Refúgio natural é cercado por mistérios e lendas sobre baús enterrados pelos piratas, em locais de difícil acesso, abarrotados de moedas

Considerada uma das 10 praias mais bonitas do Brasil (e até do mundo, segundo o jornal britânico The Guardian), a praia do Bonete, localizada no extremo sul de Ilhabela, no litoral norte, é um refúgio ecológico guardado entre o mar aberto e a densa Mata Atlântica virgem, e que tem uma pegada mais roots, reunindo pessoas descoladas e aventureiras de todo o Brasil.
Aventureiras pois, para chegar até a comunidade do Bonete, exige-se muita dose de aventura, disposição e coragem, pois existem apenas duas alternativas: de barco ou por uma trilha de aproximadamente 12km de percurso, percorrida entre quatro a seis horas, de acordo com o ritmo de cada pessoa.

Alguns receptivos turísticos de Ilhabela oferecem passeios até a praia, mas, os mais aventureiros, preferem chegar de canoa com os caiçaras locais, que fazem o transporte até o lugar. Há saídas da praia do Perequê, na região mais urbanizada de Ilhabela, e do centro de São Sebastião, cidade vizinha.
As canoas levam cerca de 1h a 2h, dependendo das condições do mar. Enquanto navegam pelo canal de São Sebastião, o mar é mais tranquilo, mas, à medida que a embarcação contorna a ilha, sentido sul, as águas ficam mais agitadas, pois inicia-se o trajeto em mar aberto. As pequenas embarcações, feitas em madeira, rompem ondas que podem chegar a mais de dois metros de altura.
A impressão é de que o pequeno barco, equipado apenas com o motor e sem qualquer outro tipo de instrumento, vai virar. Mas, acredite, os caiçaras da praia, conhecidos como boneteiros, são experientes e conhecem as condições do mar como ninguém.
Inclusive, os caiçaras em geral são conhecidos por saberem, com precisão, a previsão do tempo, algo que renomados institutos, com toda a tecnologia e equipamentos disponíveis, nem sempre acertam.
Já a chegada pela trilha exige disposição física para encarar o trajeto, que rompe a Mata Atlântica e passa por três cachoeiras. O início da trilha está localizado no bairro Borrifos, no sul da ilha, onde termina o asfalto; o nível de exigência é de moderada a alta, com trechos de subida e descida, passagem por mata fechada e pontos de lama em épocas de chuva. Para quem opta pela trilha, a chegada transforma-se num prêmio ao esforço, pois a praia surge quase de surpresa ao fim do caminho.
A praia do Bonete conserva hoje um dos retratos mais fiéis do litoral norte paulista, com sua beleza crua, acesso difícil e uma população que, por gerações, fez do lugar sua casa e sua proteção.
A praia tem cerca de 600 metros de extensão e fica em uma enseada que recebe diretamente as ondulações do mar aberto, com ondas expressivas em muitos dias e uma paisagem de areal curvado entre costões e morros cobertos pela Mata Atlântica. O entorno faz parte da área protegida do Parque Estadual de Ilhabela, que preserva grande parte da vegetação e da fauna locais.
Além da faixa de areia e do mar, o entorno apresenta pequenos cursos d’água e quedas, além de trilhas que levam a mirantes sobre a enseada. Há ainda o rio Nema, que deságua no mar.
A fauna e flora da região são típicas da Mata Atlântica costeira, com vegetação diversificada, aves e espécies marinhas próximas ao litoral. A unidade de conservação do Parque Estadual contribui para manter esses ecossistemas mais protegidos do que outras áreas acessíveis do litoral.

O Bonete não é uma praia “de resort”. A infraestrutura é básica, com pousadas simples, restaurantes rústicos e comércio pequeno, o que confere uma atmosfera bucólica. Em determinadas épocas do ano, a presença de borrachudos é constante, portanto, é sempre recomendável levar repelentes.
Os frequentadores podem aproveitar a praia e os mirantes que oferecem vistas panorâmicas do mar e da serra, fazer caminhadas e trilhas curtas nos arredores, ou ainda experimentar a vivência com a comunidade caiçara local.

É importante planejar a viagem com antecedência e, principalmente, checar a previsão do tempo e condições do mar; se for de barco, confirme horários e disponibilidade; se for pela trilha, leve água, protetor solar, repelente e calçado apropriado.
Sempre respeite a comunidade. Pergunte antes de fotografar pessoas e não deixe lixo. Ao mergulhar ou nadar na praia, informe-se sobre os locais apropriados. Se fizer alguma trilha, informe alguém sobre seu roteiro. Outra dica é sempre levar dinheiro em espécie, pois, por se tratar de uma comunidade isolada, nem sempre há internet ou maquininhas funcionando.
O Bonete abriga a maior comunidade caiçara de Ilhabela, com 275 moradores, integrantes de 112 famílias, que vivem da pesca artesanal, turismo de baixo impacto, como pousadas simples, guias e serviços de alimentação.
Essa presença humana é parte essencial da paisagem. É possível observar as casas de pau-a-pique, as trilhas internas e o pequeno comércio, gerido por moradores que, historicamente, também foram os guardiões do lugar. Visitar Bonete significa, portanto, também respeitar ritmos, horários e regras locais.

Parte da comunidade é descendente de piratas. É comum ver moradores e crianças de pele clara, cabelos loiros e olhos azuis ou verdes, traços atribuídos à miscigenação com os aventureiros europeus. Alguns deles falam um dialeto próprio, no qual a pronunciação de vogais é aberta, como “mamáe”, “feijón”, “amanhá”.
Eles também costumam trocar a letra “c” pela “b”, como exemplo, “bento” em vez de vento. Uma frase comum de se ouvir por lá é “Mamáe, está bentando no canár” (mamãe, está ventando no canal). Mas, às vezes, as pronúncias são incompreensíveis quando falam muito rápido. Há ainda quem fala em castelhano.
No entanto, a origem disso tudo veio da Inglaterra. Tudo começou com a passagem do corsário inglês Thomas Cavendish por Ilhabela, em 1591, durante sua segunda expedição ao redor do mundo.
O corsário (tipo de pirata “do bem”, mas que também atacava barcos com autorização do governo) cruzou o Atlântico rumo à América do Sul. Os registros históricos indicam que, após enfrentar tempestades e dificuldades na costa, buscou abrigo no litoral paulista, e é aí que Ilhabela entra na história.
A enseada da praia de Castelhanos e outras baías ao redor de Ilhabela, como o atual Bonete e o Saco do Sombrio, eram conhecidas como pontos de abrigo natural, protegidas do mar aberto, com água doce e acesso difícil, ideais para esconder embarcações.
A tradição de Ilhabela sustenta que Cavendish ancorou ali por algumas semanas, reabastecendo-se de mantimentos, consertando seus navios e, segundo as lendas locais, enterrando parte de um tesouro.
Segundo moradores antigos de Ilhabela, famílias daquela época tiveram contato com os piratas após tê-los recebido com ferimentos, mas alguns deles teriam permanecido na ilha, misturando-se à população caiçara local.
Hoje, Ilhabela mantém viva essa herança em roteiros turísticos e histórias contadas por guias e moradores. Trilhas e mirantes são associados ao “caminho dos piratas”, e o tema inspirou livros, peças e até festivais locais.
Por essa e outras histórias, Ilhabela ganhou o apelido de “Ilha dos Piratas”. Além de Cavendish, outros corsários, franceses e holandeses, teriam o arquipélago como ponto estratégico, já que ele ficava no meio da via marítima entre o Rio de Janeiro e Santos, ambos portos ricos da época colonial. O isolamento e a geografia da ilha ajudavam a esconder navios inteiros das patrulhas portuguesas.
As histórias que correm entre moradores antigos falam de baús enterrados em praias isoladas e de moedas de prata encontradas ocasionalmente em locais de difícil acesso. Ainda que sem comprovação arqueológica, há relatos antigos registrados em jornais do início do século XX, sobre moradores que afirmavam ter achado “moedas com inscrições estrangeiras” em áreas de mata próximas ao Bonete e ao Jabaquara.
Após deixar o litoral brasileiro, Thomas Cavendish tentou seguir sua rota ao Pacífico, mas morreu no mar, em 1592, provavelmente vítima de escorbuto (falta de vitamina C) e desnutrição. Sua tripulação relatou que ele teria amaldiçoado o próprio destino antes de desaparecer. Nunca mais se soube do seu corpo, fato que reforçou o mistério e a aura lendária que o cercam.