Cerca de cinco mil pessoas chegaram a disputar duas pequenas faixas de areia, sem banheiros; hoje, apenas 177 turistas por vez podem descer na ilha

Um paraíso ecológico localizado no litoral norte de São Paulo poderia entrar em colapso, durante a próxima temporada de verão, que se inicia em dezembro, devido à grande quantidade de turistas que disputavam cada metro quadrado de areia na Ilha das Couves, em Ubatuba, neste período.
Sem sanitários ou qualquer outra infraestrutura, exceto a existência de um quiosque em uma das praias, os turistas usam o mar ou as trilhas como banheiro, segundo alguns guias de turismo que operam passeios credenciados no local. Apesar da demanda, não há guarda-vidas.
Antes das restrições de acesso ao local, em 2019, cerca de cinco mil pessoas disputavam as duas únicas faixas de areia, a praia da Terra e a praia de Fora, que têm, respectivamente, apenas 100m e 250m de extensão. Esteiras, guarda-sóis, coolers, toalhas, restos de comida, fraldas descartáveis usadas e muito lixo faziam parte do cenário da Ilha das Couves. O som de pássaros dava lugar às músicas de gosto duvidoso executadas por meio de caixas de som em alto volume.
![Praia principal da Ilha das Couves com exceço de turistas aos finais de semana da temporada - Foto Reginaldo Pupo (3)[Colocar ALT]](/media/uploads/2024/11/praia-principal-da-ilha-das-couves-com-exceco-de-turistas-aos-finais-de-semana-da-temporada-foto-reginaldo-pupo-3_xb100631218.jpg)
Com restrições impostas por determinação do MPF (Ministério Público Federal), o número de turistas baixou de cerca de cinco mil por fim de semana, durante a temporada de verão, para exatos 531 visitantes por dia, para evitar a degradação ambiental. A Fundação Florestal, a prefeitura de Ubatuba, a Marinha e o MPF atuaram em conjunto para definir regras de visitação à ilha.
Atualmente, apenas 177 turistas por vez podem descer na ilha, e dentro do horário de visitação, das 8h às 12h; das 12h às 15h, e das 15h às 18h. Cada grupo de turistas pode permanecer apenas três horas no local.
Com a limitação no número de turistas, os barqueiros das comunidades da praia de Picinguaba, Almada, Estaleiro e Ubatumirim, além das escunas de empresas turísticas, tiveram que se adequar à realidade e ainda sofrer fiscalização de agentes da prefeitura e da Fundação para a Conservação e Produção Florestal, sob pena de multas e risco de perda de licença de trabalho para quem infringir as regras.
Os passeios são realizados por agências de turismo, muitas, da Grande São Paulo, e pescadores da Associação dos Barqueiros e Pescadores da Comunidade Tradicional de Picinguaba. Os receptivos cobram entre R$ 70 e R$ 100 para fazer a travessia ida e volta entre a praia de Picinguaba e a ilha, em trajeto que dura entre 10 a 15 minutos.
Ao final do dia, os barqueiros, que veem no transporte de turistas uma oportunidade de obter renda extra, retiram por conta própria o lixo deixado pelos visitantes, já que não há lixeiras nas duas praias.
Em rápida pesquisa na internet, é possível localizar vários anúncios, muitos deles pagos, de empresas vendendo os passeios para a ilha. Uma delas comercializa pacotes com saída à meia-noite, do terminal Barra Funda, em São Paulo, com previsão de chegada às 6h, em Ubatuba. O valor da viagem (R$ 329 por pessoa, parcelados em 12 vezes no cartão) inclui o ônibus fretado, travessia para a ilha e seguro. O coletivo retorna para a capital às 16 horas.
Todos os sites pesquisados pela reportagem mostram belas fotos das duas praias vazias. Algumas imagens exibem a água verde e bem cristalina e, em outras, totalmente transparente. A maioria das empresas divulga viagens de um dia (bate e volta) e comercializa os pacotes a um valor médio de R$350.
Apesar da limitação de entrada de turistas na ilha, os transtornos causados pelos turistas ainda afetam diretamente os moradores da pacata vila de pescadores da praia de Picinguaba, no continente, de onde partem os barcos de passeios conduzidos pelos caiçaras. Uma estreita estrada de 4km de extensão é a única ligação por terra entre a rodovia Rio-Santos e a praia.
Muitos turistas deixam seus veículos estacionados ao longo do único acesso. Clarões na mata foram abertos para servir de estacionamento. Já na vila, os motoristas estacionam na areia da praia. Os carros estacionados por várias horas, enquanto os turistas aproveitam a ilha, são chamarizes para bandidos que quebram os vidros dos carros para praticar furtos.
Os guias de turismo acreditam que a chegada dos visitantes em massa, em 2018, começou após circulação de vídeos que mostravam a ilha e suas águas verdes viralizarem na internet, o que teria atraído diversas excursões de vans e ônibus.
"Antes disso, a ilha era bem tranquila e passava a maior parte do ano vazia. Mas, após vários vídeos na internet, o lugar foi descoberto e, naquela época, vimos um turismo totalmente descontrolado e predatório", lamentou uma guia de turismo, sob anonimato.
Praticante de mergulho, ela afirma que antes do boom turístico era comum observar espécies marinhas como raia-pintada, cavalo-marinho, estrelas-do-mar, corais, garoupas e moreias. "Com a multidão que costumava invadir o mar durante a temporada, todos eles desapareciam, assustados. Mas após as restrições, começaram a voltar gradualmente", comemorou.