Popularização dos smartphones impulsiona abandono dos telefones públicos, antes essenciais à vida urbana; veja quantos ainda há no litoral de SP

Os telefones de uso público (TUP), chamados carinhosamente pelos brasileiros de “orelhões”, por causa do formato ovalado, para facilitar a acústica e reduzir o som externo das ruas, estão com seus dias contados em todo o Brasil.
Neste ano, a partir de janeiro, equipamentos passaram a ser retirados definitivamente das ruas, segundo a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações).
A exemplo de outros países, como Londres e EUA, onde os aparelhos funcionavam em cabines para proteção do som externo, no Brasil os “orelhões” também foram símbolo nacional. Ele aparece até mesmo na foto oficial de divulgação do filme O Agente Secreto, que ganhou quatro indicações ao Oscar 2026.
Remoção dos equipamentos ocorrerá porque as companhias de telefonia fixa deixaram de ter responsabilidade pela prestação do serviço, com o fim dos contratos e das concessões emitidas pela Anatel.
A partir de agora, as empresas Algar, Claro, Oi, Sercomtel e Telefónica não têm mais obrigação legal de manter a infraestrutura de telefones públicos. Segundo a Anatel, alguns aparelhos serão mantidos em cidades nas quais não há cobertura de telefonia celular, situação que perdura até 2028.
A extinção dos “orelhões” vai deixar saudades. A aposentada Cecília Gomes, de 57 anos, que reside em Caraguatatuba, conta que chegou a usar as famosas fichas telefônicas nos “orelhões” da cidade na infância.
“Minha mãe comprava as fichas para eu falar com meu pai, que trabalhava no Rio de Janeiro. A gente tinha que falar rápido, pois, se não me engano, cada ficha DDD (discagem direta a distância), daquelas prateadas, tinha apenas 50 segundos de duração. Então, para falar um pouco mais, e ainda dividir o tempo com minha mãe e irmão, tínhamos que comprar muitas fichas. E não eram baratas”, recorda-se.
Já Raimundo Pacheco da Silva, 54, disse que à época em que os “orelhões” eram o único meio de comunicação telefônica, ia até a sede da antiga Telesp (Telecomunicações de São Paulo S/A), no centro de São Sebastião, e vasculhava todos os telefones para tentar encontrar fichas DDD esquecidas pelos usuários dentro de um compartimento que as liberava quando o tempo não era totalmente usado.
“Como o tempo de cada ficha era curto, as pessoas colocavam várias fichas para não cair a ligação. Então, quando colocavam o telefone no gancho, após terminarem a conversa, o aparelho liberava as fichas não usadas no compartimento, mas muitas pessoas não sabiam disso, ou esqueciam de recolher. Então, eu pegava as fichas esquecidas e trocava pelo valor delas em dinheiro na Telesp. Isso era possível naquela época”, contou.
“Uma pena que a brincadeira acabou quando trocaram as fichas pelos cartões telefônicos. Aí não tinha como trocar por dinheiro”, diverte-se Raimundo.
Segundo a Anatel, ainda há 38 mil aparelhos ativos em todo o país. Em 2020, eram 202 mil. Redução ocorreu porque o processo de retirada já vinha ocorrendo nos últimos anos. Na região da Baixada Santista e litoral norte, restam 1.596 telefones ativos, de acordo com o órgão.
Atualmente, os aparelhos são mantidos pela Vivo, marca criada pela espanhola Telefónica, que havia assumido a telefonia fixa no estado de São Paulo, entre 1998 e 1999, após privatização do sistema Telebras, que controlava a Telesp, arrematada em leilão.
Veja quantos telefones públicos ainda existem em sua cidade:
*Fonte Anatel