Escultura do Cristo Redentor, em Iguape, deverá se transferida do morro do Espia para uma rotatória; no lugar, pretende-se a instalação de outra, de Bom Jesus de Iguape

Esculturas de duas representações de Jesus Cristo se transformaram em um imbróglio na cidade de Iguape, no litoral sul de São Paulo. A prefeitura tem planos de mudar a estátua do Cristo Redentor, localizada no alto do morro do Espia, para uma rotatória de acesso à cidade. Em seu lugar, pretende-se colocar outra, de Bom Jesus de Iguape, figura central de uma das maiores festas religiosas do estado, realizada no município.
A estátua do Cristo Redentor foi inaugurada em dezembro de 1953, portanto, completará 71 anos. Trata-se de uma réplica do Cristo Redentor do Rio de Janeiro. Já a imagem de Bom Jesus de Iguape é bem maior e já estaria em produção pelas mãos de um artista. Mas, não demorou para que a provável mudança criasse polêmica na cidade. Os contrários à mudança alegam que não foi feita consulta pública a respeito da alteração.
O prefeito de Iguape, Wilson Almeida Lima, em suas redes sociais, se manifestou sobre o imbróglio. De acordo com Wilson, o Cristo Redentor de Iguape é apenas uma peça pré-moldada em concreto e não tem valor artístico. “E do Senhor Bom Jesus de Iguape [estátua] — sendo aqui Santuário, centro de peregrinações e romarias, e a segunda maior festa religiosa católica do estado de São Paulo —, quantas estátuas existem expostas com destaque e esculpidas por artistas de renome? Nenhuma, nem mesmo na terra do Senhor Bom Jesus de Iguape”, pontuou o prefeito, que lembrou, ainda, que existem 111 imitações da estátua do Cristo Redentor no Brasil.
O Portal Costa Norte procurou a prefeitura de Iguape para esclarecimentos. A assessoria informou que não emitirá nota sobre o caso e que também não fornecerá detalhes. A administração municipal apenas informou a posição do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).
De acordo com o Iphan, o conjunto histórico e paisagístico da cidade de Iguape foi tombado em 2011. O morro do Espia é considerado um dos elementos paisagísticos deste conjunto, com a estátua do Cristo Redentor presente desde o período do tombamento. O instituto relata que recebeu, recentemente, por parte da prefeitura de Iguape, um requerimento apresentando o projeto para a substituição da atual estátua por outra, do Bom Jesus de Iguape.
O Iphan esclareceu, ainda, que o projeto passará por avaliação técnica detalhada, que considerará as dimensões e o impacto visual, e que o caso será estudado cuidadosamente; disse também que o instituto reafirma o compromisso com a preservação do patrimônio e a transparência no diálogo com a comunidade. A análise do Iphan tem prazo de até 45 dias para ser concluída.

A Festa de Bom Jesus de Iguape, padroeiro da cidade do litoral sul de São Paulo, ocorre entre o fim de julho e início de agosto e atrai milhares de romeiros, inclusive de outros estados. A imagem de Bom Jesus de Iguape encontra-se no altar do andar superior da Basílica do Bom Jesus de Iguape, que recebe visitas durante o ano inteiro. No altar, também está a botija de óleo que, diz a lenda, foi encontrada junto à imagem do Senhor Bom Jesus, no ano de 1647, na praia do Una, em Iguape.
A história conta que, no ano de 1647, a imagem do Senhor Bom Jesus partiu de Portugal, em um navio, rumo ao Brasil. Ao se aproximar de Pernambuco, o navio foi abordado pelos holandeses e, com receio de ter seus objetos profanados, a tripulação lançou-os ao mar, inclusive a imagem.
Após nove meses, na praia do Una, dois índios enviados por um morador da praia da Jureia à Vila Nossa Senhora da Conceição de Itanhaém, avistaram objetos entre as ondas e resolveram resgatá-los. Entre eles, encontrava-se uma imagem e, junto a ela, botijas de azeite e um caixote de madeira. Os índios deixaram a imagem na praia e seguiram viagem. Ao retornarem, a imagem, deixada virada para o nascente, agora estava voltada para o poente.
No dia seguinte, Jorge Serrano, líder da comunidade, e sua família foram até o local e, diante da imagem, começaram a rezar pedindo graças. Decidiram então levá-la para Iguape. Um grupo de pessoas, ciente da aparição do Bom Jesus, tentou levá-lo para a Vila Nossa Senhora da Conceição de Itanhaém, sede da capitania, mas, conta a lenda, durante o trajeto, surpreendentemente, a imagem ficou muito pesada e, ao voltarem na direção de Iguape, ela se tornou mais leve. Perceberam então que o santo já havia escolhido seu destino – Iguape.