BOM PRA CACHORRO

Conheça a vira-lata que detecta sangue humano e se tornou 'perita' da Polícia Científica de SP

Encontrada na rua em grave estado de desnutrição, cadela Savana passou por treinamento para trabalhar em investigações de crimes contra a vida


Redação
Publicado em 22/07/2025, às 14h28

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Cadela Savana
Savana demonstrou muita disposição em aprender, sociabilidade e um faro refinado - SSP-SP


Detectar manchas de sangue humano, não visíveis a olho nu, ou quando houve tentativa de remoção do vestígio de uma cena de crime, não é tarefa das mais simples. Mas, a Polícia Científica do estado de São Paulo conta em seus quadros com dois ‘peritos’ no assunto. E um deles é a perita Savana, que tem uma história emocionante de superação.

Na verdade, Savana é uma cadela vira-lata. Quando ainda era filhote, foi encontrada abandonada próximo à casa de João Henrique Machado, em São José dos Campos, no Vale do Paraíba. O perito criminal resgatou a peludinha em grave estado de desnutrição. Durante o tratamento para que ela pudesse ser entregue a um programa de adoção, o policial descobriu que Savana tinha algo especial, que fez com que os dois se tornassem parceiros de vida.

Com muita disposição em aprender, sociabilidade e um faro refinado, Savana se tornou o 2º cão perito da Polícia Científica de São Paulo e auxilia na elucidação de casos de crimes contra a vida. A vira-lata  desenvolveu essa habilidade “imitando” Mani, o primeiro cachorro que integra a equipe de peritos da Polícia Científica paulista. Os dois ficam à disposição do Instituto de Criminalística de São José dos Campos, onde Machado trabalha há cinco anos na perícia de crimes; ele  realiza a biodetecção de vestígios biológicos com o uso de cães. 



“Para eles, o trabalho é uma grande brincadeira. Os dois se divertem juntos e competem para ver quem acha o vestígio primeiro”, contou o perito.

Treinamento

Cadela Savana
Savana se tornou o 2º cão perito da Polícia Científica de São Paulo - SSP-SP

Savana foi preparada para atuar em casos importantes de maneira independente. Com dois anos de treinamento e aprovada  nos testes internos, Machado aperfeiçoou o animal para contribuir com máxima eficiência nos laudos da perícia. Para isso, são realizados testes frequentes e em horários variados, para não criar  rotina, já que o acionamento pode ser feito a qualquer momento. 



Há atividades de obediência, recreação e detecção, que são realizadas em ambientes abertos e fechados na tentativa de reproduzir os locais que comumente são encontrados na perícia criminal — veículos, áreas com grandes extensões como sítios e peças de roupas, por exemplo.

Com toda a experiência adquirida nos testes, até aqui, o tutor dos animais comentou que já foi possível encontrar material biológico de até um ano do crime: “O Mani já descobriu manchas de sangue latente em um veículo, de seis meses e, em uma camiseta, após um ano. Mas isso depende de vários fatores, de como aquele material se preservou em meio ao processo de degradação”, explicou o policial.

Menos custo e mais precisão

Segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), a utilização de cães como  ferramenta de perícia é um projeto pioneiro no Brasil. Além de ter um custo mais barato para a polícia, tem demonstrado ser uma técnica mais precisa na descoberta de sangue humano no cenário do crime.



Geralmente, para descobrir algum vestígio de sangue latente, os peritos criminais utilizam o luminol, um produto químico que reage com o ferro do sangue e emite  luz fluorescente. Porém, em amostras diluídas, ou em áreas muito iluminadas e extensas, o reagente não produz o efeito desejado — além de ser um produto de alto custo.

Cadela Savana
Utilização de cães como  ferramenta de perícia tem se mostrado mais precisa - SSP-SP

“Nas grandes áreas, gasta-se muito luminol para encontrar um vestígio de sangue, que pode não ser de humano, já que o produto não faz essa separação. Já o cão é treinado para detectar apenas esse tipo de sangue. Então quando ele aponta um local, dá a certeza ao perito de que aquela área deve ser melhor trabalhada”, explicou o policial.



Para ele, a olfação dos cachorros melhora a sensibilidade e a qualidade dos exames periciais, uma vez que diminui o índice de perdas de amostras, que podem ser fundamentais na resolução de um caso. O indício apontado pelos cães, com o uso de produtos químicos, ajuda o perito a concluir se a amostra deve ser levada ao laboratório para exames complementares.

E é assim, indo para um lado e para o outro, que Savana sai à caça dos vestígios para ganhar a sua bola de borracha de recompensa. Quando encontra, a cachorra senta ou deita em frente à amostra, indicando o material a ser analisado. “O grande diferencial é o trabalho em cima das amostras que a gente usa. Então tem todo o detalhe para que o cão não vicie no mesmo tipo sanguíneo e mesmo material, já que o sangue de hoje não é o mesmo daqui 30 dias. Os cachorros são treinados para lidar com essas nuances”, observou Machado.

Parceria de vida

Os quatro anos que já passaram juntos tornaram Savana e Machado uma dupla inseparável. O perito comentou que desenvolveu uma relação quase que de dependência com o animal. “Sinto muitas saudades quando não vejo ela. A gente fala que os cães ficam ansiosos quando se separam, mas eu  é que fico com ansiedade quando estou longe dela”, brincou.



Para o futuro, a ideia do perito é que cada núcleo da Polícia Científica de São Paulo tenha o seu próprio cão para apoiar as equipes locais de campo. Mas não é qualquer animal que pode ser incorporado na profissão.

Machado observa as habilidades extras dos caninos, como foco, determinação, socialização, alto nível de energia e vontade de fazer as mesmas coisas que um cão perito faz. Cães muito agressivos ou muito grandes são evitados. As buscas geralmente são feitas nos canis dos municípios.

Cadela Savana
Savana sai à caça dos vestígios para ganhar a sua bola de borracha de recompensa - SSP-SP



O policial é formado em medicina veterinária e, atualmente, desenvolve um projeto de mestrado na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) de São José dos Campos, para elaborar o protocolo de treinamento e utilização de cães pela Polícia Científica. “A visão do humano, mais a olfação do cão, com a ajuda da ciência, cria um superdepartamento de perícia. Essa mistura de habilidades tem o objetivo de aumentar cada vez mais o índice de resolução criminal do estado de São Paulo”. 

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