UM ANO

Chuvas: estudo aponta principais agravantes da tragédia no litoral norte

Deslizamentos em São Sebastião em 19 de fevereiro de 2023 causaram 64 mortes; cidade teve o maior acumulado de chuvas já registrado no país pelo Cemaden

Estéfani Braz
Publicado em 14/02/2024, às 14h35

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Agentes da PM, Bombeiros, Defesa Civil e Exército em resgates na Vila Sahy - Governo/SP
Agentes da PM, Bombeiros, Defesa Civil e Exército em resgates na Vila Sahy - Governo/SP

As condições climáticas e as consequências das ações humanas, somadas às desigualdades sociais,  foram fatores que agravaram a tragédia, que deixou 64 mortos, na costa sul de São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, em 19 de fevereiro do ano passado.

É o que aponta o estudo multidisciplinar  Desenvolvimento regional e a intensificação das catástrofes socionaturais: o caso do município de São Sebastião/SP, desenvolvido por pesquisadores do programa de mestrado e doutorado em Desenvolvimento Regional da Universidade de Taubaté (Unitau), em parceria com estudiosos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do Centro  Paula  Souza (CPS).

A catástrofe, que completa um ano na próxima segunda-feira (19), registrou o maior acumulado de chuva já reportado no país, pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden); superou 600 milímetros em 24 horas.

Para o desenvolvimento do estudo, foi realizada análise de dados econômicos, sociais, demográficos e climáticos do município. Segundo a pesquisa, a partir de 1950, o crescimento foi puxado pelo setor turístico e expansão da atividade portuária, relacionada ao petróleo, o que resultou num crescimento econômico da região de 765,05%, no período entre 1980 e 2020.

Dados do censo demográfico do IBGE, analisados no período de 22 anos, mostram que a população do litoral norte saltou 252,64%, passando de 87.738 habitantes, em 1980, para 309.395 habitantes, em 2022. Já a população da Região Metropolitana do Vale do Paraíba (RMVale), teve um aumento de 125,21% no mesmo período; no estado de São Paulo, a alta foi de 77,38%, e a média nacional ficou em 70,62%. Quando analisados apenas os dados de São Sebastião, o número de habitantes da cidade aumentou de 18.997, em 1980, para 81.540, em 2022.

O coordenador do programa de pós-graduação em Desenvolvimento Regional da Unitau, professor Dr. Edson Trajano, explicou que o aumento da economia foi acompanhado pelo avanço do número de habitantes. “A taxa de crescimento populacional, nas últimas quatro décadas, no litoral norte, tem sido mais que o dobro da média registrada no Vale do Paraíba e quase quatro vezes mais que a média nacional e estadual”.

Outro apontamento feito pelo estudo é de que cresceu acima da média o número de domicílios ocupados no litoral norte, entre 1980 e 2022, com aumento de 550,31%. A porcentagem é bem superior à média regional (RMVale: 229,65%), estadual (179,70%)  e nacional (187,37%). “Nós estudamos as imagens de satélite em relação à mancha urbana, ou seja, ocorreu um crescimento do número de domicílios, e esse crescimento fez com que aumentasse o tamanho das cidades do litoral norte, sobretudo, São Sebastião”, esclareceu Trajano. 

As cidades do litoral norte ficam localizadas entre a serra e o mar, numa área de planície extremamente limitada, com isso, a pesquisa apontou que houve aumento significativo de residências em áreas de risco e propensas à ocorrência de desastres naturais. Para se ter uma ideia, de acordo com o estudo, até 1991, apenas 2,7% da malha urbanizada de São Sebastião ficavam em áreas de relevo ondulado, e  apenas 0,2%, em relevo de ondulação forte. A partir de meados da década de 1990 e início de 2000, o índice aumentou para 5,1% de sua área em terrenos ondulados (+88,8%), e 0,7% em regiões de ondulação forte (+250%).

vila sahy
Área atingida - Governo/SP

Além da expansão de domicílios em áreas de risco, o volume de chuvas, que foi o maior já registrado em todo o país, e as mudanças climáticas são fatores que impactaram o agravamento da tragédia.

Conhecer a realidade dos municípios do litoral norte pode ajudar no enfrentamento aos desafios criados com a combinação do crescimento econômico, configuração do território e mudanças climáticas. “Algumas casas já foram demolidas, onde o risco de deslizamento naquela região era muito alto, e começou a construção em áreas mais seguras. Nós precisamos agora fazer um planejamento urbano pensando em moradias mais seguras e, não, necessariamente, esse crescimento populacional desenfreado, que aconteceu no litoral nas últimas décadas, se repetir”.

manifestação moradores Vila Sahy
 Moradores da Vila Sahy em passeata contra demolição de casas - Divulgação Amovila

Recentemente, o governo estadual desistiu de ação judicial que permitia demolir 893 casas na Vila Sahy e informou que vai buscar novo projeto para a área. A decisão atende ao pedido dos moradores da comunidade.

Estéfani Braz

Formada em Comunicação Social na Faculdades Integradas Teresa D'Ávila

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