Quinto capítulo do documentário ‘Descobrindo o Litoral’ será lançado no dia 29 de julho e apresenta novos olhares sobre o município

A história e as belezas naturais de Bertioga, litoral de São Paulo, ganham destaque no quinto episódio da série documental Descobrindo o Litoral: Revelando o Paraíso Paulista. A obra, com exibição inédita marcada para a próxima quarta-feira (29), pela TV Cultura Litoral, convida o público para uma imersão nas raízes do Brasil.
A produção explora desde a preservação do Forte São João e as tradições indígenas até o crescimento urbano, a força da cultura local e o desafio de equilibrar desenvolvimento e sustentabilidade.
O episódio reúne vozes de moradores, historiadores, lideranças indígenas, gestores públicos e promotores culturais. De forma unânime, os relatos apontam que Bertioga atua não apenas como um reduto de biodiversidade, mas como um museu a céu aberto.
A relevância histórica do município conduz os primeiros momentos do documentário. Um dos moradores entrevistados relembra os marcos coloniais da cidade, associados aos primeiros passos da colonização no país.
O empresário e apresentador Ribas Zaidan explica: "O berço da história do Brasil partiu daqui. Aqui, Anchieta rezava a missa na Ermida de Guaibê. Daqui saiu Estácio de Sá para fundar o Rio de Janeiro, a esquadra dele. Daqui, Martim Afonso saiu pelo canal, foi fundar São Vicente"; ele também destaca a importância do Forte São João, a primeira fortaleza militar do Brasil.
O passado econômico inusitado da região está registrado na obra. O pesquisador Cadu de Castro relata o funcionamento de uma antiga estrutura no período colonial: "Aqui, nos meados do século XVIII, se instalou uma armação de baleias, que era uma fábrica rústica, onde se produzia o óleo de baleia, usado principalmente para iluminação pública. O óleo era levado para Santos e de lá era distribuído para as outras cidades e, muitas vezes, exportado".
A fábrica operou por cerca de 50 anos até o declínio da produção no início do século XIX, mas deixou marcas na memória material do município.
A conexão com o meio ambiente e a proteção do território pautam as falas dos líderes indígenas da região. Para eles, a natureza e as tradições andam juntas. Jucimara-Para Poty, representante da comunidade da aldeia Rio Silveira, destaca a espiritualidade que envolve o trato com a terra.
A ligação que a gente tem, principalmente com a Terra, é desde muito pequeno. A gente ensina para as crianças hoje em dia a importância que isso tem. Toda noite a gente vai para nossa casa de reza, que na língua guarani a gente chama de opã. Lá a gente se reúne para pedir pela mata, pela água. Tem sim um espírito protetor da floresta, da água, que a gente chama de Kagulja", explica Jucimara.
Já o cacique da aldeia, Mauro Awá, reforça a importância de eventos como o Festival da Cultura Indígena para quebrar barreiras sociais: "A importância desse festival é mostrar a nossa cultura, mostrar a nossa diferença, para que o mundo lá fora conheça e respeite, porque o indígena hoje é muito criticado e às vezes é até discriminado. Para que a população não indígena tenha o conhecimento, é onde a gente mostra nossa cultura, nossa dança, nossa fala, nossa comida".
O cacique ainda deixa um alerta sobre a depredação ambiental e os extremos climáticos: "Os peixinhos, o rio, a madeira não conseguem gritar 'por favor, não me corte'. Se o povo indígena e o povo branco fizessem uma união única, a gente conseguiria viver num mundo melhor".
A vida cultural de Bertioga pulsa por meio de iniciativas locais. O documentário resgata a criação do cineclube Buriquioca em 2008, que transformou a dinâmica da cidade ao promover exibições de filmes, exposições de artes e música para a comunidade.
Buriqui quer dizer macaco, que é o morro da Senhorinha, que era onde moravam os macacos. Já Ioca significa morada. Então Buriquioca, morada dos macacos", explica Daysi Camargo Cruz, uma das fundadoras do projeto e integrante do Coletivo Cultura - Quintal Cultural.
Ela ainda destaca que a iniciativa ocupou espaços públicos e engajou moradores de forma gratuita ao longo dos anos. "O que a cultura precisa é de gente que tem a cabeça aberta e força de vontade para mudar o que pode ser mudado" pontua.
O papel educativo também ganha ênfase por meio da atuação do Sesc Bertioga. A animadora cultural da unidade, Marcela Oliveira Fonseca, aponta que as ações sociais se intensificaram na última década, com parcerias voltadas à educação não formal. "Para daqui a dez anos, eu vejo uma cidade bem literária, só que partindo das comunidades. Eu imagino festivais literários nas periferias de Bertioga", projeta.
A emancipação político-administrativa do município, oficializada em 19 de maio de 1991, atua como um divisor de águas na narrativa urbana. Desde então, a cidade passou de uma vila com foco na atividade pesqueira artesanal para um dos metros quadrados mais valorizados do litoral paulista.
Atualmente, os desafios focam em manter o crescimento sob a ótica da sustentabilidade. Marcelo Vilares, prefeito de Bertioga, diz: "A cidade vem se desenvolvendo desse choque de gestão de infraestrutura urbana, ao mesmo tempo com a responsabilidade da sustentabilidade. Vejo a cidade aquecida na sua economia, com as suas riquezas e belezas naturais preservadas, e o bertioguense no mercado de trabalho, dentro do ecoturismo".
O projeto cultural e documental Descobrindo o Litoral: Revelando a Identidade do Litoral Paulista percorre a Baixada Santista e o litoral norte para valorizar as riquezas naturais e históricas da região. A obra é uma iniciativa da Associação Comunitária Centro de Tradições Nordestinas (ACCTN) com apoio do governo do estado de São Paulo (Cult SP).
A série conta com nove episódios, de 30 minutos cada. Na TV aberta, a exibição ocorre pela TV Cultura Litoral (TVCL), de terça a quinta-feira, sempre no horário das 22h30 às 23 horas.