SAÚDE E CIÊNCIA

Tempestades solares e infartos: o que a ciência descobriu

Pesquisa brasileira relaciona perturbações no campo magnético da Terra, causadas pelo Sol, ao aumento de ataques cardíacos em mulheres


Redação
Publicado em 10/07/2025, às 16h59

FacebookTwitterWhatsApp

Tempestades solares e infartos: o que a ciência descobriu
Análise envolveu dados de saúde pública e registros de atividade solar entre 1998 e 2005 - NASA/Goddard Space Flight Center


Uma pesquisa liderada por cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) identificou uma correlação entre distúrbios geomagnéticos, causados por tempestades solares, e o aumento de infartos, especialmente em mulheres. O estudo Influence of geomagnetic disturbances on myocardial infarctions in women and men from Brazil, publicado na Communications Medicine, avaliou dados do sistema público de saúde de São José dos Campos (SP,) entre 1998 e 2005, período de alta atividade solar.

A análise cruzou internações por infarto agudo do miocárdio com registros do Índice Planetário (Kp-Index), usado para medir variações no campo magnético da Terra.

Mulheres entre 31 e 60 anos foram as mais afetadas

A pesquisa envolveu 871 homens e 469 mulheres. Os dias analisados foram classificados como calmos, moderados ou perturbados, com divisão por faixa etária. De forma geral, os infartos são mais frequentes entre homens, no entanto, quando se observa a frequência relativa, o risco para mulheres foi significativamente maior em dias com perturbações geomagnéticas.



Segundo o autor Luiz Felipe Campos de Rezende, pesquisador do Inpe, mulheres entre 31 e 60 anos tiveram uma taxa até três vezes maior de infartos nesses dias do que em dias calmos.

Impactos do Sol vão além da tecnologia

As perturbações no campo geomagnético são provocadas pelo vento solar, que atinge a magnetosfera, região onde o campo magnético da Terra atua como escudo. Essas interferências já são conhecidas por afetar sistemas de GPS e comunicações por satélite. Mas, há décadas, estudos no Hemisfério Norte também sugerem possíveis efeitos sobre a saúde humana.

Entre as hipóteses, estão alterações no ritmo cardíaco, na pressão arterial e no funcionamento do ritmo circadiano, que regula o sono e outras funções biológicas.



Estudo pioneiro, mas ainda inconclusivo

“Este é o primeiro estudo sobre o tema feito para nossas latitudes, mas ele também não é conclusivo”, afirmou Rezende à Karina Toledo, para a Agência Fapesp. O pesquisador reforça que a amostragem foi limitada a uma cidade e o estudo é observacional. “Contudo, achamos que essas descobertas representam um resultado empírico de significância hipotética e relevância que não devem ser desconsideradas no contexto científico”, disse.

Ele também destaca que não foram encontradas publicações anteriores com foco na maior vulnerabilidade feminina diante desses distúrbios.

Sinais solares são monitorados, mas ainda imprevisíveis

O Sol passa por ciclos de 11 anos, com períodos de maior e menor atividade magnética. Entre o fim de 2024 e o início de 2025, ocorreu o chamado “máximo solar”. Embora esse seja um período de maior risco para perturbações magnéticas, esses eventos são esporádicos e de difícil previsão. O Inpe mantém um portal para monitoramento em tempo real.



“Quando esse tipo de serviço estiver mais avançado - e caso se confirme o impacto dos distúrbios magnéticos no coração-, poderemos pensar em estratégias de prevenção do ponto de vista da saúde pública”, conclui Rezende.

* Com informações da Agência Fapesp

Assista: 

Receba o melhor do nosso conteúdo em seu e-mail

Cadastre-se, é grátis!