Pesquisa analisou formações na Ilha da Queimada Grande e na Bahia, identificando mais de 450 espécies e 1.837 assinaturas genéticas

Um banco de algas calcárias na Ilha da Queimada Grande, em Itanhaém, no litoral de São Paulo, está entre os dois ambientes brasileiros analisados em um estudo que identificou mais de 450 espécies de algas e invertebrados. A pesquisa estima que, em um cenário menos conservador, os dois bancos analisados juntos podem representar até 1% da biodiversidade marinha global conhecida. O outro local estudado é o Banco dos Abrolhos, na Bahia.
Apesar de parecerem pedras comuns encontradas no fundo do mar ou nas praias, os rodolitos são estruturas formadas por algas calcárias vivas aglomeradas. Esses ambientes servem de abrigo e berçário para diferentes formas de vida marinha.
O estudo foi publicado na revista Biological Conservation e realizado por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Para analisar a biodiversidade presente nos ambientes, os cientistas estudaram materiais coletados nos dois bancos de rodolitos.
Os rodolitos são formações duras e rosadas produzidas pela aglomeração de algas calcárias. Eles ficam no fundo do mar e podem servir de habitat para uma grande variedade de organismos.
A pesquisa analisou dois bancos brasileiros. O Banco dos Abrolhos, na Bahia, possui cerca de 20 mil km² e é apontado como a maior área do mundo recoberta por rodolitos. Já o banco localizado na Ilha da Queimada Grande, em Itanhaém, no litoral de São Paulo, possui aproximadamente 1 km².
Mesmo com tamanhos muito diferentes, os dois ambientes apresentaram uma diversidade significativa de organismos.
A análise identificou mais de 450 espécies de algas e invertebrados vivendo na superfície e no interior dos rodolitos. Considerando que são conhecidas aproximadamente 200 mil espécies marinhas no mundo, as espécies identificadas correspondem a cerca de 0,2% da biodiversidade marinha global conhecida.
Esse resultado considera as espécies que puderam ser identificadas diretamente nas amostras analisadas. Porém, os pesquisadores utilizaram também uma técnica de análise genética para investigar organismos que poderiam não ser reconhecidos apenas pela observação.
Os pesquisadores utilizaram uma técnica chamada metabarcoding, que permite extrair e analisar simultaneamente o DNA dos organismos presentes nas amostras.
O método revelou 1.837 assinaturas genéticas únicas, chamadas de ESVs. Nem todas puderam ser relacionadas a espécies conhecidas, porque o DNA de muitos organismos ainda não está catalogado nos bancos de dados utilizados pelos cientistas.
A partir desses resultados, os pesquisadores consideraram um cenário menos conservador, no qual cada uma das 1.837 assinaturas genéticas corresponderia a uma espécie. Nessa hipótese, os dois bancos de rodolitos analisados juntos poderiam representar até 1% da biodiversidade marinha global conhecida.
Portanto, o percentual de até 1% não corresponde exclusivamente ao banco localizado em Itanhaém, mas à estimativa para os dois ambientes estudados em conjunto.
A pesquisa também identificou 21 gêneros que nunca haviam sido observados anteriormente na costa brasileira ou no oceano Atlântico. Algumas das sequências encontradas podem representar espécies ainda não descritas pela ciência.
Entre os resultados estão ainda quatro potenciais novas espécies de algas. O gênero Dissimularia chamou a atenção dos pesquisadores porque as quatro espécies conhecidas atualmente são restritas ao oceano Pacífico, sugerindo que o exemplar brasileiro pode ser inédito para a ciência.
A análise molecular também permitiu identificar organismos que poderiam passar despercebidos em observações tradicionais, principalmente aqueles de pequeno tamanho ou que vivem escondidos no interior dos rodolitos.
Entre os organismos encontrados estão esponjas, ascídias, briozoários, nematoides, nemertíneos, ostracodos e ácaros marinhos. Também foram detectadas sequências relacionadas a animais associados ao ambiente dos bancos, como camarões, siris, caranguejos, estrelas-do-mar, pepinos-do-mar e ouriços.
No caso das esponjas, foram registrados três novos registros para o Atlântico Sudoeste. Uma das espécies identificadas também representou o primeiro registro para todo o Atlântico.
Segundo os pesquisadores, a quantidade de organismos ainda desconhecidos nesses ambientes demonstra que a biodiversidade dos bancos de rodolitos permanece pouco estudada.
Os bancos de rodolitos estão espalhados pelos oceanos e podem ocorrer desde águas rasas até cerca de 200 metros de profundidade. No mundo, a área estimada ocupada por essas formações é de aproximadamente 4 milhões de km².
A pesquisa aponta que esses ambientes podem estar entre os ecossistemas com maior diversidade do planeta. Estudos anteriores citados pelos pesquisadores indicam que, regionalmente, bancos de rodolitos podem abrigar até 30% da biodiversidade.
Para Guilherme Pereira-Filho, professor do Instituto do Mar da Unifesp e coordenador do estudo, conhecer melhor esses ambientes é importante para a conservação.
É importante conhecermos melhor esses hábitats a tempo de protegê-los”, alertou o pesquisador.
Os bancos brasileiros ainda são explorados como fonte de carbonato de cálcio, utilizado na agricultura para corrigir a acidez do solo. A exploração de petróleo no mar também é apontada no estudo como uma ameaça aos ecossistemas, tanto pelas perfurações no leito marinho quanto por possíveis vazamentos.
Além da importância ecológica, os pesquisadores destacam o potencial dos rodolitos para a bioprospecção, área que busca organismos e compostos naturais que possam ser utilizados pela sociedade. Esses ambientes podem contribuir para futuras descobertas de moléculas com potencial para medicamentos e outras aplicações biotecnológicas.
Os pesquisadores acreditam que ainda pode haver outras formas de vida associadas aos rodolitos. Em uma nova etapa da pesquisa, o grupo está avaliando se essas formações podem abrigar estruturas reprodutivas de outras espécies em seu interior.
Segundo Pedro Longo, primeiro autor do trabalho, os rodolitos podem funcionar como uma espécie de 'banco de sementes', abrigando estruturas reprodutivas difíceis de serem detectadas.