MATA DEVASTADA

'Situação desesperadora': moradores relatam como foi enfrentar incêndio na Prainha Branca

Defesa Civil de Guarujá voltou ao local esta semana; fogo destruiu 3 mil m² de mata em dia marcado por calor intenso, seguido de ventos de 120km/h

Defesa Civil volta à Prainha Branca após incêndio que destruiu 3 mil m² de mata
Três pontos da mata foram atingidos pelas chamas - Eleni Nogueira / CN


Moradores da Prainha Branca, em Guarujá, no litoral de São Paulo, ainda sentem os efeitos do incêndio que devastou mais de 3 mil m² de área de mata nativa, há 12 dias. O fogo se espalhou em três pontos da trilha de acesso à última praia da cidade, na manhã de sábado (22), e mobilizou a comunidade em apoio aos bombeiros e a Defesa Civil, que voltou à comunidade nesta semana para avaliar o local da queimada.

O incêndio ocorreu em três etapas: a primeira área consumida pelas chamas foi de aproximadamente 250 metros quadrados, as chamas chegaram a ser controladas, mas o segundo foco destruiu mais 100 metros quadrados, enquanto o terceiro, mais próximo da trilha e de maior impacto, alcançou 3 mil metros quadrados.

De acordo com a Defesa Civil de Guarujá, não foi possível identificar a causa do incêndio. No entanto, a pasta afirmou que devido à vegetação seca no dia do ocorrido e ao alto fluxo de turistas no local, existem possibilidades de o incêndio ter sido acidental.



Apesar da gravidade, não houve grandes registros de prejuízos à fauna local. Os danos ficaram restritos à vegetação, considerada área de preservação ambiental, o que reforçou a preocupação dos moradores com a possibilidade de novas ocorrências.

Relatos de moradores

A administradora Karen Alves Corrêa, de 21 anos, contou que o incêndio teve início por volta das 11h da manhã, na trilha  que dá acesso à Prainha Branca, próximo a um poste de energia. Ela contou que a comunidade precisou agir rapidamente no primeiro foco. "Estávamos em poucas pessoas no início, mas, com muito esforço, conseguimos controlar o fogo por volta das 14h", afirmou.

Karen, que também atua como conselheira da Sociedade Amigos da Prainha Branca (SAPB), destacou que os bombeiros chegaram ao local somente após o fogo ser contido pelos moradores. “Quando chegaram, a situação já estava sob controle e acabaram indo embora. Pouco depois, um novo foco surgiu e tivemos que agir de novo", relatou Karen.



O combate ao segundo incêndio ocorreu na trilha de cima, onde o acesso à água é restrito. "Tivemos que buscar baldes nas casas mais próximas [cerca de 800m] e levar até o local, enquanto outros usavam abafadores improvisados", acrescentou a jovem.

A técnica de enfermagem Adriana Celestino, de 49 anos, também ajudou na mobilização. Segundo ela, a comunidade inteira se movimentou; ela conta que solicitou ajuda da Defesa Civil de Bertioga enquanto outros moradores tentavam conter o fogo. "Foi uma situação desesperadora, porque o vento aumentava as chamas", relembrou.

Incêndio que devastou mais de 3 mil m² de mata - Foto: Eleni Nogueira
Moradores atuaram no combate ao fogo na Prainha Branca - Reprodução/prainha_brancaofocial
Chamas foram contidas definitivamente às 23h32 - Reprodução/prainha_brancaoficial
Defesa Civil avaliou o local da queimada - Foto: Defesa Civil Guarujá



Claudenice de Oliveira, ex-presidente da SAPB e atual secretária da associação, explicou que os focos de incêndio começaram no início da semana, de forma isolada ao longo da trilha, mas, no fim de semana, foi que devastou mais. "No sábado, o fogo ganhou proporções maiores, principalmente na trilha de baixo. A preocupação era que se alastrasse até as primeiras casas”, disse.

Ela acrescentou que o cenário foi de medo, mas também de união. "As famílias ficaram assustadas, porque ninguém sabia se o fogo iria chegar às moradias. Mas ninguém ficou parado, cada um ajudou como pôde, fosse trazendo água, apagando as chamas ou organizando a comunidade".

A ex-presidente também ressaltou a falta de estrutura para lidar com emergências ambientais. "Nós não temos equipamentos adequados para combater incêndios, dependemos de improviso e coragem. Se o vento tivesse mudado de direção, poderíamos ter perdido muito mais", afirmou.



O filho de Claudenice, Jonas Almeida, de 20 anos, relatou a dificuldade física no combate. "A gente entrou na mata sem equipamentos, só com baldes e abafadores. Muita gente se machucou, mas ninguém pensou em parar. Era como defender a própria casa", declarou.

Chamas controladas

Os moradores conseguiram controlar parte das chamas do segundo foco, por volta das 21h30, antes da chegada dos bombeiros, que retornaram no fim da noite para conter focos restantes. Além dos moradores e bombeiros, a Defesa Civil de Bertioga também auxiliou no combate às chamas. Um terceiro incêndio foi apagado por moradores definitivamente às 23h30, após reacender uma hora antes. 

O terceiro incêndio foi apagado definitivamente às 23h32 - Foto: Eleni Nogueira
Bombeiros e Defesa Civil de Bertioga em ação durante os trabalhos no segundo foco de incêndio - Foto: Eleni Nogueira



O portal Costa Norte tentou, desde a segunda-feira (25), obter informações oficiais do Corpo de Bombeiros sobre o incêndio na Prainha Branca, questionando detalhes como o horário do primeiro chamado, quantidade de equipes enviadas, duração do combate, extensão da área atingida, possíveis causas e a estratégia utilizada diante da falta de acesso para viaturas.

Também foram solicitadas orientações para a população em situações semelhantes, incluindo os procedimentos corretos até a chegada dos bombeiros, os riscos e a eficácia do uso de baldes de água, além de recomendações de prevenção durante a estiagem e de como agir ao identificar focos de fogo em áreas de mata, mas até o momento não houve retorno da corporação.

Cenário climático

O incêndio ocorreu em meio a um cenário climático adverso. Naquele sábado, o calor elevou os termômetros acima dos 30 graus ainda pela manhã e foi o dia mais quente do inverno devido ao veranico. A umidade relativa do ar caiu para 19%, nível classificado como estado de alerta pela Organização Mundial da Saúde.



Horas depois, o clima virou de forma brusca. O sensor da Praticagem do Porto de Santos registrou uma rajada de vento de 121 km/h às 23h54; houve queda de árvores em Santos, e  paralisação da travessia de balsas no litoral norte devido aos fortes ventos.

No início desta semana, a Defesa Civil de Guarujá esteve novamente na Prainha Branca para avaliar os danos e instalar placas de alerta sobre chuvas fortes, tromba d’água e prevenção contra incêndios.

Mais bombeiros

O incêndio na Prainha Branca expôs a falta de estrutura para resposta em áreas de preservação ambiental e destacou a união dos moradores diante da emergência. Claudenice ressaltou que o episódio mostrou a força coletiva: "Somos guerreiros, lutamos pelo nosso território. Essa experiência mostrou que nossa comunidade é unida e isso é uma honra para nós da Prainha Branca".



Na Câmara Municipal de Guarujá, durante a 24ª Sessão Ordinária, a vereadora Michele Freitas (PSB) apresentou uma indicação que reforça a necessidade de ampliar o efetivo do Corpo de Bombeiros.

Ao apresentar o documento, a vereadora afirmou que, no incêndio, quatro bombeiros estavam de plantão, e apenas dois conseguiram chegar até a comunidade, e que a população conteve as chamas por mais de 11 horas.

A parlamentar destacou ainda  a distância e a carência de urgência de medidas para proteger moradores e turistas em situações semelhantes. "A cidade do Guarujá grita pela necessidade urgente de mais bombeiros", afirmou Michele, elogiando a coragem da comunidade que, mesmo despreparada e sem equipamentos, conseguiu conter o fogo e evitar que ele alcançasse as casas.



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