Vídeos mostram peixes da espécie mero boiando no mar e encalhados em praias da Baixada Santista e litoral sul; situação semelhante ocorre na Europa

Desde o fim de setembro, pescadores e moradores do litoral de São Paulo têm se deparado com uma cena incomum: peixes gigantes da espécie mero (Epinephelus itajara) mortos, ou boiando no mar, em diversas regiões da Baixada Santista e do litoral sul. A situação pode ser considerada crítica porque, estes animais, que podem alcançar até 2,5 metros de comprimento e pesar mais de 400 quilos, estão em risco de extinção; não há informação oficial sobre as causas.
Imagens circulam pelas redes sociais e em grupos de WhatsApp. Nos vídeos, os peixes meros são filmados boiando no mar, ou encalhados em praias e mangues de Guarujá, Santos, São Vicente e Iguape. Pescadores relatam que, além dos meros, também foram avistados bagres brancos em situações semelhantes e sugerem uma possível contaminação nas águas da região.
O pescador Roney Peterson, de 51 anos, contou que avistou os peixes pela primeira vez há cerca de duas semanas e que, desde então, recebeu diversos vídeos e relatos de colegas de cidades vizinhas. Peterson disse, ainda, que os dois tipos de peixe, que vivem no fundo do mar, começaram a aparecer mortos há cerca de duas semanas. "Foram vários dias seguidos. É algo incomum porque, primeiro, foram os bagres, depois os meros. Eles boiavam no mar e acabavam sendo levados pela maré até as praias; acredito que possa ser algo relacionado a bactéria ou alguma poluição na água, porque são peixes de profundidade", disse.
Já um barqueiro de Guarujá, que preferiu não se identificar, contou que viu um mero ainda vivo, mas em estado crítico, nas proximidades do farol da Armação, entre Bertioga e Guarujá. "O peixe estava boiando e muito inchado. Tentamos perfurar a barriga dele para que ele afundasse, mas ele não reagia, talvez estivesse muito cansado de tentar afundar sozinho durante a madrugada", disse. Ele destacou, ainda, que o peixe devia pesar mais de 200 quilos.
Além da Baixada Santista, outro mero encalhou na praia do Rio Verde, na Estação Ecológica de Jureia-Itatins, em Iguape. O biólogo Ed Ventura, que encontrou o peixe já morto, no dia 28 de setembro, e em estado de decomposição, disse que o animal media cerca de 2 metros e pesava aproximadamente 200 quilos. O biólogo acredita que o peixe foi levado pelas fortes ondas da noite anterior.
O oceanólogo Rodrigo Silvestre Martins, professor do Instituto do Mar da Unifesp, Campus Baixada Santista, analisou algumas imagens dos peixes enviadas pela reportagem e informou que a hipótese mais provável seria o fenômeno de ressurgência, comum nessa época do ano, estar relacionado à mortandade dos peixes. O professor explicou que neste fenômeno, os ventos empurram a água superficial em direção ao alto mar, fazendo com que águas mais frias e profundas subam à superfície.
Se a temperatura dessas águas for inferior a 15°C, isso pode ser letal para os meros, pois a temperatura está além do limite mínimo de tolerância térmica da espécie. "Como a mortalidade foi massiva e em um curto intervalo de tempo, o impacto das águas frias de ressurgência sobre essa mortandade me parece uma hipótese razoável", explicou.
Procurado pela reportagem, o pesquisador Antônio Olinto, do Instituto de Pesca, vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do estado de São Paulo, informou que o instituto não recebeu informações formais sobre a mortandade dos peixes no litoral de São Paulo. Ele ressaltou que, embora os meros sejam comuns ao longo da costa brasileira, a espécie está em perigo crítico de extinção e é protegida por lei. "A captura, armazenamento e comercialização do mero são crimes ambientais, e qualquer avistamento deve ser imediatamente comunicado à Polícia Ambiental", pontuou.
Já a Polícia Militar Ambiental Marítima, responsável por monitorar a região, informou que não houve registros de acionamentos para o recolhimento dos peixes mortos. O soldado Hailand, da 5ª companhia da Polícia Militar Marítima, comentou que, apesar de não ter sido notificado oficialmente sobre as mortes, houve ocorrências recentes de pesca e venda ilegal de mero.
A Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo), responsável por avaliar e monitorar a qualidade do ar, das águas e do solo, informou que não recebeu denúncia ou reclamação sobre as mortes dos peixes no litoral de São Paulo.
Desde o início de 2024, algumas espécies de peixes, com garoupa (em Portugal é chamada popularmente de mero) pargo e abrotéa, começaram a aparecer já sem vida à superfície das águas ao redor do arquipélago dos Açores, em Portugal. Em reportagem publicada no dia 1º deste mês o jornal português País ao Minuto informou que um instituto do governo havia recolhido alguns peixes para estudo, entretanto, as amostras não foram divulgadas; o governo decidiu interditar a captura e venda temporariamente no arquipélago.
Casos semelhantes de peixes da mesma espécie também foram registrados há 8 anos na França e na Espanha, onde o nodavírus, que afeta o sistema nervoso dos peixes, foi apresentado como a possível causa. O site francês France Info revelou que esse vírus foi detectado pela primeira vez em 1980 e, embora não seja transmissível aos humanos, preocupa os cientistas, pois não há formas de combatê-lo.
Entre os sintomas, explicados por especialistas ao site francês, estão: "perda de escamas, olhos vidrados, descoloração da pele, distúrbios neurológicos, desorientação e aumento da bexiga, o que faz o peixe subir à superfície". Além da hipótese referente ao vírus, mortal aos meros, os especialistas europeus também acreditam que a temperatura da água possa contribuir para a mortandade da espécie.
A pesca do mero, espécie ameaçada de extinção, é proibida em todo o território brasileiro. Essa medida visa proteger a espécie e garantir a preservação dos ecossistemas marinhos. Quem desrespeitar essa proibição estará sujeito a diversas penalidades, como multas e, até mesmo, prisão.