades digitais, profissionais que adotaram um estilo de vida livre de escritórios fixos, conectando-se ao trabalho de qualquer lugar do mundo.
Nos últimos anos, cidades como Caraguatatuba, Ilhabela, São Sebastião e Ubatuba vêm atraindo cada vez mais trabalhadores remotos, tanto brasileiros, quanto estrangeiros.
O fenômeno ganhou força após a pandemia, quando o home office deixou de ser exceção e passou a integrar o cotidiano de diversas profissões, especialmente nas áreas de tecnologia, marketing e comunicação.
Desde então, é comum ver jovens trabalhando com notebook em meio à natureza, com vista para o mar, em redes esticadas entre árvores no meio da mata ou, caso estejam apenas de passagem pela região, nos hotéis e pousadas.
Mariana Costa Mascarenhas, designer de 32 anos, conta: “Trabalhar com o notebook, mas com os pés fincados na areia, virou mais do que um sonho, é uma realidade possível, que eu já almejava há algum tempo”. Ela trocou a capital paulista por uma casa com vista para o mar, em Ilhabela.
“Aqui, tenho qualidade de vida, tranquilidade e um custo de vida mais equilibrado. Já não aguentava mais trabalhar em São Paulo. O estresse, causado principalmente pelo trânsito caótico, diminuía minha produção consideravelmente. Não é mais sobre tirar férias no paraíso, é sobre transformar o paraíso em parte da rotina, como fazem os caiçaras”, resume Mariana.
Empreendedores locais perceberam o potencial desse novo público e começaram a investir em espaços de coworking, cafés com wi-fi potente, pousadas adaptadas ao trabalho remoto e até vilas digitais, que reúnem profissionais de diversas nacionalidades em ambientes colaborativos.
Em Ubatuba, por exemplo, já há comunidades inteiras dedicadas a esse estilo de vida, com eventos de networking, aulas de ioga e atividades de integração.
Em Caraguatatuba, o recém-inaugurado hotel Hampton, de bandeira Hilton, já pensando neste novo segmento, instalou cabines privativas no lobby principal, equipadas com mesas, cadeiras confortáveis, tomadas e internet disponível. “É um público que está em franco crescimento e mesmo antes da inauguração do empreendimento, já prevíamos um espaço exclusivo para os nômades digitais”, conta Roberta Osório, gerente de vendas do hotel.
Outro hotel que já nasceu com um espaço para coworking é o Reserva Ilhabela, na praia da Feiticeira. “Recebemos muitos nômades digitais e influencers e sempre pensamos em dedicar um espaço exclusivo, com mesas, tomadas, boa iluminação e acesso à internet”, conta Márcio Franco, um dos sócios. O hotel também oferece aulas de ioga e um jungle spa, para os nômades relaxarem depois do “expediente”.
Além da infraestrutura digital, o que mais atrai os nômades é o equilíbrio entre produtividade e bem-estar. O contato diário com a natureza, a possibilidade de surfar antes do expediente ou de caminhar em trilhas cercadas pela Mata Atlântica são diferenciais difíceis de encontrar nos grandes centros urbanos.
Segundo especialistas em turismo, o movimento também impulsiona a economia local, gerando renda para pequenos comércios, restaurantes e prestadores de serviço. André Ribeiro, consultor de turismo sustentável explica: “O nômade digital permanece mais tempo do que o turista tradicional, gasta de forma constante e ajuda a manter a economia aquecida mesmo fora da alta temporada”.
Com a popularização do trabalho remoto e a busca crescente por qualidade de vida, a tendência é que o litoral norte consolide sua vocação como destino híbrido, onde é possível trabalhar e viver em harmonia com a natureza.
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