ACOLHIMENTO

Oficinas de percussão e teatro ajudam na reconstrução de vínculos de mulheres em abrigo de Santos

Projeto cultural usa o aprendizado do pandeiro para trabalhar expressão, convivência coletiva e fortalecimento da autoestima em espaço de acolhimento


Redação
Publicado em 24/09/2026, às 09h12

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imagem do pandeiro durante a aula
Atividades artísticas ajudam acolhidas a superar históricos de vulnerabilidade - Divulgação/Delaine Amaral/Prefeitura de Santos


O som cadenciado e o ritmo marcado no couro do pandeiro têm transformado a rotina interna de uma das unidades residenciais de acolhimento mantidas em Santos.

Em um endereço preservado sob estrito sigilo por razões de segurança, mulheres vítimas de violência doméstica e familiar encontram na prática da percussão e nas artes cênicas um espaço de descompressão, ressocialização e resgate da identidade pessoal durante o período de abrigamento temporário.

imagem da percussionista que ministra as aulas
A percussionista Lele Lotus orienta moradoras em abrigo de Santos durante oficina semanal de pandeiro - Delaine Amaral/Prefeitura de Santos

As atividades fazem parte da programação semanal de oficinas culturais oferecidas aos equipamentos de assistência social do município. Entre as modalidades com maior adesão está a oficina de pandeiro, conduzida pela percussionista e educadora Lele Lotus.

A proposta do trabalho vai além do ensino técnico de ritmos tradicionais brasileiros, como o samba e o choro: busca utilizar a coordenação motora, a escuta atenta e o pulso coletivo da percussão para trabalhar o foco no presente e a superação do trauma.

A metodologia aplicada nas aulas desmistifica a complexidade do instrumento, permitindo que participantes sem experiência musical prévia consigam acompanhar as primeiras métricas nas primeiras sessões.

O ritmo compartilhado exige atenção plena, ajudando a dissipar momentaneamente as tensões acumuladas pelo histórico de vulnerabilidade e pelas incertezas quanto ao futuro fora da instituição.



Convivência coletiva e o impacto no cotidiano da moradia

A convivência em um serviço de acolhimento de alta complexidade apresenta desafios diários de adaptação. Abrigadas sob regime temporário, que pode se estender por até nove meses, as moradoras dividem espaços comuns enquanto aguardam os desdobramentos de processos judiciais, a concessão de medidas protetivas de urgência ou a reorganização de suas redes familiares e financeiras.

Nesse contexto de vulnerabilidade acrescida, o compartilhamento das oficinas artísticas atua como um catalisador de empatia e pacificação do ambiente. O trabalho em grupo estimula a cooperação, diminui os atritos decorrentes do estresse do isolamento e oferece uma válvula de escape emocional.

A prática musical coletiva cria um ponto neutro de contato entre as acolhidas, onde as trajetórias individuais de dor dão lugar à construção coletiva de um som comum. A iniciativa musical dialoga diretamente com outras frentes de apoio oferecidas na casa, como oficinas de teatro e encontros de escuta terapêutica.



O objetivo das linguagens artísticas combinadas é oferecer ferramentas expressivas para mulheres que frequentemente chegam aos abrigos com a voz e a capacidade de escolha anuladas por anos de abusos físicos ou psicológicos.

Estrutura de proteção e autonomia para novos ciclos

O serviço de acolhimento institucional para mulheres em situação de violência integra a rede de proteção social do município, oferecendo moradia protegida, alimentação, acompanhamento psicológico, suporte jurídico e articulação com a rede de assistência social para inserção no mercado de trabalho e obtenção de autonomia habitacional.

A inclusão de projetos culturais e educativos no cronograma do abrigo busca preencher o tempo de permanência na unidade com vivências que desenvolvam competências socioemocionais.



Ao aprenderem a dominar um novo instrumento ou participarem de dinâmicas de grupo, as acolhidas trabalham o sentimento de capacidade e a autoconfiança, elementos considerados fundamentais pelas equipes técnicas para que consigam romper definitivamente com o ciclo de violência ao deixarem a instituição.

As denúncias e pedidos de socorro para mulheres em situação de violência doméstica podem ser feitos pelo telefone 180 (Central de Atendimento à Mulher) ou diretamente junto aos órgãos de patrulha e segurança da região.

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