Roteiro me despertou uma emoção poética, a de unir obra e poeta. Foi naquela casa em que nasceu, viveu por um tempo, escreveu parte de sua obra e morreu Cora Coralina

Em uma tarde ensolarada de dezembro, próximo ao Natal de 2025, em viagem ao estado de Goiás, visitei, juntamente com minha esposa, Ana Paula, e meus dois filhos, Théo e Ravi, o Museu Casa de Cora Coralina, que fica na cidade de Goiás, também conhecida como Goiás Velho, ou, simplesmente, Cidade de Cora Coralina.
Trata-se de uma cidade que já foi capital do estado, cujo centro histórico é reconhecido pela Unesco como Patrimônio Mundial. Ali nasceu, em 20 de agosto de 1889, Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, a nossa Cora Coralina. É também ali que está sepultada, no cemitério São Miguel, embora tenha falecido em Goiânia, aos 95 anos, em 10 de abril de 1985, em decorrência de complicações de uma pneumonia.
Visitar a casa de Cora me deixou muito emocionado. Era como juntar o que eu já sabia e o afeto que tenho pela poesia da artista com evidências tangíveis de sua existência: a cozinha onde preparava seus famosos doces, que talvez até mesmo o Sumo Pontífice da Igreja Católica tenha conhecido.
Entramos no quarto onde Cora nasceu e no que ela dormiu até o fim da vida. A cama de solteiro permanece lá, com um par de sandálias à sua espera, como se a poeta fosse se levantar a qualquer instante. Há uma bica d’água potável, bem fresquinha, que não resisti - águas poéticas, da fonte Cora Coralina.
Em uma das salas, sua máquina de escrever. O guia explicou que o único curso que Cora fez foi o de datilografia, pois os editores já não aceitavam originais escritos à mão. Esse detalhe me fez refletir: nossa poetisa não recuava diante dos desafios impostos à sua atividade artística, o que nos leva a um quadro na parede de uma outra sala.
Era o trecho de uma carta escrita a Carlos Drummond de Andrade, noticiando que seria honrada com o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal de Goiás. Reconhecia se tratava do efeito do gesto do poeta mineiro, cuja crônica, publicada no Jornal do Brasil, em 27 de dezembro de 1980, apresentava a poeta goiana a todo o Brasil.
Naquela crônica, Drummond dizia que, para ele, Cora Coralina era a pessoa mais importante de Goiás. Mais do que o governador, os parlamentares, ou os homens ricos e influentes do estado. Agora, talvez você se pergunte, como eu me indaguei: como Drummond chegou a conhecer a obra de uma velhinha sem posses, rica apenas de sua poesia e de sua imaginação?

Cora enviou exemplares de seus livros ao que já era, à época, um dos representantes da santíssima trindade da poesia brasileira. Mas que ousadia dessa Cora, não é? Como dizia Geraldo Vandré, quem sabe faz a hora, não espera acontecer.
Perguntei ao guia se a correspondência entre Cora e Drummond estava disponível na internet. Ele não soube responder, mas informou que na casa - composta por dezesseis cômodos, há um, desativado à visitação pública, que guarda a correspondência da poeta, sendo necessário autorização da família para acesso.
Fiquei pensando no prazer que seria poder ler, organizar e publicar todas essas cartas, talvez como parte de uma pesquisa de pós-doutorado. Quem sabe um dia eu não seja contemplado com uma bolsa para tão honrosa empreitada?
Na mesma sala em que está a máquina de escrever, há uma mesinha com dois livros: um dicionário grosso, de capa vermelha, e, ao lado, um exemplar de nada menos que Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa — certamente uma das narrativas mais conhecidas da nossa literatura, mas também uma das mais difíceis.
Davi Arrigucci Jr., professor emérito da Universidade de São Paulo e crítico literário, afirma em seu texto Sertão: mar e rios de histórias que, na leitura desse romance, até grandes leitores às vezes não conseguem ir além das primeiras páginas.
Cora, ao que parece, foi além, ainda que com a ajuda de um dicionário — e por que não? Além de grande poeta, era também uma grande leitora.
Fiquei com imensa vontade de pegar o livro e descobrir o que Cora teria grafado e anotado nas margens - acompanhar sua leitura. Mas logo me dei conta de que estávamos em um museu, e o livro repousava dentro de uma caixa de vidro.
Em outro cômodo, sua estante de livros - que tantos, inclusive quatro volumes de Bernardo Élis. Interessante notar que Cora estudou apenas até a terceira série primária, tendo como única professora a Mestra Silvina, título de um poema seu.
Neste poema, Cora diz que sua mestra era tão pobre, e tão pobre era sua escola. Mas, a partir dali, ela deu voltas ao mundo, criou mundos. Depois, participou de festivas noites de autógrafos, escreveu colunas de jornais e livros e, em tudo isso, estava presente sua escola primária, e sua memória reverenciava sua mestra, cinquenta anos mais velha, cuja paciência e didática abriu o entendimento daquela menina que foi à escola pela primeira vez aos cinco anos e se considerava das mais atrasadas.
Fico pensando: reuni coragem para ler Grande Sertão: veredas apenas depois do doutorado. Pelo que ouvia e pelo que estudava a respeito, achava que não era para mim, que não possuía repertório suficiente para entendê-lo.
Fica disso uma grande lição: literatura não é monumento, e os leitores mais experientes, inclusive os especialistas, deveriam, ao invés de torná-la sagrada, abrir trilhas para os iniciantes e menos experientes.
À noite, durante sua oração, nosso filho mais velho, Théo, com menos de cinco anos, agradeceu a Deus pela irmã Cora. Guardei aquilo no coração. Desejo para meus filhos, alunos, leitoras e leitores que nós, professores, que a escola e a literatura possam, como diz o poema de Cora, conduzir ao mundo, ajudar a criar mundos.
Que os autores, embora às vezes apresentados como mitos, sejam nossos irmãos, como Cora, cuja intimidade nos permita usufruir de toda a sua sabedoria. Como não é possível dizer tudo: que viva a literatura, viva Cora Coralina!