Maior túnel do Brasil esconde curiosidades e em breve perderá título

Obra viária no litoral de São Paulo impressiona pela tecnologia e guarda histórias de bastidores; liderança do gigante já tem data para terminar

Redação
Publicado em 23/07/2026, às 13h12

Complexo viário na rodovia dos Tamoios conta com tecnologia de ponta e rotas paralelas para evacuação segura - Reprodução/Wikimedia Commons/Geogast


Localizado no litoral norte de São Paulo, o atual maior túnel rodoviário do Brasil é um marco da engenharia contemporânea. Situado na rodovia dos Tamoios (SP-099), o trecho subterrâneo de 5,5 quilômetros não apenas atrai grupos de estudantes e especialistas, mas também desperta um misto de fascínio e temor nos motoristas.

Apesar da imponência estrutural e dos prêmios internacionais conquistados por sua arquitetura moderna, a megaobra esconde curiosidades de bastidores e já tem data para perder o posto de número um.

Inaugurada em 2022, a serra nova da Tamoios abriga uma rede impressionante de galerias escavadas na rocha, que conectam o litoral norte do estado ao Vale do Paraíba. A nova pista de subida conta com quatro túneis que somam 12,8 quilômetros de extensão.



O trajeto é classificado da seguinte forma: o T5 é o primeiro para quem parte de Caraguatatuba; em seguida, vem o colossal T3/4, dono do título nacional com seus 5,5 quilômetros; o T2 é o menor deles, com menos de um quilômetro; e o T1 desemboca no trecho de planalto.

A grandiosidade não para por aí. O complexo viário da região foi expandido com as obras dos contornos norte e sul (SPI 097/55), que interligam Caraguatatuba e São Sebastião. O trajeto completo dos contornos, assumido pela concessionária Tamoios em 2021 e inaugurado em etapas até 2024, adicionou mais 10 túneis (cinco de ida e cinco de volta) à paisagem, além de introduzir o moderno sistema de pedágio eletrônico free flow no quilômetro 13,5 do contorno sul.

Tecnologia contra a claustrofobia

A extensão do túnel principal impõe respeito e costuma gerar angústia em quem teme locais fechados. Nas redes sociais, são comuns os relatos de motoristas sobre o medo e a sensação de falta de ar. No entanto, a operação do local é blindada por um dos esquemas de segurança viária mais robustos do país, planejado justamente para mitigar riscos e tranquilizar os usuários.



A engenharia do local previu a construção de túneis paralelos de emergência para as galerias maiores (T5, T3/4 e T1). O T2, por ter apenas 700 metros, não necessita da rota de fuga anexa. Caso ocorra um incidente grave, a evacuação ocorre da seguinte maneira:

No dia a dia, a via conta com uma automação de ponta. Câmeras de detecção automática identificam imediatamente veículos lentos, pedestres e objetos na pista. O monitoramento da qualidade do ar é feito por sensores de monóxido de carbono (CO) e dióxido de nitrogênio (NO2), que acionam os 70 potentes jato-ventiladores instalados no teto, caso haja perda de visibilidade ou excesso de gases.

Além disso, a cada 60 metros, o motorista encontra hidrantes, extintores e botões de emergência. A rodovia também oferece rede Wi-Fi exclusiva para acionamento de socorro pelo aplicativo da empresa.



Fé e vertigem nos bastidores

Construção do maior túnel rodoviário do país foi marco de engenharia - Felipe Samurai

 

Durante os anos de escavação da rocha, a rotina dos profissionais conhecidos como "tuneleiros" misturou tecnologia pesada e muita fé. O fotógrafo Felipe Samurai, morador do litoral norte, acompanhou de perto a evolução dos trabalhos desde 2015 e documentou histórias curiosas que não aparecem nos relatórios técnicos.

Ele descobriu, por exemplo, que os trabalhadores mantinham estátuas de Santa Bárbara, padroeira dos tuneleiros e mineradores, nas entradas e saídas das galerias. Cerimônias religiosas eram promovidas no canteiro de obras, para agradecer cada etapa concluída e pedir proteção a cada explosão de rocha.



Nesse período, ocorreu um episódio inusitado. Um padre foi convidado para celebrar uma missa para os operários no alto da serra. Para evitar o desmatamento de acesso, a chegada ao local era feita por meio de uma máquina de transporte de materiais, semelhante a um teleférico.

O religioso, que tinha muito medo de altura, entrou em pânico durante a subida. Ao fim da celebração, ele recusou terminantemente o caminho de volta pelo ar e preferiu descer a pé, enfrentando uma escadaria improvisada de quase mil degraus no meio da Mata Atlântica.

Até mesmo o nome da rodovia carrega um pedaço da história nacional. A nomenclatura Tamoios foi oficializada por lei em 1978, em referência direta à tribo indígena que habitava a região costeira entre São Paulo e Rio de Janeiro antes da colonização.



O novo gigante da Imigrantes

Apesar de toda a tecnologia e magnitude, o reinado da Tamoios terminará nos próximos anos. Isso porque, um ambicioso projeto do governo estadual, em parceria com a concessionária Ecovias Imigrantes, prevê a construção de uma terceira pista na rodovia dos Imigrantes (SP-160).

O novo trajeto, que conectará o planalto à Baixada Santista, abrigará um túnel de aproximadamente 6km de extensão, projetado para assumir o título absoluto de maior do Brasil.

A obra integra um percurso inédito de 21,4 quilômetros, onde 80% do traçado será composto por galerias escavadas na rocha da Serra do Mar. A pista focará na logística: terá inclinação suave de 4% para facilitar o escoamento de caminhões em direção ao polo industrial de Cubatão e às margens do porto de Santos.



O processo de licenciamento ambiental segue em curso e tem previsão de conclusão para os primeiros meses de 2026, ano em que o Sistema Anchieta-Imigrantes (SAI) completa 50 anos desde a inauguração de sua primeira pista.

Quando a terceira via sair do papel, a capacidade do corredor logístico aumentará em 25% no geral, com um salto de até 145% na fluidez de veículos pesados, o que prepara o estado para a demanda crescente das próximas décadas e reescreve, mais uma vez, a história da engenharia rodoviária nacional.

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