Registro de um tubarão-mangona chamou atenção no canal de Ilhabela; espécie é considerada criticamente ameaçada de extinção
Rhauanny Queiroz
Publicado em 11/07/2026, às 12h19
Em plena temporada de observação de baleias-jubarte, no litoral norte de São Paulo, quem roubou a cena na sexta-feira (10) foi um tubarão. O animal foi flagrado saltando para fora da água durante uma navegação no canal de Ilhabela e chamou a atenção de moradores e turistas.
O registro rapidamente repercutiu nas redes sociais e despertou a curiosidade sobre a espécie e se ela representaria algum risco às pessoas.
A identificação foi feita pelo fotógrafo e documentarista de vida selvagem Rafael Mesquita, que apontou que o animal aparenta ser um tubarão-mangona (Carcharias taurus). Apesar da aparência imponente, marcada pelos dentes longos e sempre aparentes, a espécie é conhecida pelo comportamento calmo e não costuma representar perigo ao ser humano.
Além de revelar a diversidade da fauna marinha presente no canal de São Sebastião, o avistamento reforça a importância do litoral paulista para a conservação da espécie.
Uma pesquisa conduzida pelo Laboratório de Ecologia e Conservação Marinha da Universidade Federal de São Paulo (Labecmar-Unifesp) identificou que o Refúgio de Vida Silvestre do Arquipélago de Alcatrazes é utilizado pelo tubarão-mangona em fases importantes de seu ciclo reprodutivo.
O estudo registrou machos adultos, fêmeas com marcas recentes de acasalamento e até uma fêmea grávida na unidade de conservação, indicando que a região funciona como área de reprodução da espécie.
As análises foram feitas entre os verões e invernos de 2022, 2023, 2024 e 2025 por meio de câmeras subaquáticas com isca, técnica que permite registrar e medir os animais sem interferir em seu comportamento natural.
Os pesquisadores também verificaram que o tubarão-mangona pode ser observado tanto no inverno quanto no verão em Alcatrazes, formando agregações de até dez indivíduos.
O tubarão-mangona é classificado como criticamente ameaçado de extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Entre as principais ameaças à sobrevivência da espécie estão a perda de habitat, a poluição marinha, as mudanças climáticas e a captura acidental durante atividades pesqueiras.
Outro fator que dificulta a recuperação da população é sua baixa taxa reprodutiva. A gestação dura entre nove e 12 meses e cada fêmea gera apenas dois filhotes por gravidez, um em cada útero, uma das menores taxas de fecundidade registradas entre os tubarões.
Durante a gestação, a espécie apresenta um fenômeno conhecido como viviparidade adelfofágica, também chamada de canibalismo intrauterino. Nessa fase, os embriões mais desenvolvidos alimentam-se de óvulos produzidos pela mãe e, em alguns casos, de embriões menores, garantindo que apenas um filhote se desenvolva em cada útero.
Encontrado nos oceanos Atlântico, Índico e Pacífico Ocidental, o tubarão-mangona ocorre, no Brasil, principalmente entre os estados do Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. A espécie vive preferencialmente em águas costeiras, entre seis e 200 metros de profundidade, podendo fazer incursões ocasionais em áreas oceânicas.
Quando adulto, pode atingir até três metros de comprimento e cerca de 150 quilos. Sua alimentação é composta por peixes ósseos, pequenos tubarões e raias, além de lulas, polvos e crustáceos.
Embora os dentes pontiagudos fiquem permanentemente expostos, característica que faz muitas pessoas acreditarem tratar-se de um animal agressivo, o tubarão-mangona apresenta natação lenta e comportamento tranquilo.