Visitante interestelar intriga comunidade científica com anomalias

Cometa 3I/Atlas é o terceiro objeto interestelar a passar pelo Sistema Solar; suas características 'anormais' resultaram em diversas teorias

Beatriz Ulinger
Publicado em 04/11/2025, às 15h13

Próximo período de observação do cometa será no começo de dezembro - Nasa, ESA, David Jewitt (UCLA); Processamento de imagem: Joseph DePasquale (STScI)


A passagem do cometa 3I/Atlas pelo Sistema Solar causou grande movimentação na comunidade científica. Detectado em julho de 2025, o cometa é o terceiro objeto interestelar a adentrar nossa vizinhança galática, com uma coleção de 'anomalias', o que gerou muitos burburinhos e suposições entre os astrônomos.

Formado em grande parte por poeira, gelo e outros compostos, de acordo com o astrônomo do Observatório Nacional (ON), Dr. Jorge Márcio Carvano, o objeto se originou em outra estrela da Via Láctea e, em algum momento durante sua formação, foi ejetado de seu sistema planetário e lançado para a imensidão do universo.

Esse é um objeto que veio de fora do Sistema Solar, vai passar a alguma distância do Sol e depois se afastará para nunca mais voltar”, explica Dr. Carvano. 

O fator que corroborou para a classificação de interestelar, mas antes se tornou motivo de teorias sensacionalistas, foi o formato hiperbólico de sua órbita, ou seja, ele não segue uma órbita fechada ao redor do nosso Sol, diferente dos objetos que orbitam a vizinhança.



Outras características de seu corpo, como sua cauda e jato de poeira, também foram alvos dessas mesmas suposições, em razão da direção 'anormal' do lançamento de poeira ao Sol, já que, normalmente, esses jatos se formam em direção oposta à estrela, e por ter uma anticauda (caudas voltadas para o próprio objeto).

Porém, pesquisadores já desmitificaram as alegações e explicaram que seu jato de poeira é uma característica que depende da distribuição de gelo no núcleo do cometa, assim como de fatores físicos diversos. Quanto ao formato de sua cauda, a explicação é de que não seria algo incomum, e que já foi vista em outros corpos do Sistema Solar.   

Sua massa também entrou nas especulações, segundo a Nasa (National Aeronautics and Space Administration), o tamanho segue desconhecido e dependendo de mais observações cientificas para chegar a uma conclusão definitiva. Entretanto, as informações mais recentes é de que o cometa 3I/Atlas tenha um raio entre 200 metros e 3 quilômetros, dados compatíveis com o que é registrado de cometas do nosso sistema planetário.



Sensacionalismo

Por ser um objeto misterioso, é normal que a imaginação corra livremente e seja instigada para as ideias mais fantasiosas, principalmente quando os primeiros dados são divulgados em tempo real e sem muitas explicações concretas.

Muitos astrônomos simpatizantes da ideia de visita alienígena utilizaram os registros para divulgar as suposições mais exageradas, como a possibilidade de o cometa ser uma nave extraterrestre com o objetivo de estudar a Terra e o Sistema Solar, por causa de sua órbita diferenciada.

“Após a descoberta, pesquisadores entusiastas de contato alienígena publicaram um artigo não revisado sugerindo que essa trajetória facilitaria manobras para colocar o cometa em uma órbita que interceptasse a da Terra, especulando a sequência de tais manobras para atingir este fim. Esse artigo deu origem às associações recorrentes entre 3I/ATLAS e ETs”, explica Dr. Carvano.

Outra especulação denominava o 3I/Atlas como um satélite alienígena, ou alguma tecnologia avançada desenvolvida fora do Sistema Solar. “A imensa maioria dos astrônomos que tem estudado este objeto não vê nenhuma razão para esse tipo de associação”, esclarece Carvano.



Segundo a própria comunidade científica, é normal que objetos interestelares apresentem comportamentos anômalos, isso, inclusive, é um fator esperado pela comunidade, em razão de sua origem e formação em um sistema desconhecido e no qual não estamos acostumados no Sistema Solar, o que nos leva a, mesmo com explicações, buscar entender como elas aconteceram e como outros sistemas planetários funcionam.

“O cometa está sendo observado por muitos pesquisadores, e cogita-se até a possibilidade de redirecionar sondas que estudam outros objetos para tentar observá-lo de mais perto antes que deixe o Sistema Solar para sempre”, destaca Carvano.

Trajetória

Recentemente, na quarta-feira (29), o cometa 3I/Atlas atingiu o ponto mais próximo do Sol, confirmando a trajetória traçada pelos cientistas.  Nas semanas seguintes, o esperado é que ele passe pela órbita de Marte e continue seu rumo às regiões mais externas do Sistema Solar, onde, depois, nos deixará para sempre e continuará sua viagem pelo universo, chegando a planetas e galáxias ainda desconhecidos pelo homem.

Para aqueles que temem uma possível colisão com a Terra, não há motivos para desespero. De acordo com a Nasa (National Aeronautics and Space Administration), o  cometa 3I/Atlas não apresenta ameaça para o planeta e permanecerá distante de nós; seu ponto de maior aproximação será de cerca de 1,8 unidades astronômicas (aproximadamente 270 milhões de quilômetros), o que, em níveis cientificos, é consideravelmente longe da Terra.



Mesmo com o cometa a um passo de nos dizer adeus, os estudos e observações devem continuar de forma intensa, principalmente no início de dezembro deste ano, segundo informado pela Nasa, data esperada para que o objeto finalize sua rota por trás do Sol e se torne visível para nós novamente.

A expectativa é extrair o máximo de informações possíveis do ilustre visitante, para continuar a desbravar os mistérios ocultos de objetos interestelares da nossa galáxia por trás das lentes dos nossos poderosos telescópios.

Para mais conteúdos:



Astronomia

Leia também

Tempestades solares e infartos: o que a ciência descobriu


Explosão solar desta semana reacende alerta: tempestades solares podem paralisar o mundo?