ESTUDO

Obesidade pode acelerar envelhecimento dos pulmões

Estudo brasileiro com 895 jovens, publicado na BMC Pulmonary Medicine, aponta que obesidade e inflamação sistêmica aumentam risco de DPOC


Rhauanny Queiroz
Publicado em 02/03/2026, às 14h46

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Obesidade pode acelerar envelhecimento dos pulmões
Tabagismo teve maior impacto, mas fatores metabólicos também contribuíram para perda de função pulmonar - Freepik


Estudo brasileiro com 895 participantes com menos de 40 anos reforça que o envelhecimento precoce dos pulmões não está ligado apenas ao tabagismo.

Pesquisa aponta que obesidade e inflamação sistêmica também contribuem para a deterioração da função pulmonar e podem elevar o risco de desenvolvimento da doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC).

Conhecida como doença do fumante, a DPOC é uma condição irreversível marcada por inflamação e espessamento das vias aéreas. O quadro provoca falta de ar, dificuldade respiratória e limitações progressivas. Embora o cigarro siga como principal fator de risco, o estudo indica que obesidade e inflamação sistêmica podem, isoladamente, comprometer a saúde pulmonar.



O que mostrou a pesquisa

Publicado na revista científica BMC Pulmonary Medicine e apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), o trabalho acompanhou participantes da Coorte de Nascimentos de Ribeirão Preto, formada por pessoas nascidas entre 1978 e 1979.

A função pulmonar foi avaliada em dois momentos: entre 23 e 25 anos e, posteriormente, entre 37 e 38 anos. Ao longo de 12 anos, o tabagismo apresentou o maior impacto, com redução média de 1,95% da função pulmonar.

No caso da inflamação sistêmica, medida pela proteína C-reativa (PCR) no sangue, cada aumento de 1 mg/dL esteve associado a uma queda de 0,76% na função pulmonar. Já a obesidade também mostrou efeito relevante: a cada aumento de 1 kg/m² no índice de massa corporal (IMC), houve perda adicional de 0,28% na função pulmonar.



Elcio Oliveira Vianna, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) e coordenador do estudo, afirmou que os achados reforçam evidências já apontadas por pesquisas anteriores com grupos menores.

Segundo ele, além dos efeitos do cigarro, processos metabólicos e inflamatórios sistêmicos também podem ter papel relevante na deterioração da função pulmonar, inclusive em pessoas mais jovens e sem diagnóstico prévio de doenças respiratórias.

Inflamação e impacto nos pulmões

De acordo com professor, a inflamação sistêmica pode ter origem em diferentes partes do corpo, como nos adipócitos em casos de obesidade, e atingir diretamente os pulmões.



“A inflamação sistêmica de baixo grau, já conhecida por aumentar o risco de doenças cardiovasculares, também atinge e danifica os pulmões. Esse bombardeio inflamatório constante, mesmo que sutil, como no caso da obesidade, contribui para a lesão do tecido pulmonar ao longo do tempo, podendo desencadear envelhecimento pulmonar precoce”, explica Vianna.

DPOC pode ter origem multifatorial

Embora os participantes ainda não estivessem na faixa etária típica para diagnóstico de DPOC, os pesquisadores identificaram sinais precoces da doença, o que permitiu associar obesidade e inflamação sistêmica ao risco futuro de desenvolvimento do quadro.

“A inflamação sistêmica tem impacto direto na função pulmonar e conseguimos demonstrar isso nesse estudo populacional. Como todos os participantes eram jovens, foi possível identificar indícios da doença antes mesmo de seu diagnóstico clínico”, afirma Vianna.



O pesquisador explicou que, na prática clínica, a relação entre DPOC e obesidade nem sempre é evidente, o que pode dificultar a identificação desse fator de risco.

“Entre as decorrências da DPOC está a perda de apetite e o alto gasto calórico [perda de gordura e massa magra] por causa do esforço demandado para respirar. Portanto, como o paciente com DPOC geralmente é magro, não é comum que associem a doença à obesidade.”

Ele destacou que o estudo ajuda a ampliar essa compreensão ao apontar novos caminhos para análise da doença. “Por isso, foi importante o nosso estudo conseguir demonstrar que a obesidade, assim como outras inflamações sistêmicas, pode desencadear a doença", conta.



Para Ana Carolina Cunha, médica pneumologista e primeira autora do estudo, os resultados ampliam a compreensão sobre os mecanismos envolvidos na doença. Segundo ela, a condição não pode ser explicada por um único fator isolado.

“A doença é multifatorial e muito mais complexa do que se pensava. Além da inflamação causada pelo cigarro, pode haver um processo inflamatório sistêmico próprio do indivíduo.”

A pesquisadora também destacou que evidências anteriores já indicavam essa relação e que os novos dados reforçam essa hipótese, especialmente em grupos mais vulneráveis.



“Estudos anteriores já apontavam essa associação. Hoje sabemos que pacientes com DPOC apresentam inflamação crônica, o que levanta a hipótese de que esse processo possa ser um fator comum entre diferentes manifestações da doença, especialmente em pessoas com predisposição genética ou metabólica.”

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