Instituto atribui mortes de meros ao clima e pede monitoramento de praias

Meros do Brasil afirma que nove peixes foram encontrados mortos em SP, e pede ao Ibama a inclusão da espécie no programa de Monitoramento das Praias

Lenildo Silva
Publicado em 21/10/2024, às 15h12

Meros boiam no mar recém-mortos e, outros, encalhados já em estado de decomposição - Foto: Roney Peterson


A morte de vários peixes da espécie mero (Epinephelus itajara) nas praias do litoral de São Paulo, desde o mês de setembro, acendeu o alerta não só de pescadores, que divulgaram imagens dos encalhes, mas também de especialistas e pesquisadores marinhos. Mas, o Instituto Meros do Brasil (IMB), que estuda a espécie criticamente ameaçada há mais de duas décadas, atribui a mortalidade a fatores ambientais, e propõe ao Ibama a inclusão dos meros nos Projetos de Monitoramento de Praias.

Segundo Matheus Oliveira Freitas, biólogo e coordenador de pesquisa do IMB, o encalhe de peixes mortos nas praias da Baixada Santista e do litoral norte não é um fenômeno isolado e ocorre todo ano, no final do inverno e início da primavera. "Eles não suportam temperaturas abaixo de 15°C. Este ano, neste período, chegou a 13.9°. Com a água fria, baixa o sistema imunológico; eles ficam mais vulneráveis a vírus e bactérias e acabam morrendo”, explicou o pesquisador. Ainda segundo o instituto, vários fatores podem levar à morte dos meros, e o movimento das correntes traz os corpos para a costa; são doenças comuns à espécie, eventos de ressurgência, interações com a pesca e poluição marinha.

O oceanólogo Rodrigo Silvestre Martins, professor do Instituto do Mar da Unifesp, explicou o que é ressurgência e como este fenômeno oceanográfico pode resultar nas mortes das espécies. De acordo com o professor, a ressurgência é comum nessa época do ano, e, neste fenômeno, os ventos empurram a água superficial em direção ao alto mar, fazendo com que águas mais frias e profundas subam à superfície. "A água fria vinda das profundezas, com temperaturas inferiores a 15°C, é letal para os meros, pois ultrapassa o limite de tolerância térmica da espécie”, afirmou o professor.



Conforme apurado pela reportagem, desde o final do inverno e começo da primavera, os peixes conhecidos como ‘gigantes dos mares’ foram filmados por pescadores boiando no mar, ainda frescos, e outros encalhados já em estado de decomposição, nas praias e mangues de Bertioga, Guarujá, Santos e São Vicente, na Baixada Santista, em Ubatuba, no litoral norte, e em Iguape, no litoral sul do estado.

Dados históricos

Os dados históricos do IMB revelam que 170 indivíduos foram encontrados mortos em 13 estados, entre dezembro de 2012 e agosto de 2023. No litoral de São Paulo, segundo levantamento recente do instituto, nove peixes dessa espécie morreram. Antes disso, foram registradas 12 mortes, em 2018; oito, em 2020; seis, em 2022 e, em 2023, três meros encalharam nas praias paulistas. Os dados históricos dos últimos seis anos obtidos pela reportagem mostram, ainda, que a maioria das mortes ocorreu entre o inverno e a primavera, mesmo período em que as mortes dos peixes tiveram uma alta no litoral paulista.

De acordo com o pesquisador do instituto, a quantidade de meros encontrados mortos, divulgada nas redes sociais, pode conter erros, pois, muitas vezes, o mesmo peixe é registrado mais de uma vez ao passar por diferentes praias. “Temos certeza de nove exemplares mortos em São Paulo, mas o que temos visto é a mesma foto vista e enviada por vários caminhos diferentes”, explicou.



Monitoramento de praias

O Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos - PMP-BS - atende demanda de processos de licenciamento ambiental da Petrobras, na bacia de Santos. É conduzido pelo Ibama e atende uma área de 1.500km de costa, que abrange os estados de Santa Catarina, Paraná, São Paulo e do Rio de Janeiro. Estão incluídos, no programa, tartarugas, aves e mamíferos marinhos. 

O Instituto Meros do Brasil, que tem patrocínio da Petrobras, por meio do Programa Petrobras Sócio Ambiental, reforça a necessidade de inclusão de outras espécies marinhas, dada a importância da coleta de material biológico. No caso do mero, a proposta é aumentar o conhecimento sobre a espécie e propor medidas de conservação mais eficazes. "Estamos reunindo material para validar o pedido de inclusão, junto ao Ibama", afirma o pesquisador.

Freitas explica que, até o momento, o instituto tem amostras de 70 meros encalhados. Mas como a maioria é encontrada já em estado de decomposição, a coleta de material biológico é dificultada. “Mesmo assim, quando possível, as amostras são utilizadas para estudos, como ocorreu com um exemplar coletado em agosto pelo Instituto Argonauta, em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo”, enfatizou.



A coleta citada pelo coordenador de pesquisa foi realizada em parceria entre o Instituto Meros do Brasil e o Instituto Argonauta, responsável pelo monitoramento marinho do litoral norte paulista. O Argonauta informou à reportagem que recolheu um mero encalhado na praia da Enseada, no dia 15 de agosto. O animal foi taxidermizado para preservação, e amostras serão encaminhadas ao IMB. Os resultados não foram analisados em sua totalidade até o momento.

O que diz o Ibama

O Ibama esclareceu que os Projetos de Monitoramento de Praias (PMP), focados em quelônios, aves e mamíferos marinhos, não incluem os meros como espécie-alvo, porque esta espécie habita áreas mais distantes da costa, como recifes e águas profundas, fora do foco das atividades offshore de petróleo e gás. Contudo, o protocolo do PMP permite o registro de ocorrências incomuns, como o encalhe de meros, que podem ser submetidas para avaliação adicional, embora não seja  prioridade no contexto do monitoramento atual.

Apesar da ausência de interação significativa entre os meros e as atividades offshore de petróleo, o Ibama ressalta que “isso não impede o estabelecimento de parcerias com as equipes dos PMP para monitoramentos específicos relacionados a outras atividades costeiras, como instalação e operação de portos, que podem ter impacto mais direto sobre a espécie”. 



 

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