Borboletas dão alerta sobre efeitos do aquecimento global; entenda

Estudo com cerca de 1.700 espécies de borboletas em 105 países aponta deslocamento para regiões de temperaturas mais amenas

Lenildo Silva
Publicado em 31/08/2026, às 09h00

Resultados revelam resposta direta das espécies às condições ambientais - Thomas Henry/CN


Embora ainda haja pessoas que desacreditam do aquecimento global e atribuam as mudanças climáticas apenas a eventos cíclicos, o mundo animal mostra sinais concretos de como o aumento das temperaturas pode afetar os ecossistemas.

Entre esses indicadores estão as borboletas, que têm se deslocado de regiões mais quentes para áreas de clima mais ameno.

Estudo que analisou cerca de 1.700 espécies em 105 países identificou esse movimento em diferentes partes do planeta. O levantamento reuniu informações de aproximadamente 500 estudos anteriores e, segundo José Eli da Veiga, professor sênior do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP), é o maior trabalho já feito sobre borboletas.



Os resultados revelam resposta direta das espécies às condições ambientais. Conforme as temperaturas sobem, populações de borboletas buscam ambientes menos hostis e avançam em direção a regiões mais frescas.

O comportamento ajuda cientistas a compreender como o aquecimento global pode redesenhar a distribuição da biodiversidade.

E o que evidentemente mais fica claro é que elas estão numa velocidade difícil de mensurar, estão migrando para ambientes menos hostis, principalmente em termos de temperatura, quer dizer, das áreas mais quentes para áreas mais amenas, em termos de clima”, explicou Veiga.

Pequenas sentinelas do clima

Acervo de coleções de borboletas no Muzeu de Zoologia - Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

Borboletas são particularmente úteis para observar alterações ambientais porque respondem às condições de temperatura e às características dos habitats. Nesse sentido, o deslocamento registrado pelo estudo ultrapassa a curiosidade sobre esses insetos e ajuda a dimensionar mudanças que podem atingir outras formas de vida.



Para Veiga, o levantamento deve provocar reflexão justamente por esse motivo. O que ocorre com as borboletas pode antecipar transformações mais amplas nos ecossistemas, à medida que espécies precisam encontrar condições adequadas para sobreviver diante de temperaturas mais elevadas.

O problema tampouco termina na natureza. Ondas de calor, incêndios e outros eventos extremos já produzem consequências para populações humanas. Segundo o professor, algumas regiões começam inclusive a discutir os impactos climáticos sobre a escolha de locais para moradia e férias.

Do meio ambiente ao mercado imobiliário

Veiga cita o verão europeu de 2026 como exemplo. Períodos prolongados de calor extremo, conhecidos como canículas, e incêndios provocaram discussões sobre a localização das chamadas segundas residências, imóveis utilizados principalmente durante as férias.



E isso já afeta até o mercado imobiliário em algumas dessas regiões, principalmente nos países onde esses fenômenos foram mais sérios”, afirmou.

O pesquisador também chama atenção para cenário ainda mais amplo. Estudos sobre o aquecimento da Terra apontam que determinadas regiões hoje ocupadas por seres humanos poderão enfrentar condições incompatíveis com a permanência das populações no futuro, embora não seja possível determinar com precisão quando e onde isso ocorrerá. “É difícil saber quando e onde, mas é mais ou menos claro que isso vai acontecer”, alertou Veiga.

O movimento das borboletas, portanto, funciona como pequeno retrato de fenômeno de escala planetária. Ao procurar lugares mais frescos para sobreviver, esses insetos ajudam a mostrar, na prática, como alterações no clima podem mudar habitats, reorganizar ecossistemas e transformar também a vida humana.

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