Nunca havia me interessado por Frankestein. Por que, então, resolvi escrever sobre o filme, estrelado por Oscar Isaac e Jacob Elodi, que concorre ao Oscar?
Francisco Neto
Publicado em 20/02/2026, às 13h41
Frankenstein, O Prometeu Moderno, romance da inglesa Mary Shelley publicado em 1818, ganhou sua primeira adaptação para o cinema em 1910, por James Searle Dawley, seguida por dezenas de versões, como Mary Shelley’s Frankenstein, de 1994, com Robert De Niro.
Nunca me interessei por nenhuma delas, mas assisti ao novo filme de Guillermo Del Toro, de 2025, no qual Jacob Elodi interpreta a Criatura, atuação que já lhe rendeu o Critics Choice Awards 2026 e indicações ao Globo de Ouro e ao Oscar.
O que mais me chamou a atenção no romance e no filme é como a Criatura é um ser sem noção de passado ou futuro antes de seu contato com a literatura. Vive um eterno presente, sem narrativa que lhe diga quem é, de onde veio e para onde vai.
Diferentemente de Adão, está fora da linguagem, sendo apenas uma coisa, mais próxima dos animais que dos humanos. No filme, a virada acontece quando ela se esconde na casa do moinho da família de De Lacey e acompanha, pelas frestas, a interação de Anna-Maria com seu avô cego, mediador da leitura tanto para a neta quanto, depois, para a Criatura.
No capítulo VII do romance, a Criatura encontra uma mala com roupas e três livros: Paraíso Perdido, de Milton, V idas Paralelas, de Plutarco, e Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe. Sobre essas leituras, ela expressa: “ter comigo aquelas preciosidades deu-me extremo prazer; passei a estudar continuamente aquelas histórias e a exercitar com elas minha mente”. Prazer, êxtase, melancolia e aprendizado descrevem sua jornada pela literatura.
Essas leituras funcionaram como um banho de humanidade, conferindo sentido à sua existência e despertando consciência de si. Em tempos líquidos, como dizia Zygmunt Bauman, em que as grandes narrativas foram estraçalhadas, as pessoas ficam desorientadas, desbussoladas, para pensar com o psicanalista Jorge Forbes.
Sem bússolas coletivas, a arte, e em particular a literatura, assume esse lugar: cada um pode encontrar respostas singulares para entender sua própria existência e sua humanidade. Pais, professores e todos que se ocupam da formação das novas gerações podem encontrar na literatura uma fonte de humanização integral, como defendia o crítico brasileiro Antonio Cândido, capaz de atender às necessidades profundas da personalidade e desenvolver valores úteis para a sociedade, como a empatia.
O Frankenstein de Guillermo Del Toro amplia o espectro da leitura literária em relação ao romance de Shelley. No cinema, o velho De Lacey alfabetiza a neta e, depois, como uma espécie de mentor, à própria Criatura, selecionando leituras conforme seus interesses e necessidades.
Esse ponto é crucial: não basta que os livros estejam disponíveis — e hoje quase tudo está na palma da mão. O trabalho de mediação será mais importante do que nunca, como destaca Michèle Petit em Somos Animais Poéticos (2024).
Para mim, esse novo Frankenstein, além de excelente filme, traz uma mensagem clara: a literatura amplia a percepção da existência, nossa e dos outros. O impacto da leitura pode ser potencializado pelo trabalho de mediação, ressaltando o papel de quem aposta na capacidade da literatura de ajudar a viver melhor.