DE OLHO NA FAUNA

Boto-cinza: o que a presença desse animal pode revelar sobre o meio ambiente

Projeto Boto-Cinza pesquisa o animal há décadas e desenvolve ações de conservação, educação ambiental e monitoramento

Boto-cinza emerge da água, , com parte do corpo e a nadadeira dorsal visíveis
Boto-cinza é associado principalmente a ambientes costeiros, estuários, manguezais e baías abrigadas - Divulgação/Projeto Boto-Cinza/IPeC


Um avistamento recente no rio Itapanhaú, em Bertioga, chamou a atenção para uma espécie que tem os ambientes estuarinos como um de seus principais habitats. As imagens do animal foram analisadas pelo coordenador do Projeto Boto-Cinza, Caio Noritake Louzada, que considerou o animal muito provavelmente como um Sotalia guianensis, nome científico do boto-cinza.

Apesar da filmagem estar um pouco distante do animal, o comportamento é bem similar ao de um Sotalia guianensis. Assim, acredito que há grandes chances de serem registros de boto-cinza, sim, no rio Itapanhaú”, afirmou Caio.

O especialista explica que a identificação da espécie pode ser feita a partir de diferentes características. O boto-cinza pode chegar a 2,20 metros, possui o dorso cinza, o ventre mais esbranquiçado e uma pequena mancha cinza na lateral do corpo, considerada uma das principais características para identificação.

Quando essa marca não aparece de forma clara nas imagens, outros elementos podem ajudar na análise, como o comportamento de natação, o local onde o animal foi observado e o formato da nadadeira dorsal.

Por que o boto-cinza aparece em rios e estuários?

A ocorrência do boto-cinza no rio Itapanhaú não significa necessariamente que exista uma população residente no local. Segundo o coordenador do projeto, não há monitoramento constante na região que permita determinar a frequência dos animais no ambiente.

“Eu não consigo dizer se esse registro é comum ou incomum, pois não há um monitoramento constante para saber a frequência de avistagens dos animais na região”, explicou.

Para determinar a frequência de ocorrência, seriam necessárias expedições de pesquisa constantes para acompanhar a presença ou ausência da espécie. Mesmo assim, a presença do boto-cinza na região é considerada esperada devido às características do ambiente.

O canal de Bertioga e o rio Itapanhaú são ambientes estuarinos, onde ocorre o encontro entre as águas doces dos rios e o mar.

Estuários e baías abrigadas são o ambiente comum dessa espécie, que prefere esse tipo de ambiente em relação a áreas de mar aberto e de grande profundidade”, explicou Caio.

O boto-cinza raramente é encontrado em áreas de mais de 30 metros de profundidade em mar aberto. Sua ocorrência é mais comum em estuários ao longo da costa brasileira, especialmente em regiões com manguezais conservados.

O que a presença do animal pode indicar?

Os ambientes utilizados pelo boto-cinza precisam oferecer condições para que o animal encontre alimento, áreas de reprodução, locais para cuidar dos filhotes e abrigo contra predadores.

Por isso, a presença da espécie pode estar relacionada à qualidade ambiental do local. No entanto, é necessário considerar que existem populações residentes, que permanecem em determinada área durante todo o ano, e animais que podem apenas passar por determinados ambientes.

É importante ressaltar que há diferenças entre populações que são residentes em áreas estuarinas e animais que estão somente de passagem em determinados locais”, afirmou o coordenador.

No caso do rio Itapanhaú, portanto, não é possível afirmar que o animal registrado seja residente na região ou esteja apenas de passagem.

Boto-cinza tem papel importante no equilíbrio ambiental

O Sotalia guianensis é um cetáceo de pequeno porte e está associado principalmente a ambientes costeiros e estuarinos, formando pequenos grupos para se alimentar e se deslocar.

A espécie também exerce uma função importante na cadeia alimentar. O boto-cinza é considerado um predador de topo, ajudando a controlar populações de diferentes espécies das quais se alimenta.

O boto-cinza é um animal predador de topo da cadeia alimentar. Assim, ele ajuda no controle do fluxo de energia trófica em toda a cadeia”, explicou Caio.

Além dessa função ecológica, o animal pode contribuir para chamar atenção para a conservação dos locais onde vive. Por depender de ambientes conservados para se alimentar, reproduzir e cuidar dos filhotes, o boto-cinza pode atuar como uma espécie-bandeira para a proteção dessas áreas.

Quais são as ameaças ao boto-cinza?

A proximidade com a costa também deixa o boto-cinza exposto a impactos provocados pelas atividades humanas. Entre as principais ameaças apontadas pelo Projeto Boto-Cinza estão a captura incidental em redes da pesca industrial, a poluição química proveniente de rios contaminados por resíduos industriais, esgoto e agrotóxicos, além de colisões com embarcações e ruídos sonoros.

Em locais como o rio Itapanhaú, a degradação dos manguezais também representa uma preocupação.

Em muitos locais, como no rio Itapanhaú, uma das grandes ameaças é a degradação de manguezais, principalmente por conta da especulação imobiliária que vem sofrendo nas regiões litorâneas”, afirmou Caio.

Segundo o coordenador, a conservação desses ambientes é fundamental para a permanência da espécie. “Sem a presença de manguezais saudáveis no ambiente, é muito provável que não haja mais ocorrência de boto-cinza nos locais em que os manguezais sejam destruídos”, alertou.

Projeto Boto-Cinza atua desde a década de 1980

O Projeto Boto-Cinza, desenvolvido pelo Instituto de Pesquisas Cananéia (IPeC), tem como objetivo ampliar o conhecimento e contribuir para a conservação da espécie e de seu habitat. As atividades tiveram início na década de 1980, na região de Cananeia, litoral sul de São Paulo.

Desde então, foram desenvolvidos trabalhos de conclusão de curso, dissertações de mestrado e teses de doutorado com apoio do instituto e de instituições de ensino e pesquisa do Brasil e do exterior.

O projeto atua desde 1999 na região do litoral sul do estado de São Paulo com pesquisas relacionadas à história natural da espécie, incluindo estudos de comportamento, monitoramento de ocorrência e avaliação da saúde da população no estuário de Cananeia.

Atualmente, o foco está no estuário de Cananeia e em sua população residente, estimada pelo projeto em cerca de 400 indivíduos adultos. Não há estimativas do tamanho da população para outras localidades do litoral paulista, embora o boto-cinza ocorra em todo o litoral do estado.

Pesquisa também envolve educação e cultura

Atualmente, o Projeto Boto-Cinza conta com parceria da Petrobras e desenvolve cinco eixos de atuação: pesquisa científica, educação ambiental, economia criativa, programas extracurriculares e educomunicação.

Na pesquisa científica, são realizados monitoramentos populacionais, expedições mensais e fotoidentificação dos animais no estuário de Cananeia. O projeto também apoia pesquisas acadêmicas e participa de conselhos ambientais e de discussões relacionadas aos Planos de Ação em Biodiversidade da Petrobras.

Na área de educação ambiental, o projeto trabalha na formação de professores, com foco no boto-cinza e nos ecossistemas do Lagamar. A iniciativa também desenvolve ações de economia criativa, com diagnóstico e capacitação em artesanato local, além de programas destinados a crianças e jovens, como o Programa Jovem Pesquisador, Boto em Cena e Escola Marapé.

Outro eixo é a educomunicação, que envolve produção audiovisual, eventos temáticos e disseminação de conhecimento técnico em linguagem acessível.

Como agir ao encontrar um boto-cinza?

Quem encontrar botos-cinza próximo à costa ou em um rio deve evitar interferir no comportamento dos animais. O cuidado é especialmente importante para quem estiver em uma embarcação.

A orientação do Projeto Boto-Cinza é não se aproximar de forma brusca ou em alta velocidade, reduzindo riscos de colisão e de perturbação dos animais. A embarcação deve permanecer em baixa velocidade, sem mudanças bruscas de direção, e manter distância de pelo menos 100 metros dos grupos.

Caso a pessoa pare para observar os animais, a recomendação é deixar o motor em neutro, para que os botos possam localizar a embarcação pelo ruído produzido pelo motor. A preservação dos ambientes estuarinos e dos manguezais, portanto, está diretamente relacionada à conservação de espécies que utilizam esses locais.

O trabalho da iniciativa busca justamente unir pesquisa, educação, conservação e participação comunitária para ampliar o conhecimento sobre o animal e contribuir para a proteção de seu habitat.

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