Cerimônia afro acabou interrompida após discussão com padre, na qual a vítima relata agressão racial e física; paróquia nega insultos

Um padre da paróquia Nossa Senhora das Graças, em Praia Grande, virou alvo de inquérito policial ao ser acusado de agressões raciais e físicas, depois de invadir ritual afro no cemitério Morada da Grande Planície e interromper ritual de matriz africana por causa do horário destinado ao espaço.
O episódio ocorreu durante celebração anterior à missa católica, em cronograma fixado pela prefeitura no dia de Finados, celebrado em 2 de novembro. O líder afro Leandro Oliveira Rocha, de 44 anos, relatou que o padre entrou no local, exigiu o encerramento da cerimônia e o insultou diante dos participantes que acompanhavam o ritual.
Segundo a vítima, o sacerdote pressionou o grupo a deixar o espaço religioso e provocou tumulto ao usar expressões racistas na tentativa de apressar a saída dos praticantes da fé afro. Ele afirma que também existiu agressão física contra a mulher dele, que filmava o momento.
A Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que o boletim de ocorrência foi registrado em delegacia da cidade do dia 10 de novembro e que a Polícia Civil instaurou inquérito e aguarda oitivas e análise de vídeos, para verificar se houve intolerância religiosa ou injúria racial.
Segundo o boletim de ocorrência, testemunhas afirmaram que o conflito começou quando o padre exigiu a liberação do espaço antes do término da cerimônia afro. Elas confirmam que o horário entre as instituições costuma ser rígido e supervisionado pela administração municipal.
Em nota à imprensa, a paróquia Nossa Senhora das Graças afirmou que a escala de horários no cemitério é definida pela prefeitura, com períodos de 60 minutos para cada instituição. A igreja disse que a celebração afro ultrapassou o limite de 15h30, o que motivou o padre a solicitar a conclusão do rito para preparar a missa das 16 horas.
Segundo a paróquia, o sacerdote entrou no local apenas para iniciar a preparação da missa e, em suas palavras, "permaneceu em silêncio durante todo o tempo, sem dirigir-se a qualquer pessoa".
A instituição negou qualquer ofensa e afirmou repudiar discriminação, intolerância e violência. A paróquia disse, ainda, confiar na investigação e reiterou compromisso com respeito e dignidade de todas as pessoas, independentemente de crença ou origem.
O inquérito segue em andamento e novas testemunhas serão ouvidas pela Polícia Civil. A reportagem não localizou o padre ou seus representantes legais. O espaço segue aberto caso queiram se manifestar sobre o caso.