Apesar do clima da 'caçula' da Baixada Santista não ser muito diferente do das outras cidades da região, Bertioga possui um recorde nacional de chuva

Bertioga é um dos nove municípios da região metropolitana da Baixada Santista, no litoral de São Paulo. Apesar de ser a ‘caçulinha’ (se emancipou de Santos em 1991), a cidade possui a segunda maior extensão territorial da região, perdendo apenas para Itanhaém, no litoral sul paulista. Considerada um destino turístico em ascensão, por mesclar atrações badaladas, como a Riviera de São Lourenço, com locais ainda quase intocados, como as praias de Guaratuba e Itaguaré, Bertioga tem um clima que não difere muito das demais cidades da Baixada Santista. Para entender melhor as particularidades do clima bertioguense, o Portal Costa Norte bateu um papo com o climatologista Rodolfo Bonafim, da ONG Amigos da Água, de Santos.
Bonafim disse que Bertioga possui um clima tropical de transição. “A região da Baixada Santista é uma área de passagem de várias massas de ar, com características muito diferentes entre si. Tem a massa tropical atlântica, que fica localizada no Oceano Atlântico. Tem também a massa polar atlântica, que vem desde os confins da América do Sul e até da Antártica, com massas de ar polar mais intensas. Logo, a Baixada Santista é uma região de ‘conflito’, de encontro dessas massas de ar”, explicou o climatologista.
Todo esse ‘conflito’ faz com o que o clima seja bastante instável e chuvoso na região. Não há estação seca definida na Baixada Santista, por exemplo, diferentemente do que ocorre no interior de São Paulo. Mas, parece que a chuva tem uma certa predileção por cair em Bertioga. Bonafim lembrou que o índice pluviométrico na cidade é muito alto, um dos maiores da região, o que é fonte até de preocupação, principalmente no fim da primavera e começo do verão. Janeiro é o mês que mais chove na cidade.
Mas, mesmo que historicamente janeiro seja o mês mais chuvoso em Bertioga, um recorde foi batido pelo município em fevereiro de 2023. Durante um forte temporal, que atingiu parte da Baixada Santista e do litoral norte de São Paulo, a cidade registrou 683mm de chuva, o que é considerado o maior índice pluviométrico já registrado no Brasil. O climatologista lembrou que 683mm é o mesmo que dizer que caíram 683 litros de água por cada metro quadrado. Foi esse mesmo temporal que causou a tragédia em São Sebastião, cidade vizinha a Bertioga, e que deixou mais de 60 mortos.
Mas por que, mesmo com o registro de mais chuva, Bertioga não teve tantos estragos quanto em São Sebastião? A geografia da cidade explica. Segundo Bonafim, apesar de a Serra do Mar estar presente na cidade, acompanhando toda a sua costa, há uma distância considerável entre o maciço e o mar, diferentemente do que é observado em São Sebastião. Por lá, em alguns locais, ocorre o encontro da Serra do Mar com o Oceano Atlântico, o que aumenta o risco de deslizamentos de terra e as chamadas corridas de lama, com alto poder de destruição.
Bonafim explicou também como é o verão em Bertioga. A estação mais quente do ano costuma registrar um calor bastante acentuado na cidade. Mas, apesar de ser um verão quente e úmido, com a ocorrência de temperaturas máximas de até 40 graus, Bertioga não sofre com um problema que cidades vizinhas, como Santos e Guarujá, já padecem, devido a uma maior urbanização: as chamadas “ilhas de calor”.
Já no outro extremo do clima, Bonafim aponta o mês de julho como o mais frio do ano, com uma temperatura média de 17 graus. Julho também é o mês em que menos chove em Bertioga. Ainda durante o inverno, principalmente entre os meses de julho e agosto, a cidade costuma observar o fenômeno da neblina de mar, que ocorre quando uma massa de ar mais aquecida do interior entra em contato com a superfície da água do mar mais fria, ocasionando a condensação.

Outra marca do clima bertioguense são os ventos. O climatologista explicou que a cidade costuma ser bastante açoitada por ventanias, principalmente devido à passagem de ciclones extratropicais pelo oceano, vindos da região Sul do Brasil, entre o outono e o inverno. Em alguns anos, esses ciclones podem se estender até o mês de novembro, quando há a atuação do fenômeno La Niña, que causa invernos mais frios e úmidos.
E, por falar em La Niña, será que teremos a volta do fenômeno já neste inverno? Depois do El Niño, que consiste no aquecimento das águas do Pacífico Equatorial, ter aprontado suas “peraltices” no último verão, Bonafim brinca que estamos em um momento de “La Nada”, em que nenhum dos dois fenômenos estão em atuação. “Se tivesse o La Niña neste inverno, seria um inverno muito frio. Mas a previsão é que o inverno seja mais moderado, nem muito quente, como o do ano passado, nem muito gelado”, contou o climatologista. Segundo previsões, os efeitos do resfriamento das águas do Pacífico, que é o que o La Niña significa, só devem ser sentidos a partir da primavera 2024.