POLÊMICA

Cidade do litoral sul de SP vive imbróglio que envolve estátuas de Jesus Cristo

Escultura do Cristo Redentor, em Iguape, deverá se transferida do morro do Espia para uma rotatória; no lugar, pretende-se a instalação de outra, de Bom Jesus de Iguape


Esther Zancan
Publicado em 25/10/2024, às 08h32 - Atualizado às 09h06

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Cristo Redentor de Iguape está no alto do morro do Espia desde 1953 - Pedro Rezende/Arquivo CN
Cristo Redentor de Iguape está no alto do morro do Espia desde 1953 - Pedro Rezende/Arquivo CN


Esculturas de duas representações de Jesus Cristo se transformaram em um imbróglio na cidade de Iguape, no litoral sul de São Paulo. A prefeitura tem planos de mudar a estátua do Cristo Redentor, localizada no alto do morro do Espia, para uma rotatória de acesso à cidade. Em seu lugar, pretende-se colocar outra, de Bom Jesus de Iguape, figura central de uma das maiores festas religiosas do estado, realizada no município. 

A estátua do Cristo Redentor foi inaugurada em dezembro de 1953, portanto, completará 71 anos. Trata-se de uma réplica do Cristo Redentor do Rio de Janeiro. Já a imagem de Bom Jesus de Iguape é bem maior e já estaria em produção pelas mãos de um artista. Mas, não demorou para que a provável mudança criasse polêmica na cidade. Os contrários à mudança alegam que não foi feita consulta pública a respeito da alteração. 

O prefeito de Iguape, Wilson Almeida Lima, em suas redes sociais, se manifestou sobre o imbróglio. De acordo com Wilson, o Cristo Redentor de Iguape é apenas uma peça pré-moldada em concreto e não tem valor artístico. “E do Senhor Bom Jesus de Iguape [estátua] — sendo aqui Santuário, centro de peregrinações e romarias, e a segunda maior festa religiosa católica do estado de São Paulo —, quantas estátuas existem expostas com destaque e esculpidas por artistas de renome? Nenhuma, nem mesmo na terra do Senhor Bom Jesus de Iguape”, pontuou o prefeito, que lembrou, ainda, que existem 111 imitações da estátua do Cristo Redentor no Brasil.



O Portal Costa Norte procurou a prefeitura de Iguape para esclarecimentos. A assessoria informou que não emitirá nota sobre o caso e que também não fornecerá detalhes. A administração municipal apenas informou a posição do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). 

De acordo com o Iphan, o conjunto histórico e paisagístico da cidade de Iguape foi tombado em 2011. O morro do Espia é considerado um dos elementos paisagísticos deste conjunto, com a estátua do Cristo Redentor presente desde o período do tombamento. O instituto relata que recebeu, recentemente, por parte da prefeitura de Iguape, um requerimento apresentando o projeto para a substituição da atual estátua por outra, do Bom Jesus de Iguape.

O Iphan esclareceu, ainda, que o projeto passará por avaliação técnica detalhada, que considerará as dimensões e o impacto visual, e que o caso será estudado cuidadosamente; disse também que o instituto reafirma o compromisso com a preservação do patrimônio e a  transparência no diálogo com a comunidade. A análise do Iphan tem prazo de até 45 dias para ser concluída. 



Festa de Bom Jesus de Iguape

Imagem de Bom Jesus de Iguape
Festa de Bom Jesus de Iguape atrai romeiros  de outros estados - Reprodução/ Santuário Senhor Bom Jesus de Iguape

A Festa de Bom Jesus de Iguape, padroeiro da cidade do litoral sul de São Paulo, ocorre entre o fim de julho e início de agosto e atrai milhares de romeiros, inclusive de outros estados. A imagem de Bom Jesus de Iguape encontra-se no altar do andar superior da Basílica do Bom Jesus de Iguape, que recebe visitas durante o ano inteiro. No altar, também está a botija de óleo que, diz a lenda, foi encontrada junto à imagem do Senhor Bom Jesus, no ano de 1647, na praia do Una, em Iguape.

História da imagem

A história conta que, no ano de 1647, a imagem do Senhor Bom Jesus partiu de Portugal, em um navio, rumo ao Brasil. Ao se aproximar de Pernambuco, o navio foi abordado pelos holandeses e, com receio de ter seus objetos profanados, a tripulação lançou-os ao mar, inclusive a imagem.



Após nove meses, na praia do Una, dois índios enviados por um morador da praia da Jureia à Vila Nossa Senhora da Conceição de Itanhaém, avistaram objetos entre as ondas e resolveram resgatá-los. Entre eles, encontrava-se uma imagem e, junto a ela, botijas de azeite e um caixote de madeira. Os índios deixaram a imagem na praia e seguiram viagem. Ao retornarem, a imagem, deixada virada para o nascente, agora estava voltada para o poente.

No dia seguinte, Jorge Serrano,  líder da comunidade, e sua família foram até o local e, diante da imagem, começaram a rezar pedindo graças. Decidiram então levá-la para Iguape. Um grupo de pessoas, ciente da aparição do Bom Jesus, tentou levá-lo para a Vila Nossa Senhora da Conceição de Itanhaém, sede da capitania, mas, conta a lenda, durante o trajeto, surpreendentemente, a imagem ficou muito pesada e, ao voltarem na direção de Iguape, ela se tornou mais leve. Perceberam então que o santo já havia escolhido seu destino – Iguape.

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