CIÊNCIA

Estudo revela como desinformação científica gera dinheiro nas redes sociais

Pesquisadores apontam que grupos usam linguagem científica para legitimar informações falsas e lucrar com conteúdos nas redes


Redação
Publicado em 31/07/2026, às 11h28

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Estudo revela como desinformação científica gera dinheiro nas redes sociais
Especialistas discutiram como desinformação científica é usada para obter ganhos econômicos e políticos - Reprodução/Agência Fapesp/Elton Alisson


A desinformação científica tem se tornado uma ferramenta para gerar lucro nas plataformas digitais, ao utilizar estudos, termos técnicos e a linguagem da ciência para dar credibilidade a informações falsas. A conclusão foi apresentada por pesquisadores durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Niterói (RJ).

Segundo os especialistas, em vez de negar completamente a ciência, grupos passaram a se apropriar do discurso científico para sustentar teorias da conspiração, espalhar conteúdos enganosos e promover produtos e serviços sem comprovação científica.

Pesquisa identificou novo padrão

O tema começou a ser investigado por pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia (INCT-CPCT) durante estudo sobre grupos antivacina que atuavam no WhatsApp, durante a pandemia de covid-19.



Ao analisar as mensagens compartilhadas nesses grupos, os pesquisadores perceberam que muitas delas citavam artigos científicos para justificar posicionamentos contrários às vacinas.

Segundo o professor Marcelo Alves dos Santos Júnior, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), parte desses estudos havia sido publicada em revistas científicas de baixa qualidade, conhecidas como predatórias. Outros, porém, eram assinados por pesquisadores reconhecidos em suas áreas.

A partir dessa constatação, a equipe concluiu que a estratégia atual da desinformação não consiste apenas em rejeitar a ciência, mas em utilizar sua linguagem e sua estrutura para conferir aparência de credibilidade às informações falsas.



Estratégia explora dúvidas

Durante o debate, a professora Thaiane Moreira de Oliveira, da Universidade Federal Fluminense (UFF), afirmou que um dos principais mecanismos utilizados atualmente é explorar as próprias características da produção científica, como as controvérsias e os debates entre pesquisadores.

Segundo ela, essa estratégia cria uma "fábrica de incertezas", capaz de produzir falsos especialistas, financiar polêmicas artificiais e promover produtos sem eficácia comprovada.

Na avaliação da pesquisadora, o fenômeno não representa uma crise de confiança da população na ciência, mas uma disputa pela legitimidade de quem fala sobre o tema. Nesse cenário, pessoas sem respaldo científico passam a ocupar espaço para validar informações falsas.



Caso envolveu falsa síndrome

Como exemplo, o jornalista Bernardo Costa, do Estadão Verifica, apresentou a investigação sobre a chamada "síndrome pós-spike", condição que não possui comprovação científica. Segundo o relato apresentado durante a mesa-redonda, médicos e grupos antivacina utilizaram um artigo científico para sustentar a narrativa de que vacinas de RNA mensageiro contra a covid-19 provocariam uma suposta intoxicação no organismo.

O estudo foi, posteriormente, retratado pela revista científica por falta de evidências, mas, antes disso, foi utilizado para promover consultas médicas e cursos pagos. De acordo com Costa, consultas chegavam a custar R$3,6 mil e havia filas de espera de até cinco meses, evidenciando que a divulgação da desinformação também gerava retorno financeiro.

Plataformas favorecem circulação

Os pesquisadores também avaliaram que o modelo de negócios das plataformas digitais contribui para ampliar esse cenário. Segundo Marcelo Alves dos Santos Júnior, os algoritmos que distribuem publicidade na internet priorizam alcançar usuários pelo menor custo possível, independentemente da qualidade das informações publicadas.



Na prática, isso reduz a competitividade do jornalismo profissional e favorece conteúdos de baixo rigor, que conseguem atrair audiência e gerar receita publicitária. Além disso, os especialistas alertaram para o chamado efeito "clique zero", pelo qual ferramentas de inteligência artificial passam a apresentar resumos das notícias diretamente nos mecanismos de busca.

Segundo os pesquisadores, essa dinâmica reduz o acesso aos sites jornalísticos e pode comprometer ainda mais o modelo de financiamento da imprensa profissional.

Especialistas defendem novas estratégias

Durante o debate, os pesquisadores defenderam o desenvolvimento de novas formas de comunicação científica e de ocupação dos ambientes digitais para enfrentar a disseminação de conteúdos enganosos.



Na avaliação do grupo, compreender como a linguagem da ciência vem sendo utilizada para legitimar informações falsas é um passo importante para fortalecer a divulgação científica e reduzir os impactos da desinformação nas plataformas digitais.

* Com informações - Agência Fapesp

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