Substâncias químicas desalojam os animais e estimulam a reprodução sem acasalamento; órgão paulista divulga guia de prevenção em residências

Com o aumento na frequência de acidentes causados por escorpiões no Brasil, torna-se necessário adotar medidas para evitar a proliferação desses animais. A Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES-SP) orienta que a população busque atendimento médico imediato em caso de picadas, mesmo se a vítima não visualizar o aracnídeo.
Os animais possuem alta adaptação ao ambiente urbano, onde encontram farta disponibilidade de alimentos, como baratas, além de água e abrigo. Eles habitam locais escuros e acessam as residências por meio de ralos, calhas, tubulações e caixas de fiação desprovidas de vedação. Prédios residenciais também registram a presença do bicho, inclusive nos andares mais altos, pois o aracnídeo escala superfícies irregulares.
Os escorpiões costumam se esconder próximos às habitações, em terrenos baldios, construções velhas, entulhos, pilhas de madeira ou lenha, tijolos, mato e lixo, além de saídas de esgoto e ralos. Para auxiliar os moradores, a secretaria disponibiliza uma Cartilha de Orientação de Manejo Ambiental para Prevenção e Controle de Escorpiões.
A exclusão de abrigos exige a higienização constante dos imóveis, tanto em casas quanto em apartamentos. Frestas no chão ou nas paredes servem de esconderijo, assim como roupas sujas ou molhadas deixadas no piso. Como os animais possuem hábitos noturnos, a visualização durante o dia torna-se rara.
Segue a lista com as dicas práticas para evitar o aparecimento de escorpiões nas residências:
Não existem espécies de plantas capazes de repelir esses animais. Vegetais como alecrim, arruda, lavanda e citronela carecem de comprovação científica de eficácia contra os aracnídeos, que habitam desde desertos até florestas úmidas.
A única relação comprovada pela ciência entre escorpiões e vegetação envolve a espécie Tityus neglectus, que habita em bromélias na região Nordeste, para aproveitar a água acumulada e consumir pequenos insetos. Esse animal, contudo, não possui importância médica e não provoca acidentes graves em humanos.
Nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, os escorpiões surgem com maior frequência nos meses de temperaturas elevadas, no período que compreende os meses de setembro a fevereiro. Já os estados do Norte e Nordeste, predominantemente quentes, registram a incidência do bicho durante o ano todo.
A velocidade de reprodução do aracnídeo exige atenção, pois as fêmeas geram entre 20 e 25 filhotes por gestação, com até dois partos anuais ao longo de uma expectativa média de vida de quatro anos.
Além disso, as fêmeas das espécies escorpião-amarelo e escorpião-amarelo-do-nordeste reproduzem-se por partenogênese, processo no qual geram crias sem a necessidade de acasalamento. O escorpião vive, em média, de 3 a 4 anos, e apresenta pelo menos quatro períodos reprodutivos por ano.
A aplicação de produtos químicos comuns, como vinagre e água sanitária, ou de inseticidas e pesticidas comerciais, é contraindicada pelas autoridades de saúde.
O uso desses produtos provoca o desalojamento dos animais, o que os espalha por novos ambientes e eleva o risco de acidentes, além de trazer prejuízos à saúde humana e ao meio ambiente. Os testes químicos ocorrem apenas em laboratórios controlados, sem validação científica que considere variações reais de temperatura e umidade.
O estresse provocado pelo veneno químico também constitui uma das hipóteses para o estímulo à partenogênese. Adicionalmente, o escorpião possui a capacidade de fechar seus estigmas respiratórios, os orifícios por onde respira, mecanismo que viabiliza sua sobrevivência aos pesticidas. A ciência ainda não determinou por quanto tempo o aracnídeo consegue bloquear a respiração.
Segue a lista com as características das principais espécies causadoras de acidentes no território paulista:
As autoridades sanitárias recomendam a tentativa de captura apenas se houver total segurança e proteção para o morador. O procedimento requer o uso de luvas específicas ou de um objeto longo e fino de superfície lisa, além de um frasco plástico fundo com tampa. Potes de vidro devem ser evitados para prevenir quebras. Caso falte segurança, o cidadão deve acionar a prefeitura de sua cidade para comunicar o aparecimento do bicho.
Segue a lista com as recomendações da Superintendência de Controle de Endemias do Estado de São Paulo para a remoção segura:
Não se deve capturar o escorpião com as mãos desprotegidas ou com luvas comuns de borracha ou pano, materiais frágeis facilmente transpassados pelo ferrão. A atividade nunca deve ocorrer de forma solitária.
Em caso de picada, o procedimento inicial consiste em lavar o local com água e sabão e aplicar uma compressa de água morna para mitigar a dor, que surge imediatamente e pode se estender por todo o membro afetado.
A vítima deve buscar socorro médico urgente. A Secretaria Estadual de Saúde disponibiliza um mapa interativo on-line com a localização dos 242 pontos estratégicos de soro antiveneno (Pesas) distribuídos pelo estado paulista.
A velocidade do socorro determina o prognóstico do paciente. Em crianças de até 10 anos, por exemplo, o tratamento médico exige início em até 1h30 após o acidente. Os Pesas funcionam como serviços de urgência 24h do Sistema Único de Saúde (Sus), com equipes capacitadas para a soroterapia e câmaras refrigeradas para o armazenamento dos insumos.
Casos leves ou moderados recebem tratamento por meio de infiltração de anestésico local. Conforme a necessidade, o médico receita o soro antiaracnídico ou antiescorpiônico, produzidos pelo Instituto Butantan.
O profissional de medicina é o único qualificado para avaliar a gravidade do quadro. O instituto mantém um hospital especializado em envenenamentos por animais peçonhentos, o hospital Vital Brazil, situado dentro do Parque da Ciência, na capital paulista.
Os sintomas iniciais leves compreendem dor intensa no local. Quadros moderados evoluem com suor excessivo, vômito e taquicardia. Já os casos graves manifestam-se por meio de vômitos profusos, sonolência acompanhada de agitação, tremores, elevação dos batimentos cardíacos e da frequência respiratória, salivação excessiva, hipotermia, convulsões, edema pulmonar, insuficiência cardíaca, choque e morte.
É proibido espremer, sugar ou fazer torniquetes no local afetado, assim como aplicar substâncias caseiras, práticas que agravam os riscos de infecções e complicações. Se possível, o paciente deve fotografar ou levar o animal causador do acidente ao hospital, evitando a automedicação.
De forma mais rara, os animais de estimação também sofrem acidentes com escorpiões. Não há soro veterinário disponível para esses casos; o atendimento baseia-se nos sintomas clínicos, como dor severa, inchaço, vermelhidão e claudicação (mancar). Quadros sistêmicos nos pets incluem oscilações na pressão arterial, aumento da frequência cardíaca, ritmo cardíaco lento e irregular, além de insuficiência respiratória.
O tutor deve lavar a ferida com água e sabão e encaminhar o pet imediatamente ao veterinário, sem aplicar produtos ou torniquetes, que obstruem a circulação e elevam o risco de amputação. Os soros do Instituto Butantan são de uso exclusivo para humanos e distribuídos pelo Sus.