Litoral Norte

Trilhas levam a praias cinematográficas na ilha Anchieta, em Ubatuba

Palco de uma sangrenta rebelião em 1952, a “Alcatraz” brasileira, no litoral de SP, agora é um destino turístico com praias paradisíacas

Reginaldo Pupo
Publicado em 03/07/2024, às 13h45

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As trilhas levam a algumas das sete praias da ilha Anchieta - Reginaldo Pupo
As trilhas levam a algumas das sete praias da ilha Anchieta - Reginaldo Pupo

Praias com águas verdes e cristalinas e a vegetação típica da Mata Atlântica também escondem diversas trilhas, que proporcionam aos aventureiros uma verdadeira imersão na natureza da ilha Anchieta, localizada em um parque estadual na cidade de Ubatuba, no litoral de SP.

A segunda maior ilha da região (só perde para Ilhabela), com 828 hectares e 17km de costões rochosos, possui sete praias (Presídio, Sapateiro, Engenho, Palmas, do Sul, Leste e Grande) paradisíacas, totalmente preservadas, com águas claras e farta e variada vida marinha. Para chegar a algumas delas, é necessário percorrer trilhas, que, dependendo do nível de dificuldade, precisa do acompanhamento de guias credenciados pelo Parque Estadual Ilha Anchieta.

praia na ilha anchieta
Praia do Sul com acesso pela trilha da praia do Sul - Reginaldo Pupo

O Parque Estadual da Ilha Anchieta foi criado em 1977 e preserva e conserva os ecossistemas naturais, além de ampliar o desenvolvimento de pesquisas e a realização de atividades de educação ambiental. Na ilha, os turistas podem realizar caminhadas, praticar mergulho e contemplar a paisagem.

Somente é possível chegar à ilha Anchieta de barco. Receptivos turísticos realizam passeios com saídas no Saco da Ribeira, a praia do continente com estrutura de marinas mais próxima da ilha. Para acessá-la, é necessário fazer um agendamento com o Parque Estadual pela internet, de quinta a terça-feira, com pagamento de ingressos (R$ 19,00 para brasileiros).

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Trilhas

As trilhas levam a algumas das sete praias da ilha. A trilha da Praia do Sul é um roteiro que oferece aos turistas uma experiência que mescla a observação da natureza com o conteúdo histórico de ocupação humana na ilha Anchieta. O percurso começa na praia das Palmas e passa pelo chamado “Mirante da Biodiversidade”, que permite observar os diferentes tipos de ecossistemas existentes no local. No final do percurso, o visitante chega à praia do Sul, uma das mais charmosas da ilha, com águas cristalinas e perfeita para a atividade de mergulho.

Já a trilha do Saco Grande, com início ao lado da vila militar, passa pelas ruínas do presídio desativado,  uma verdadeira viagem pela história de ocupação da ilha Anchieta. Durante o percurso, o visitante caminha pela Mata Atlântica preservada, com diversas espécies da fauna e flora, terminando em um costão rochoso com vista panorâmica para o oceano.

Foto Reginaldo Pupo
Trilha da praia do Sul - Reginaldo Pupo
Foto Reginaldo Pupo
Foto Reginaldo Pupo

Em meio a bromélias e orquídeas, a trilha da Represa tem declividade acentuada e passa pelo mirante Passado e Presente, com vista panorâmica das ruínas do presídio e da Enseada das Palmas, com sua vasta diversidade de ecossistemas. A trilha termina na represa da ilha Anchieta. Já a  trilha Subaquática é feita pelo mar, para observação do ecossistema marinho.

Durante os passeios, os turistas se deparam com diversos ecossistemas existentes na ilha, como floresta ombrófila densa, restinga e vegetação de costões rochosos, típicos do bioma Mata Atlântica. Há diversas espécies de aves, répteis e anfíbios.

Nas trilhas, é possível avistar pequenos mamíferos como macacos, tartarugas, lagartos, quatis e capivaras, além de pássaros silvestres, como os sabiás e juritis. Nas trilhas que margeiam o mar, é possível avistar raias, tartarugas, garoupas, entre outras espécies de peixes.

Ruínas do presídio resistem ao tempo e podem ser visitadas

Em 1902, a ilha Anchieta era mais conhecida como ilha dos Porcos, época em que foi construída uma colônia penal. Para tanto, foram desapropriadas cerca de 412 famílias. Esta colônia viria a ser desativada em 1914, quando os presos foram  transferidos para presídios de Taubaté; mas, em 1928, foi reativada para abrigar os presos políticos do período da ditadura de Getúlio Vargas. Nesta época, além dos habitantes originais, passaram a morar na ilha os soldados e seus familiares.

A colônia penal na ilha foi fundada em 1908, com o nome de 'Colônia Correcional da Ilha dos Porcos', e abrigava presos comuns e menores infratores. Na década de 1930, recebeu presos políticos. Em 1934, a ilha dos Porcos recebeu o nome de ilha Anchieta, como parte das homenagens ao quarto centenário do nascimento de padre José de Anchieta.

Ruínas do presídio da Ilha Anchieta - Reginaldo Pupo
Reginaldo Pupo
Reginaldo Pupo

Em 1952, a prisão abrigava os criminosos mais perigosos do estado de São Paulo. Eram 453 presos no dia da rebelião, vigiados por um contingente de 50 policiais. A ação foi planejada com antecedência, e os detalhes arquitetados pelo líder Álvaro da Conceição Carvalho Farto, alcunhado de “Portuga”, que chegou a pedir para ir para o isolamento, alegando estar sendo “ameaçado” por outros presos, apenas para ter mais tranquilidade para estudar os detalhes da ação. Durante muito tempo, os detentos buscaram ganhar a confiança dos policiais e seus familiares moradores da ilha, visando facilitar a ação, no momento oportuno.

A rebelião

O dia escolhido para a ação foi 20 de junho de 1952, pela manhã, quando 117 presos foram buscar lenha, acompanhados de apenas dois soldados. Naquele dia, por volta das 12 horas, chegaria uma embarcação, vinda de Santos, trazendo mantimentos, como sempre ocorria uma vez por mês. Os presos planejavam tomá-la de assalto para fugir da ilha. Um dos soldados que acompanhavam os presos foi morto e o outro dominado. Os detentos retornaram ao presídio, onde se confrontaram em um tiroteio com os demais soldados. Neste confronto, morreram 12 detentos, dois funcionários e seis soldados. Os detentos invadiram o depósito de armas e se apoderaram de fuzis, mosquetões, metralhadoras, revólveres e munição.

A Fuga

As celas foram abertas, libertando os demais detentos que estavam confinados. O plano era fugir na embarcação que chegaria pouco depois. Mas a ação não ocorreu como o planejado, pois os criminosos, embriagados, circulavam armados pela ilha; a tripulação da embarcação percebeu que havia algo errado e  decidiu não atracar na ilha.

Os rebelados tentaram então fugir em barcos menores. Um deles foi lançado ao mar, com mais de 90 detentos, e começou a afundar pelo excesso de peso;  alguns feridos foram jogados no mar. Aquelas águas tinham muitos tubarões e o sangue os atraiu. Dezenas de fugitivos morreram atacados pelos tubarões, outros baleados pela polícia ou pelos próprios companheiros.

Ao chegar no continente, na praia de Ubatumirim, o barco encalhou e ficou danificado. Muitos foragidos conseguiram chegar em terra nadando e se embrenharam na mata. O presídio foi incendiado pelos detentos, antes da fuga. Muitos também embarcaram em canoas menores, conseguindo chegar ao continente. Os que ficaram na ilha, renderam-se e a situação foi controlada pelos policiais.

A captura

Um forte aparato foi preparado para recapturar os fugitivos, envolvendo a Marinha, Exército e Aeronáutica, além das forças policiais de São Paulo e Rio de Janeiro, em uma ação que durou vários dias. A maioria dos fugitivos foi recapturada na Serra do Mar, nas regiões de Caraguatatuba, Ubatuba e Paraty. Dos 129 detentos que conseguiram fugir, seis nunca foram recapturados. A rebelião deixou 118 mortos, dos quais  108 presos, 8 policiais e 2 funcionários.

O presídio da ilha Anchieta foi desativado em 1955 e os presos transferidos para a Casa de Custódia de Taubaté, presídio de segurança máxima. Em 29 de de março de 1977, a ilha passou a ser área de proteção ambiental, com a criação do Parque Estadual da Ilha Anchieta.

Contato

Para entrar em contato com o Parque Estadual Ilha Anchieta escolha uma das opções: tel (12) 3842 1231; e-mail [email protected]

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