Pesquisa com eleitores de 21 a 34 anos indica que a curadoria individualizada de conteúdos empobrece o debate público e fortalece extremos

A mediação das redes sociais, na relação entre os jovens e a política, provoca transformações profundas na sociedade brasileira. Um estudo com eleitores de 21 a 34 anos aponta que o isolamento, a personificação e a polarização configuram os principais efeitos colaterais dessa interferência digital.
A pesquisa qualitativa ouviu 24 jovens residentes em metrópoles, capitais e cidades do interior de várias regiões do país. O grupo de entrevistados representa uma amostra da faixa etária que concentra 29% dos eleitores no Brasil.
De acordo com a pesquisadora Catharina Vale, da Universidade Católica Portuguesa, esse público desconhece a vivência política sem a intermediação das mídias digitais, o que os torna mais suscetíveis às mudanças nas plataformas.
Um dos impactos observados consiste na seleção deliberada e personalizada de conteúdos políticos por parte dos usuários. A pesquisadora denominou essa prática de 'curadoria do eu', uma estratégia de proteção individual contra a ansiedade e o cansaço gerados pelas redes comerciais.
Catharina Vale detalhou que os relatos expõem o esgotamento dos usuários com o ambiente digital:
Nos depoimentos ouvi falas muito marcantes que demonstram esse cansaço, como ‘brigar cansa’ ou ‘eu não queria enlouquecer’”.
O mecanismo de defesa manifesta-se na aceitação do isolamento em bolhas ideológicas. Segundo a autora, esse comportamento esvazia o debate público e enfraquece a democracia, pois elimina o espaço para a discussão e a convivência com a diferença.
A homogeneização dos grupos resulta em um alinhamento com discursos extremistas. Além disso, as relações políticas passam por um processo de personificação. A investigadora explicou que as dinâmicas de engajamento virtual ganham mais relevância do que as trajetórias partidárias:
Eu não me importo de qual partido vem o meu candidato a vereador, o meu candidato à presidência, não importa quem é essa pessoa, qual é a trajetória dela. O que acaba sendo valorizado são as práticas das redes sociais, aquelas que privilegiam o contato aparentemente direto de pessoa para pessoa”.
A origem dessa transformação estrutural remete às Jornadas de Junho de 2013, mobilizações em massa que coincidiram com a expansão do acesso do público jovem à chamada Web 2.0. A introdução de algoritmos e o cruzamento de microdados deram um novo formato à relação entre mídia e política no território nacional.
Catharina Vale concluiu que os reflexos dessas mudanças tendem a moldar o cenário institucional brasileiro por um longo período:
Tem um potencial de transformar, mas, principalmente, de transformar a política pelas próximas décadas, porque é esse novo fazer político que vai acompanhar o Brasil pelas próximas 20, 30, 40, 50 décadas à frente da gente”.
* Com informações da Agência Brasil