CRISE HIDRÍCA

Falta d´água faz paulistano trazer roupas sujas para lavar no litoral de São Paulo

Cemaden diz que situação hídrica continuará crítica e que, mesmo se houver chuvas acima da média, não haverá recuperação satisfatória dos reservatórios


Reginaldo Pupo
Publicado em 08/01/2026, às 15h06

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Crise hídrica já faz paulistano lavar roupas sujas no litoral de São Paulo
Cemaden acredita que mesmo com chuvas intensas, os reservatórios não terão uma recuperação satisfatória - Arquivo CN


A RMSP (Região Metropolitana de São Paulo) enfrenta grave crise hídrica, com níveis dos reservatórios que abastecem a região muito abaixo do desejado, piores do que em qualquer momento da crise enfrentada entre 2014 e 2015.

Conforme o portal Costa Norte havia antecipado, em agosto do ano passado, a queda nos reservatórios vem provocando a fuga de paulistanos e moradores da Grande São Paulo para o litoral paulista.

Entre o Natal e Réveillon, milhares de turistas visitaram as cidades litorâneas e, nas bagagens repletas de roupas limpas e leves para usar na praia, também trouxeram acessórios sujos acumulados.



Eles não puderam ser lavados por causa do racionamento de água implementado pela Sabesp, especialmente na capital, e os trouxeram na bagagem, para lavar aqui no litoral.

O que a maioria dos turistas não esperava é que algumas cidades do litoral também enfrentam falta d´água, motivada pelo alto consumo provocado pela onda de calor que atingiu a região, com temperaturas que chegaram a 36ºC, em alguns municípios.

No litoral norte, o casal Meire Augusto e Paulo Sérgio Palhares, que mora na zona sul de São Paulo, passou a primeira semana de janeiro em São Sebastião e aproveitou para trazer a roupa suja da família para lavar em sua casa de praia, em Toque-Toque Grande.



“Geralmente levamos duas malas na viagem para a praia, uma minha e outra do Paulo, mas desta vez, levei uma terceira, com roupas sujas que não pudemos lavar em São Paulo. À noite, as torneiras ficam secas e é impossível lavar roupas. Nossa prioridade foi o preparo de alimentos e, se sobrasse antes de as torneiras secarem, lavar as louças. Usar a máquina de lavar ficou, na verdade, ainda fica, fora de cogitação”, explica Meire.

Ela contou que, mesmo em São Sebastião, teve dificuldades para lavar as roupas. “Sentimos que a pressão da água estava muito fraca. Nas partes mais altas de alguns bairros, faltou água. Daqui a pouco não teremos para onde correr se a situação persistir”, completou ela, que, de volta a São Paulo, continua sofrendo com a escassez de água no apartamento onde mora no bairro Ipiranga.

Crise persistirá

O Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) alertou que a situação hídrica continuará crítica, mesmo se houver chuvas acima da média até março, quando termina a estação chuvosa.



Órgão diz acreditar que, mesmo com chuvas intensas, não haverá recuperação satisfatória dos reservatórios. “Os temporais da primavera e do início de verão produziram a ilusão de que há água. Mas foram nuvens passageiras, sem impacto significativo na reposição das reservas hídricas da região, que, desde 2013, sofre com escassez”, explicou o órgão, por meio de nota técnica.

Segundo o Cemaden, em 2025 choveu tão pouco no Sudeste, sobretudo em São Paulo, que, mesmo que as chuvas sejam normais, ou até acima da média, não haverá recuperação e que chuva acima da média é considerada algo “altamente improvável” e, ainda assim, insuficiente.

O Cemaden trabalhou com três possíveis cenários para o período de janeiro a março, quando terminará a estação chuvosa: chuvas abaixo da média, normais e acima da média. Mas os reservatórios e os lençóis freáticos chegaram a níveis tão críticos que, mesmo chovendo acima da média, a recuperação ficaria abaixo de 60%.



Trimestre seco

O trimestre de outubro a dezembro de 2025 foi um dos mais secos da última década, com impactos severos sobre reservatórios estratégicos como o Sistema Cantareira e o Sistema Integrado Metropolitano, de abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo, segundo Cemaden.

O período chuvoso no Sudeste vai de outubro a março, e é quando se espera a recarga de reservatórios. Mas, de outubro a dezembro de 2025, houve uma anomalia média de precipitação de −113,7mm, valor quase igual a 2023 (−117,1mm), ambos piores que 2014, 2015 e 2019.

Em boa parte do Sudeste houve mais de 50 dias sem chuva no trimestre, chegando a mais de 80 dias secos em áreas do interior e norte da região. E isso em plena estação chuvosa, gerando atraso na recarga, rios baixos e pressão sobre abastecimento.



A RMSP é abastecida por sete sistemas (Cantareira; Alto Tietê; Guarapiranga; Rio Grande; São Lourenço; Cotia e Rio Claro), formando o SIM (Sistema Integrado Metropolitano).

Em 30 de dezembro, o SIM estava com 26,1% do volume útil, o menor nível já registrado para a data, inferior a 2013 (41,4%), ano imediatamente anterior à crise hídrica de 2014–2015.

No mesmo dia, o Cantareira tinha 20,2% e o Alto Tietê 19,8%, ambos piores que em 30 de dezembro de 2013 (27,4% e 46,7%, respectivamente).



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