Investigação aponta cultura de omissão na companhia aérea; aeronave que caiu no interior paulista decolou com falhas no sistema de degelo

A Polícia Federal (PF) indiciou, na quinta-feira (6), 16 pessoas por envolvimento na queda do avião da Voepass Linhas Aéreas, em Vinhedo (SP), ocorrida em agosto de 2024.
Todos os investigados têm ligação com a companhia, incluindo o presidente da empresa. A queda do turboélice ATR 72-500 deixou 62 mortos, sem sobreviventes. Uma das vítimas era de Ubatuba, no litoral de São Paulo.
A Justiça Federal determinou que os indiciados não podem deixar o país e devem retornar ao Brasil caso estejam no exterior. O Ministério Público Federal (MPF) analisa o inquérito para decidir quem receberá denúncia formal.
Segundo a PF, 15 pessoas respondem pelo crime de atentado contra a segurança do transporte aéreo e uma — o comandante do voo da madrugada, que pilotou anteriormente o avião em que ocorreu a queda — por falsidade ideológica.
Entre os indiciados pelo crime contra a segurança do transporte aéreo estão o diretor-presidente da Voepass, diretores de manutenção e operações, o mecânico acusado de omitir manutenção e o comandante do voo anterior, que teria entregado a aeronave sem relatar falhas.
As penas variam de quatro a 12 anos de prisão, podendo dobrar (de oito a 24 anos) em razão do resultado com mortes.
A corporação pediu à Justiça autorização para compartilhar os dados com a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e com a Procuradoria da República no Distrito Federal. O objetivo é apurar possíveis falhas administrativas de fiscalização.
O delegado-chefe da Polícia Federal em Campinas, André Ribeiro, destacou o cenário encontrado nas investigações: “Nossa equipe analisou dezenas de processos de fiscalização da Anac e se pode perceber que havia ali [na Voepass] uma cultura realmente de omissão e que não era uma cultura de quem estava ali na ponta, no dia a dia do mecânico da pista, não, era uma cultura de uma omissão implementada na empresa”.
De acordo com as investigações, o avião não tinha condições técnicas para voar sob formação de gelo severo e precipitações. Equipamentos essenciais, como o sistema de degelo e o limpador de para-brisas, estavam inoperantes. Mesmo com as falhas, a empresa autorizou a decolagem.
Durante o trajeto, o sistema de segurança alertou os pilotos gradativamente sobre a piora nas condições climáticas. Contudo, a PF aponta que a tripulação ignorou os avisos sonoros e o alerta visual de emergência (master caution).
A polícia também descobriu que a aeronave apresentou problemas semelhantes em viagens anteriores. Orientados pela chefia, os pilotos omitiam as falhas nos relatórios para evitar que a aeronave fosse impedida de continuar voando.
* Com informações da Agência Brasil