Neto e Lucas passarão pela África, antes de retornar ao Brasil e completar a volta ao mundo, depois de sete anos no mar; veja detalhes da viagem

Os dois irmãos, que saíram de Ubatuba, no litoral norte de São Paulo, em um veleiro em 5 de março de 2018, para dar a volta ao mundo, estão prestes a realizar o sonho. Com meta de realizar o feito em cinco anos, eles pretendem chegar ao ponto de partida próximo à data em que completam sete anos de viagem.
Celso Pereira Neto, 32 anos, e o irmão Lucas Faraco Pereira, de 29, iniciaram a aventura a bordo da embarcação 'Katoosh'. Os dois foram criados a bordo do veleiro com a família e o sonho começou desde então. “Quando a gente nasceu, meus pais moravam no veleiro Katoosh. Então, minha mãe foi pro hospital só pra ganhar a gente mesmo, mas com um mês de vida, a gente já estava de volta no barco”.

Durante o período escolar, eles desembarcaram para poder estudar, mas o veleiro Katoosh sempre esteve presente na vida dos dois. Foi durante a faculdade, decepcionados com os estudos, que decidiram abandonar o curso e investir na realização do sonho: atravessar o mundo velejando.
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Neto tinha 23 anos e Lucas, 20, quando começaram a preparação para a aventura. Mas, duas coisas eram necessárias para que o sonho fosse concretizado: dinheiro e reforma da embarcação. “Para uma viagem desse nível, o barco precisa estar em perfeitas condições e não estava." Então, eles passaram a alugar o veleiro, com passeios para grupos, durante as férias da faculdade, feriados, finais de semana.
O primeiro passo foi adquirir uma lancha para aumentar a renda. Com isso, os irmãos mantiveram o trabalho por cerca de três anos. A meta era conseguir capital suficiente para reformar o barco e iniciar a viagem. Para economizar, Neto e Lucas resolveram fazer os reparos necessários na embarcação sem ajuda externa. A reestruturação levou cerca de um ano.

Eles mesmos fizeram a reforma e, praticamente, desmontaram o barco inteiro, inclusive a parte hidráulica, a elétrica, motores, mastro. A mudança, no entanto, não foi fácil. Neto contou ainda que, mesmo vivendo desde pequeno a bordo da embarcação, foi preciso aprender muita coisa durante a reforma do barco. “Essa fase de preparação foi o mais difícil, porque a gente não tinha muito conhecimento assim, de parte elétrica" Os irmãos tinham noções básicas, transmitidas pela família. "Meu pai sempre deu maior força em relação a isso. Então, a gente foi criado mexendo e fazendo manutenção”.
Foi em 5 de março de 2018 que os dois saíram de Ubatuba em busca do sonho. A expectativa era percorrer o itinerário em três anos, com uma reserva financeira suficiente para seis meses, e viajar no estilo “mochilão”, em busca de trabalho nos países nos quais desembarcassem, para continuar a viagem.
A mudança de planos veio com a divulgação da aventura pela imprensa. A partir daí, as redes sociais, criadas para mostrar a rotina da viagem, cresceram e os conteúdos começaram a ser monetizados - quando as plataformas pagam para os criadores de conteúdo. Os dois também conseguiram patrocínios e lançaram uma plataforma de apoio à aventura.
Neto revelou que, quando partiram de Ubatuba, eles não poderiam imaginar o que encontrariam pelo caminho. “Está sendo muito melhor e muito mais intenso, muito mais difícil do que a gente pensava. Os desafios foram muito maiores. Mas, também está sendo muito bom". Ele conta que aproveitaram muito cada país visitado, porém, sentiram que a viagem precisava terminar. O desejo é chegar ao Brasil próximo à data em que completam sete anos de viagem, em 5 de março de 2025. Porém, Neto lembrou que tudo depende das condições climáticas.
Além do canal no Youtube, os dois têm a plataforma apoia.se, pela qual é possível se cadastrar e colaborar com valores a partir de R$ 10 mensais. Os irmãos também contam com um patrocinador, a Flip Boat Club. Outras fontes de renda são a criação de uma marca própria, com loja on-line, e trabalhos com outros veleiros. Eles ficaram 40 dias em Dubai, embarcados em um catamarã, no qual fizeram uma reforma geral. Também percorreram 20 mil milhas (30 mil quilômetros) em um veleiro grande, de 90 pés, para vários países a pedido do dono, mais um trabalho remunerado.
Neto considera que a viagem mudou completamente a visão de vida para os dois. “Esses seis anos e meio foram para transformar dois meninos em dois homens. O que vimos e vivemos é impossível de descrever”. Até o momento, os irmãos passaram por mais de 40 países. Como aprendizado, a resiliência e o aprimoramento sobre informações para navegação.
Enfrentamos muitos problemas. Problemas financeiros, problemas com o barco, do barco quebrar no meio do mar e a gente pensar que ia morrer. Até problemas burocráticos, enfim, a vida. Essa nossa vida é maravilhosa, mas é uma constante resolução de problemas”.
Entre os momentos mais desafiadores, a quebra do barco após colidir com uma baleia, próximo à Polinésia. “A gente estava no começo de uma tempestade. A gente bateu, quebrou o leme do barco, que é a peça responsável por dar a direção do barco, e, logo depois, chegou uma tempestade muito grande"; e eles ficaram três dias à deriva.
A situação foi resolvida com um leme improvisado que ajudou os irmãos a navegarem até o Taiti, capital da Polinésia. O problema levou cerca de seis meses para ser solucionado definitivamente e foi necessário improvisar a peça do Brasil. Durante a viagem, outras quebras do barco ocorreram.
Em um vídeo divulgado no Youtube, os irmãos explicam como é feito o planejamento de rotas. Eles contam quais fatores levam em consideração, ao decidir os caminhos da viagem. As condições climáticas, segurança, imigração e burocracia, custo de vida, conexão com internet e ponto de interesse são os principais pontos analisados para escolher os próximos destinos. Atualmente, os irmãos estão na Indonésia e seguirão viagem com destino à África.
Neto e Lucas contam ainda com alguns livros que os auxiliam durante o trajeto, como o World Cruising Routes (Rotas de Cruzeiro Mundial), de Jimmy Cornell. O exemplar é considerado a “Bíblia” da navegação, com diversas orientações sobre rotas, clima e tempo, entre outras informações importantes para quem está alto mar. Eles utilizam também World Cruising Destinations (Destinos de Cruzeiro Mundial), do mesmo autor, com informações importantes para os velejadores sobre os destinos. Além desses, Cruising Guides (Guias de Cruzeiros), com detalhes sobre locais específicos de passagem.
A internet e os meteorologistas são fontes de orientação para a dupla. Para retornar ao Brasil, algumas rotas são estudadas pelos irmãos, já que precisam cruzar o Oceano Índico, considerado o mais perigoso.
O estudo das rotas aumenta a expectativa dos velejadores para o retorno a Ubatuba. “Desde o dia em que saímos de Ubatuba, o nosso maior objetivo é chegar em Ubatuba de novo. E, agora que a gente está cada vez mais perto, é uma ansiedade cada vez maior. A gente agora não vê a hora de chegar a Ubatuba. O nosso foco é esse”.
Neto, entretanto, não tem planos pós-retorno. A meta principal é completar a aventura e, depois, resolver o que fazer no futuro. "A gente quer chegar primeiro, respirar, comemorar e, aí, ver o que vai fazer”.