O poema Branco, de Adélia Prado, em O Jardim das Oliveiras, revela a felicidade como conquista de quem suporta a surpresa e o encontro com o desejo
Francisco Neto
Publicado em 06/03/2026, às 16h21
Acabo de ler o Jardim das Oliveiras, o novo livro de Adélia Prado, a maior poetisa brasileira ainda viva. Sob o impacto da leitura, ainda penso em maneiras de resenhar a obra sobre a qual fiquei com imensa vontade de escrever sobre quase todos os poemas. Como não é possível, escolhi apenas um, transcrito na íntegra, antes de qualquer comentário.
BRANCO
Como em campos de arroz nos alagados,
assim brotam os lírios.
De bruços observávamos alguns já floridos,
a carola exposta sobre a linha d’água.
Nossos ombros tocando-se,
o que acontecia tinha um nome só: brancura.
Dos lírios falo, não de sua espécie, pra não tornar alvacento
o que era branco só, branco puro.
Perguntaram-me do homem:
‘É Jonathan?’
É, respondi.
‘É Jesus?’
É, respondi também, convicta, sem entender.
Felicidade não é palavra humana.
Só em sonhos a suportamos.
A sabedoria do poema sobre a nossa humanidade é desconcertante. O penúltimo verso diz que a felicidade não é palavra humana, o que parece contraintuitivo. Afinal, o que todos nós queremos, como finalidade e intenção da vida?
Segundo Sigmund Freud, no seu ensaio O mal-estar na civilização, é fácil acertar a resposta: todos querem se tornar e permanecer felizes. Será que a poetisa e o psicanalista estariam em desacordo?
O poema retrata dois parceiros à beira de um lago. Estavam de bruços e seus ombros se tocavam. A paisagem de lírios e o corpo d’água conferem um tom lírico à cena, que aos olhos de um observador poderia ser banal, prosaica. Porém, para o eu lírico, foi um momento divino, um sonho, uma felicidade.
A própria voz no poema retira o foco dos lírios que comparecem, na verdade, para dar corpo e beleza ao cenário. Deseja falar, de fato, é sobre o homem: Jonathan e/ou Jesus.
A cena do poema, porém, remeteria a algum acontecimento ou estaria, ao contrário, o eu lírico sonhando? Para a Psicanálise, tanto faz, não importa. A felicidade, no final das contas, quando acontece, é sempre como um sonho.
Freud diria que ela incide como uma fratura no mornidão do bem-estar cotidiano, da infelicidade ordinária ou até mesmo do sofrimento. Traduz-se em momentos, nunca em estado perene. Além disso, ela somente pode ser constada ao depois e não no durante.
É como diz o ditado: eu era feliz e não sabia. O não saber, no poema, é indicado no antepenúltimo verso: É, respondi também, convicta, sem entender.
Convicção é filha da paixão, não da razão, daí por que, para se viver momentos felizes, como diz o psicanalista brasileiro Jorge Forbes, em seu texto Felicidade não é bem que se mereça, é preciso uma boa dose de ousadia e coragem.
Em um mundo onde quase tudo já está roteirizado e catalogado, e a felicidade pronta para ser servida ou embrulhada para viagem, é preciso coragem e ousadia para se renunciar às expectativas standards e se permitir a surpresa, o acaso, o ocaso e apreciar o florir dos lírios e o tocar de ombro com a parceria.
Para quem se autoriza a esses pequenos sonhos acordados, ou sonhar dormindo, o divino pode tocar a existência humana e a felicidade, de repente, acontecer.
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