Astrônomos explicam fenômeno que deixará Vênus, Saturno, Júpiter e Mercúrio visíveis no Brasil e desmentem boatos sobre 'alinhamento perfeito'

Durante a noite, ao olhar para o céu, é difícil não reparar na imensa quantidade de estrelas. Algumas se destacam pelo brilho intenso, enquanto outras são mais tímidas. Mas, e se aquele ponto reluzente que você está encarando for, na verdade, um planeta?
Entre o final de fevereiro e o início de março, alguns planetas do Sistema Solar poderão ser observados durante o entardecer. Configuração planetária poderá ser apreciada por todo o Brasil, desde que haja condições favoráveis, como céu limpo e área com pouca, ou nenhuma iluminação.
Quatro planetas serão visíveis a olho nu: Vênus, Saturno, Júpiter e Mercúrio. Já os astros Urano e Netuno somente serão observados mediante o uso de binóculos profissionais e telescópios.
Fenômeno é caracterizado como uma conjunção, ou configuração planetária, que se difere do termo alinhamento planetário, conforme vem sendo divulgado na mídia.
Gabriel Hickel, professor da Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI), explica a diferença: “Em astronomia, alinhamento planetário ocorre quando três ou mais planetas estão quase que perfeitamente alinhados”.
Hickel é astrônomo formado na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), com doutorado e mestrado em astrofísica pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).
No caso específico deste fenômeno, de acordo com ele, os planetas estão sobre um mesmo plano, portanto, daqui da Terra, os veremos em uma faixa estreita no céu, conhecida como zodíaco, o que gera somente a impressão de alinhamento. “Então, chamar a disposição dos planetas ao longo dessa faixa (zodíaco) de ‘alinhamento planetário’ é totalmente incorreto”, explica o astrônomo.

O termo ‘desfile planetário’, que está em uso nas redes sociais e na mídia, também é inadequado. O professor Roberto Costa, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP, com bacharel, mestrado em Física na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e doutorado em Ciências (Astronomia) pela USP, comenta: “O termo 'desfile' é um pouco exagerado. O que acontecerá é um alinhamento, ou seja, alguns planetas ficarão visualmente próximos uns dos outros no céu ao redor do dia 28”.

Conjunção dos seis planetas poderá ser apreciada por todo o Brasil a partir das 19h de quarta-feira (25), porém o melhor dia para visualizar será no sábado (28).
Conforme orientado pelos astrônomos, observadores devem estar atentos à previsão do tempo e ao local de observação. Melhor visibilidade depende de céu limpo, sem nuvens e de um horizonte desobstruído, de preferência sem prédios, árvores ou morros.
De acordo com o prof. Roberto Costa, será fácil identificar Vênus e Saturno, que estarão próximos da direção oeste. Júpiter estará acima do horizonte e mais afastado do norte. Mercúrio ficará próximo ao Sol, mas será de difícil identificação devido ao brilho mais fraco. Por fim, Urano e Netuno, que, devido à distância, não estarão visíveis a olho nu.
Alguns planetas ficarão visíveis apenas por pouco tempo, como é o caso de Vênus e Mercúrio, que aparecerão por apenas 10 minutos ou menos. Já Saturno poderá ser observado até as 20h, segundo as informações de Gabriel Hickel.
Para pessoas menos experientes, ambos os astrônomos recomendam o uso de aplicativos, ou programas de computador para simulação do céu, como o Stellarium (Android ou Apple Store). A utilização irá facilitar a identificação de alguns dos astros considerados mais difíceis de localizar.
De acordo com os cientistas, o fenômeno não gera qualquer influência ou impacto no nosso planeta, a não ser a bela experiência de vê-los próximos e brilhantes no céu.
Todavia, ao longo de um grande período, pequenas alterações na órbita terrestre e no eixo de rotação da Terra podem ocorrer, em razão da influência gravitacional dos planetas. Porém, tais mudanças não dependem exclusivamente desses fenômenos.
Quanto à desinformação e às dúvidas geradas sobre o tema, o astrônomo Gabriel Hickel pontua dois fatores:
Menos pessoas estão atentas à natureza e ao céu. Isso porque a vida corrida e menos contemplativa da sociedade, somada ao tempo que passamos nas redes sociais, ocasiona a perda de percepção do que ocorre ao nosso redor.
A poluição luminosa nas grandes cidades também dificulta a observação do céu em sua forma mais ‘pura’ e impossibilita que as pessoas saibam identificar o que veem.
Excesso de informação publicado na internet, em sua maioria sem controle de qualidade. De acordo com Hickel, muitas publicações usam ilustrações dos planetas perfeitamente alinhados no céu e com brilho igual, mas que divergem totalmente do que o fenômeno realmente é, o que contribui para a difusão de fake news.
Por sua vez, o prof. Roberto Costa não acredita que o tema abordado gere, de fato, desinformação, apenas curiosidade por parte do público: “Não creio que gere desinformação. O que ele gera é curiosidade, o que é perfeitamente natural. É uma oportunidade de as pessoas observarem o céu com mais atenção”.
A conjunção ou configuração planetária não é definida como um fenômeno raro, pois configurações como essa ocorrem com frequência todos os anos, de acordo com os astrônomos.
Já nos alinhamentos planetários, a situação é um pouco diferente. São frequentes os alinhamentos de planetas mais internos do Sistema Solar, como Mercúrio, Vênus, Terra e Marte. Porém, quando consideramos os gigantes gasosos, a raridade aumenta. Gabriel Hickel, comenta:
Por exemplo, dia 20 de fevereiro tivemos um alinhamento quase perfeito entre Terra, Saturno e Netuno, que ocorre a cada 35,5 anos (se a ordem da sequência importar), ou a cada 18 anos, se a ordem não importar".
Raro ou não, a experiência de observar esta conjunção de planetas não deve ser perdida, pois, observar o céu estrelado e estes fenômenos é um lembrete, de que, fora a rotina corrida na Terra, há todo um universo em movimento, diariamente, enquanto nós vivemos.