Morte de 143 crianças e oito adultos, na ilha Anchieta, em 1926, marcou a história da imigração búlgara no Brasil; fato é atribuído ao desconhecimento na alimentação
Reginaldo Pupo
Publicado em 12/09/2025, às 10h21
A morte de 143 crianças e oito adultos na ilha Anchieta, em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo, vítimas do consumo de mandioca brava, marcou para sempre a trajetória de imigrantes búlgaros que chegaram ao país em 1926, em busca de uma vida melhor. Quase um século depois, a tragédia ainda ecoa entre os descendentes, que mantêm viva a memória no cemitério preservado na ilha.
Em 1926, imigrantes búlgaros e gagaúzos, vindos da extinta Bessarábia, desembarcaram no Brasil, fugidos da opressão da Romênia, que invadiu a antiga província russa durante a Revolução Russa de 1917. Eles escolheram o Brasil atraídos pela promessa do governo, que ofereceu moradias gratuitas, terras férteis, passagens sem custo, além do clima agradável e tropical.
Nove anos após a revolução russa, em 1926, os primeiros dois mil, de 10 mil imigrantes, começaram a chegar ao Brasil, mais precisamente no estado de São Paulo, por onde entraram pelo porto de Santos, após viagens que duravam entre 22 dias a um mês. Eles foram alojados na Hospedaria dos Imigrantes, localizada no Brás, na capital paulista, onde hoje funciona o Museu do Imigrante.
As promessas de vida fácil logo se tornaram um pesadelo. Naquela época, o único meio de trabalho disponível eram as fazendas de cafés, localizadas no interior paulista. No entanto, para trabalhar nas plantações cafeeiras, os imigrantes teriam que se submeter a um trabalho similar à escravidão, ainda praticado livremente nas fazendas produtoras de café.
Os imigrantes receberiam um salário muito baixo e, ainda, teriam que pagar suas despesas aos patrões. Muitos deles eram analfabetos e não tinham dinheiro para retornar à Europa, pois a viagem havia sido custeada pelo governo brasileiro.
Os búlgaros e gagaúzos se recusaram a trabalhar em tais condições e iniciaram uma revolta para evitar a ida ao interior do estado. Eles se sentiam decepcionados e enganados pelo governo brasileiro, pois, aos que manifestavam intenção de migrar era informado que receberiam terras para cultivar nos EUA. Eles acusaram o governo de ter feito uma armadilha para atraí-los ao território brasileiro.
O presidente do Brasil, em 1926, era Washington Luís, que assumiu o cargo em 15 de novembro daquele ano, permanecendo no poder até 1930. Seu antecessor foi Artur Bernardes.
Segundo registros da época, diante da revolta, a Força Pública (atual Polícia Militar) foi acionada e deteve os imigrantes, conduzindo-os para a ilha dos Porcos, hoje conhecida como ilha Anchieta, em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo, onde já funcionava um presídio, com mais de 400 detentos.
Sem trabalho, os imigrantes que não ficaram no presídio, apenas espalhados pela ilha, tiveram que encontrar meios para reforçar a alimentação. À época, havia grande cultivo de mandioca na ilha, e os búlgaros passaram a consumir o tubérculo, oferecendo primeiro às crianças para que não passassem fome.
O que eles não sabiam é que se tratava da mandioca brava, que contém alta concentração de ácido cianídrico e que pode provocar intoxicação grave, se não for cozida de forma específica, ou até mesmo a morte. E foi o que aconteceu. O resultado foi a morte de 143 crianças e oito adultos, em um período de 100 dias.
Atualmente, a ilha Anchieta é um dos destinos mais visitados de Ubatuba e considerada um paraíso natural, cercada por praias, rica vida marinha e vegetação densa. Quem visita o lugar tem a oportunidade de conhecer o cemitério onde estão enterrados os corpos dos imigrantes. É possível notar que a maioria das jazidas é pequena, do tamanho de crianças.
Para chegar ao lugar, há necessidade de percorrer algumas das trilhas da ilha. Durante o trajeto, passarelas de madeira passam por vegetação típica da Mata Atlântica e de restinga. O cemitério não é bem divulgado pelo Parque Estadual da Ilha Anchieta, que administra a ilha. Não há placas turísticas indicando o local. Mas é possível solicitar a visita aos guias.
No dia 18 de abril de 2017, a Associação Cultural do Povo Búlgaro no Brasil fixou uma placa no cemitério, em homenagem aos 151 mortos. A data foi criada em Ubatuba para homenagear o Dia dos Imigrantes Búlgaros e Gagaúzos Bessarabianos e preservar a história e os antepassados dos que vieram ao Brasil.
Anualmente, descendentes dos imigrantes mortos se reúnem na ilha Anchieta para prestar homenagens, quando são entoadas canções búlgaras e depositadas flores sobre os túmulos. Alguns comparecem com roupas típicas e bandeiras daquele país.
Em 2020, a história ganhou registro audiovisual em um documentário narrado por Jorge Cocicov, juiz de direito aposentado e brasileiro com cidadania búlgara. A produção é fruto de uma parceria entre a Associação Cultural do Povo Búlgaro no Brasil e o portal Ubatuba Guide. O filme está disponível gratuitamente no canal do Ubatuba Guide no YouTube (youtube.com/UbatubaGuide)
Os búlgaros e gagaúzos vieram ao Brasil para fugir da opressão da Romênia, durante a Revolução Russa de 1917. Bessarábia era uma província russa que englobava territórios que hoje são parte da Moldávia e da Ucrânia. Atualmente, a população se define ucraniana e, após quase um século, vive uma nova opressão, desta vez causada pela guerra entre a Rússia e a Ucrânia, iniciada em 2022, e que já dura três anos.
Na ilha Anchieta também é possível visitar as ruínas do presídio, que sofreu uma rebelião em 1952, deixando um saldo de 24 mortos, dos quais 15 presidiários e nove guardas. Alguns dos corpos dos soldados e dos detentos foram enterrados no mesmo cemitério dos imigrantes. Em setembro de 1955, a penitenciária encerrou suas atividades.
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