Pesquisadores da Unifesp alertam para risco ambiental grave, após efeito do MDMA ser detectado em ostras-do-mangue na baía de Santos

Pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) identificaram que a MDMA (3,4 metilenodioximetanfetamina), conhecida popularmente como ecstasy ou 'bala', pode representar risco maior para animais marinhos da baía de Santos do que a cocaína, substância que, recentemente, também foi detectada no mar do litoral de São Paulo.
Os resultados preliminares foram apresentados no evento Escola São Paulo de Ciência Avançada sobre Poluentes Emergentes, sediada em Santos, e publicados na manhã desta sexta-feira (12) pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
O estudo utilizou ostras-do-mangue (Crassostrea gasar), espécie nativa do Brasil conhecida pela capacidade de bioacumulação, que as torna organismos sentinelas ideais para avaliar impactos ambientais. Para isso, os cientistas fizeram ensaios em laboratório a fim de analisar os efeitos toxicológicos de compostos da droga sintética derivada da anfetamina.
Nos experimentos, a exposição das ostras ao ecstasyrevelou efeitos letais e subletais, que sugerem que a substância pode provocar danos significativos mesmo em concentrações ambientais comuns. Os resultados emitem alerta para os riscos da presença desse entorpecente em ecossistemas marinhos.
Segundo o coordenador do projeto, professor Camilo Dias Seabra, o consumo de ecstasy cresce no Brasil e, especialmente em São Paulo, o que aumenta o risco de contaminação costeira. "O ecstasy, derivado da anfetamina, após metabolização e excreção, pode chegar a rios e mares por meio do esgoto, já que as estações de tratamento não eliminam completamente seus compostos", disse à Agência Fapesp.
A pesquisa apontou que concentrações entre 5 e 50 nanogramas por litro provocaram efeitos subletais nas ostras, enquanto doses de 5.000 ng.L-1 resultaram em mortalidade significativa.
Comparando-se com a cocaína, utilizada em estudos anteriores em mexilhões e enguias, o ecstasyapresentou maior potencial de agravar os impactos ambientais. Para os pesquisadores, a combinação entre aumento do consumo e toxicidade elevada pode transformar a MDMA em poluente emergente na costa brasileira.

O estudo contou com amostras de ecstasy apreendidas pela Polícia Civil no porto de Santos, repassadas ao laboratório da Unifesp mediante autorização judicial. Essa parceria entre universidade, polícia e justiça permitiu que os pesquisadores utilizassem drogas de alta pureza em experimentos controlados.
Segundo Seabra, a cooperação garante vantagem em relação a laboratórios internacionais que, muitas vezes, não conseguem acesso a quantidades necessárias para testes ecotoxicológicos. O professor Marco Parolini, da Universidade de Milão, destacou durante o evento que, na Itália, o acesso a amostras é altamente restrito, mesmo para fins científicos.
A colaboração também gera benefícios para a polícia, que utiliza dados das pesquisas para mapear a presença de drogas ilícitas em ambientes costeiros. Registros de cocaína e de seu metabólito benzoilecgoninajá foram encontrados em canais urbanos, praias, estuários e até em organismos marinhos.
De acordo com os cientistas, as concentrações de cocaína na baía de Santos são mil vezes maiores do que as registradas na baía de São Francisco, nos Estados Unidos. Pesquisas anteriores já detectaram substâncias como ibuprofeno, diclofenaco, paracetamol, cafeína e cocaína no litoral paulista, em níveis ambientalmente relevantes.
Em 2024, por exemplo, estudo do Instituto Oswaldo Cruz revelou que tubarões capturados no Rio de Janeiro apresentavam traços de cocaína e benzoilecgonina nos organismos. Para os especialistas, o cenário mostra que o Brasil enfrenta problema crescente de contaminação ambiental por drogas ilícitas.
O evento em Santos buscou justamente reunir pesquisadores e estudantes para discutir poluentes emergentes e suas consequências para os ecossistemas. Com atividades práticas, aulas, saídas de campo e até hackathon, a Escola São Paulo de Ciência Avançada envolveu profissionais de diversas áreas.
O objetivo principal é formar especialistas preparados para lidar com questões ambientais complexas e propor soluções multidisciplinares. Participaram estudantes de graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado de várias regiões do Brasil e, também, de outros países.
A iniciativa reforça, ainda, a importância da ciência colaborativa para compreender e enfrentar problemas ambientais globais. No caso do ecstasy, ainda não há registro oficial da presença da droga na baía de Santos, mas o alerta se baseia no crescimento do consumo e na alta toxicidade identificada.