LITERATURA HOJE

2026: você realmente quer o que pediu?

Resoluções de ano novo e o encontro com o desejo à luz de A Terceira Margem do Rio, de Guimarães Rosa

Um feliz encontro é fazer coincidir aquilo que se deseja com aquilo que se quer - CN
Um feliz encontro é fazer coincidir aquilo que se deseja com aquilo que se quer - CN


Resoluções de ano novo. A despedida do ano velho e a saudação do novo geralmente são acompanhadas pelas resoluções, manifestações de vontade que pretendem guiar os passos pelo caminho a ser trilhado no ciclo que se inicia. E você, já fez a sua famosa listinha?

Esse costume, popular em quase todo o mundo ocidental e que remonta à antiguidade babilônica, faz-me lembrar um dos contos mais célebres de João Guimarães Rosa, cuja leitura me foi recomendada, pela primeira vez, por minha analista. O que ela pretendia extrair como saldo analítico, nunca perguntei; mas hoje compartilho a interpretação que construí no divã.

A terceira margem do rio

Em A terceira margem do rio, o narrador é também o protagonista. A narrativa apresenta uma família composta por pai, mãe e três filhos. Certo dia, o patriarca abandona o convívio doméstico e, sem oferecer explicação, passa a habitar uma canoa no rio — para baixo e para cima — o que dá nome à narrativa. De início, o fato gera choque e atrai até a atenção da mídia, tornando-se a pauta do dia.



Com o tempo, porém, o evento cai no esquecimento. A família supera a ausência e segue a vida: todos partem da cidade – a mãe vai morar com a filha para ajudar com o primeiro neto. O protagonista, contudo, é o único que permanece, empenhando a vida em acompanhar o pai, que jamais responde aos apelos para que desista daquela jornada que mais parece loucura.

Pedido da boca para fora

O filho levava comida e roupas, deixando-as na margem do rio. Também insistia: pai, você já está velho, já cumpriu sua missão. Agora vem, e eu tomo o seu lugar na canoa. Um dia, finalmente, o homem acenou, consentindo com o pedido.

O filho sentiu os cabelos se arrepiarem e tremeu de medo; correu, fugiu dali e o velho nunca mais foi visto. O protagonista, ao final da história já um homem adulto, segue a existência carregando uma montanha de culpa. Deseja que, ao morrer, o coloquem também em uma canoa a deslizar pelo rio. Seria essa uma maneira de honrar a palavra e dar peso àquele antigo pedido?



O desejo não admite covardia

Quando penso nessa narrativa, sempre me ocorre a covardia do personagem-narrador frente ao próprio desejo, e o quanto é difícil sustentar uma palavra empenhada. Ele desperdiçou anos pedindo algo que, quando atendido, revelou ser apenas da boca para fora.

Não havia ali um desejo decidido, como diria o psicanalista Jacques Lacan. Para o filho, aquela situação, por mais dolorosa que fosse, havia se tornado cômoda: insistir com o pai era uma boa razão para não seguir em frente, como o restante da família fizera.

Quem poderia duvidar de suas nobres intenções? De que era um homem bom? Por outro lado, quando o sim veio, ele amarelou, evidenciando que seu pedido não era uma expressão justa de suas convicções mais íntimas.



Na verdade, como aponta o psicanalista Jorge Forbes, em seu livro Você quer o que deseja?, é mais comum do que imaginamos alguém querer o que não deseja e desejar o que não quer. Isso significa que, conscientemente, a pessoa expressa uma coisa, mas inconscientemente busca outra.

Que tremendo desencontro! Um feliz encontro, diria Forbes, é fazer coincidir aquilo que se deseja com aquilo que se quer — o que, naturalmente, exige muita coragem.

Você realmente quer o que pediu?

Para muitos, as resoluções de ano novo colocam-se apenas como um ritual de significado vazio, seguido por força da tradição – todo mundo faz, então não posso ficar de fora. Porém, para outros, é uma maneira de calibrar projetos fundamentais com o desejo mais íntimo.



Vale, contudo, uma ressalva: alinhar projetos e desejos não significa engessar o futuro em roteiros petrificantes. Como diria o poeta Stéphane Mallarmé, nenhum lance de dados pode abolir as surpresas da vida. Afinal, boa parte de nossa felicidade reside exatamente aí.

O importante é que possamos responder, querpor meio de uma resolução, quer pela leitura de um conto:naquilo que eu peço, há realmente algo do meu desejo?

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