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Medicamentos seguros para humanos podem ser tóxicos, ou até fatais, para cães e gatos

Veterinária alerta para os perigos da automedicação e da exposição acidental de pets a fármacos desenvolvidos para humanos


Redação
Publicado em 23/09/2025, às 14h30

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Cachorro tomando comprimido
Entre os medicamentos que lideram casos de intoxicação em animais estão os analgésicos e anti-inflamatórios - Melvin Quaresma/Divulgação


Um simples comprimido deixado sobre uma mesa, ou uma pomada aplicada na pele sem o devido cuidado, pode representar sérios riscos à saúde de cães e gatos. Muitos tutores, por desconhecimento, ou na tentativa de agir rapidamente diante de um desconforto do animal, recorrem à automedicação, utilizando princípios ativos indicados para seres humanos.

Sem compreender que, mesmo quando o fármaco é o mesmo, as doses, as vias de administração e os efeitos colaterais podem ser extremamente diferentes entre as espécies. Além disso, há substâncias que são seguras para nós, mas que causam intoxicações severas em pets, mesmo em quantidades mínimas.

Medicamentos comuns, riscos imensos

Entre os medicamentos que lideram os casos de intoxicação acidental em animais de estimação, os analgésicos e anti-inflamatórios de uso humano estão entre os mais perigosos. Substâncias como paracetamol, ibuprofeno, diclofenaco e ácido acetilsalicílico (aspirina), tão presentes nos lares brasileiros, podem causar desde danos gastrointestinais até falência hepática ou renal em cães e gatos.



A médica veterinária e consultora da rede de farmácias de manipulação veterinária DrogaVET, Farah de Andrade, explica: “No caso do paracetamol, por exemplo, basta uma dose considerada segura para um ser humano adulto para provocar necrose hepática grave e alterações hematológicas severas, principalmente nos gatos, que são extremamente sensíveis a essa substância”.

Cão no veterinário
Pets medicados corretamente têm mais chances de se recuperar - Edjane Madza/Divulgação

Outro grupo preocupante é o dos antidepressivos e ansiolíticos, como fluoxetina, sertralina, diazepam e clonazepam. Apesar de alguns desses princípios ativos serem utilizados em tratamentos veterinários, o uso sem prescrição e, principalmente, com dosagens inadequadas, pode desencadear reações adversas graves, como alterações neurológicas, convulsões, arritmias e até coma.



O mesmo vale para antibióticos de uso humano, como a amoxicilina com clavulanato ou a ciprofloxacina, que, embora usados em tratamentos veterinários, precisam ser prescritos com base no peso, na espécie e na condição clínica do animal.

Não é apenas a substância em si, mas a dose exata e a forma de administração que definem a segurança e a eficácia de um medicamento. A bula destinada a humanos jamais pode ser utilizada como referência para um pet", reforçou Farah.

Aparentemente inofensivos 

Além dos medicamentos tradicionais, outro grupo que merece atenção especial é o dos suplementos, vitaminas e nutracêuticos de uso humano. Por terem uma imagem associada à promoção da saúde, muitos tutores acreditam que a administração seja segura, ou até benéfica para os animais de estimação — o que pode ser um equívoco perigoso.

O grande problema está, mais uma vez, na diferença metabólica entre humanos e animais. A vitamina D, por exemplo, é essencial para a regulação do cálcio e do fósforo no organismo, mas, quando administrada em doses acima do necessário — o que pode ocorrer facilmente com produtos de uso humano — pode provocar hipercalcemia, levando à calcificação de órgãos, insuficiência renal aguda e até à morte do animal.



Já a vitamina A, se fornecida de forma crônica e em doses elevadas, pode causar dores articulares, letargia, perda de apetite e alterações ósseas, especialmente em gatos. O excesso de ferro pode gerar lesões gastrointestinais e hepáticas severas, e o zinco, comum em pastilhas e cápsulas para imunidade em humanos, quando ingerido por cães e gatos, pode provocar vômitos, diarreia, anemia hemolítica e outros distúrbios graves.

“O erro de pensar que o que faz bem para humanos fará bem para pets é um dos principais fatores por trás das intoxicações por vitaminas e suplementos. A farmacocinética e as necessidades fisiológicas dos animais são diferentes e qualquer adição deve ser prescrita por um médico veterinário”, alerta Farah.

Os nutracêuticos

Compostos naturais utilizados para prevenir ou tratar doenças, os nutracêuticos como ômega 3, condroitina, glucosamina, probióticos, colágeno e fitoterápicos, também têm sido cada vez mais populares entre os tutores. No entanto, quando comprados em farmácias convencionais e destinados ao consumo humano, não possuem dosagem adequada para animais e, muitas vezes, contêm excipientes, corantes, adoçantes ou conservantes que são tóxicos para os pets, como o xilitol, adoçante comum em suplementos mastigáveis, mas que em cães pode causar uma queda abrupta de glicose no sangue, levando a convulsões, coma e morte.



Da mesma forma, a melatonina, muito utilizada por humanos para indução do sono e regulação do ritmo circadiano, tem sido usada em animais em casos de ansiedade, distúrbios hormonais ou queda de pelos. Porém, a dose segura para animais é muito inferior àquela encontrada nos comprimidos disponíveis no mercado humano, além de exigir pureza farmacêutica e ausência de substâncias aditivas.

Perigos que vão além da ingestão

A intoxicação medicamentosa em pets não ocorre apenas pela ingestão oral. Medicamentos de uso tópico ou dermatológico, como minoxidil (indicado para tratamento de alopecia em humanos), representam um risco silencioso, mas letal, especialmente porque, apesar de aplicado no humano, o animal pode lamber a região ou entrar em contato direto. Apenas a exposição cutânea já pode provocar efeitos colaterais severos, como taquicardia, hipotensão, prostração e, em casos extremos, óbito.

Outros medicamentos hormonais de uso tópico, como estrógenos e testosterona em gel, também oferecem riscos quando absorvidos acidentalmente pela pele ou lambedura. O acúmulo dessas substâncias no organismo do animal pode interferir no sistema endócrino, provocar alterações comportamentais e até distúrbios reprodutivos.



Gato com tutora
Antidepressivos e ansiolíticos podem desencadear reações adversas graves em animais - Edjane Madza/Divulgação

Medicação segura só com prescrição veterinária

Dados da pesquisa Radar Pet 2023, promovida pela Comissão de Animais de Companhia (Comac), do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan), apontam que, ao perceber que o pet não está normal, 37% dos entrevistados preferem observá-lo por três dias; 35% levam diretamente ao veterinário e 22% entram em contato com o veterinário. No entanto, o índice de pessoas que buscam outros meios é preocupante: 22% pedem orientação a conhecidos; 19% medicam por conta própria e 9% procuram informações na internet.

A automedicação é sempre contraindicada, mesmo que o tutor já tenha ouvido falar de determinado medicamento sendo usado em pets, ou quando o animal já tenha usado anteriormente em outro tratamento. Cada caso exige uma avaliação criteriosa, e somente o médico veterinário pode indicar a substância correta, a dose exata e o tempo de tratamento adequado.



“Ainda que alguns princípios ativos possam ser compartilhados entre humanos e animais, como antibióticos ou ansiolíticos, isso não significa que a apresentação, a posologia e a forma de administração sejam as mesmas. Utilizar medicamentos humanos sem ajuste específico é um risco que nenhum tutor deveria correr”, afirma a veterinária.

Farah prosseguiu: “Um pet medicado corretamente tem mais chances de se recuperar, e um tutor orientado faz toda a diferença nesse processo. Por isso, sempre recomendamos que a primeira atitude, diante de qualquer alteração no comportamento, ou no estado de saúde do animal, seja procurar um profissional habilitado”. 

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